16 de dezembro de 2015

Janelas constantes



Se fosse possível parar o tempo ali, poderia viver as quatro décadas de vida que ainda lhe restavam. Respiraria aquele azul do céu até clarear a alma. Sofria por excesso de janelas. Todas as noites insones elas voltavam para atormentá-la. Janelas fechadas em bruscos movimentos. Janelas apenas espiadas pela fresta. Janelas jamais abertas. Cada uma delas contribuía para o escuro daquele longo corredor.

Pisava passos covardes, ao arrastar os pés e tatear o que viria adiante. Atingia assim o grau máximo de risco capaz de enfrentar em seus dias. Boas eram as noites em que o corpo não realizava empuxo algum, sem se embalar em qualquer movimento de descoberta. Joelhos na testa, abraço nas pernas. Assim, a luz era ainda menos visível e das janelas nem se lembrava. Desse jeito também poderia parrar o tempo por décadas. Quem sabe as frestas não sumiam?

Dedilhar a capa do livro que a salvaria - segundo a lista de mais vendidos do mês – se tornou mais que um hábito, uma habilidade. Tantos tipos de som em cada movimento dos dedos, punhos e mãos. Descobriu a força do anelar esquerdo, antes só notado quando digitava as mais importantes letras do teclado - entre elas o "s", de plurais que lhe faltavam. Formulou também a teoria de que Mozart teria sofrido com as janelas da alma. Mas sempre restava a dúvida se o pianista possuía mesmo um acervo de livros ruins com capas de boa gramatura. Mais medíocre que ser medíocre era se comparar aos grandes.

De volta ao corredor escuro. De volta às janelas. Abri-las? Saltá-las? A janela real já esboça sinais de transmutação. A madrugada se encontrava em estado agudo de ansiedade por partir, não suportava mais aquele silêncio a que fora condenada, sobretudo nos dias de semana. E as janelas... As janelas insistem em se impor, não querem se esvair com a claridade, afinal, a antítese claro/escuro poderia ser o motivo de sua invenção

A transição empunhava algumas verdades escondidas pela noite. Não era das janelas a culpa de tamanha tormenta. Na verdade, a existência delas, ainda que fechadas, provocava um estranho conforto. Tremia o queixo apoiado nos joelhos de pensar no dia em que, num impulso só, abriria todas as janelas. E se o escuro lá de fora - ou de dentro, como queira – fosse igual ou maior ao do corredor? Melhor sofrer de excesso de janelas fechadas do que ausência de luz. Adormece.

10 de março de 2015

'Dia' à procura de 'logos'


Muita violência, uma verdadeira guerra. A munição provavelmente havia sido arrancada de um antigo caderno de desenhos com giz de cera. O inimigo queria adentrar o meu território, mas forcei meu corpo contra a porta até conseguir trancá-la. O anúncio era simples, mas causava uma comoção enorme em mim por ser irremediável. Foram meses pensando o contrário, mas ele havia ganho, era menino, era um irmão como meu algoz queria e não irmã como eu desejava. Era ele quem teria parceiro para o futebol e não eu para as bonecas.

Minha estratégia de defesa foi indestrutível, coloquei as mãos sobre os ouvidos e comecei a gritar a verdade que eu queria, bem alto. Mais tarde, minha mãe, ao ver o cenário de guerra instaurado em casa, preferiu ganhar uns meses de paz dizendo que só era possível saber o sexo ao certo após o parto. A casa silenciou e eu voltei a ter esperanças por um tempo, mesmo desconfiada.
Ontem encontrei uma amiga que não via há meses, tínhamos tanto a dizer e ouvir uma da outra. Tínhamos? Pelo menos era o que eu pensava, mas ela me fez lembrar tanto daquela garota jogando o peso do corpo sobre a porta, tapando os ouvidos e gritando alto. Cada assunto iniciado era interrompido pela opinião suprema da minha interlocutora. Cada trecho das minhas falas, devidamente carregados das minhas crenças, precisava ser descontinuado abruptamente. Meu corpo repousou alí, se fingindo de ouvido e concordando com a cabeça e gemidos, vez ou outra. Mas minha mente foi pra longe, foi se perguntar por que será que há tantas vozes sobrepostas, tanta opinião e tão poucos ouvidos - de verdade - atentos para recebê-las? Por que será que anda tão difícil exercer o diálogo, aquele que faz sentidos próprios girarem e tomarem outros rumos quando acrescidos da palavra do outro, aquele que liga pessoas através de ideias, que reúne conhecimentos, que te manda pra casa com muita coisa para refletir dentro da bolsa? E pensando bem não é só o espectro nebuloso que vejo da minha amiga - depois de quase um minuto sem piscar - quem impede que se agreguem “dia” aos seus “logos”. É muito comum encontrar “ouvidos tapados” por aí. As redes sociais estão cheias deles. É preciso falar de si cada vez mais, reafirmar sua opinião tantas múltiplas vezes quanto se renega o entendimento alheio. É preciso ouvir do outro cada vez menos. É preciso ter razão seja qual for o motivo. Eleições, futebol, relacionamentos, crimes, a vida do famoso, tudo precisa ser opinado, propagado e de preferência sem julgamentos opostos no meio do caminho.

Os 24 anos de vida do meu irmão, que me separam daquela menina que queria uma irmã, me fizeram entender que é importante ouvir e que as outras verdades nem sempre são tão ruins, mesmo que a princípio pareçam. Ele não brincava de boneca comigo, ele era meu boneco. Levei na escola, dou conselhos, dividimos gostos parecidos e, pasmem, ele torce para o meu time e não para o do irmão - que tratou de ter outras congruências com o caçula.

Se nada valeu para a menina berrante tapar os ouvidos, valeria para ela ou qualquer um passar a vida inteira insistindo nesse grito, independente de quais fossem as contrariedades do momento? Vale para quem calou-se dos berros até esse ponto do texto alguma reflexão? Se sim, acho que diria: sempre há tempo de ouvir as outras vozes, de falar em outros tons, de fazer um coral, de impulsionar o giro de suas ideias e promover o encontro dos seus "logos" com o "dia".