15 de maio de 2014

Baseado em incertezas



Hoje eu amanheci viva. E presumo que você, que está aí lendo esse texto, também. Ontem à noite - depois de enfrentar um dia bem corrido e, infelizmente, bem típico -, eu não poderia dizer que com certeza acordaria no dia seguinte. Mas sim, hoje sim, assim como ontem, acordei, amanheci viva. Sei disso porque me movimento para debaixo das cobertas, ao passo que minha mente tenta gerar algum impulso físico a fim de me expulsar da cama para o quarto, para a casa, para a rua, para a vida.  Além disso, vejo a cortina dançando a dança dos ventos, sinto o cheiro do café da vizinha, ouço os barulhos das manhãs em prédios com vão – do choro do bebê ao ronco do senhor, cada um com seu tom e volume, por vezes atenuados pela distância dos andares.

Já se passaram sete horas desse dia que acordei viva, e nas próximas 17 horas nada pode ser tão certo quanto a inspiração e expiração que pratico nesse instante. A tomada da cafeteira está há tempos com um fio desencapado, será que a casa se incendeia enquanto tomo banho? Mas o banho é em chuveiro a gás, será que o gás vaza antes do fio entrar em curto-circuito? Se bem que aquele tapete no caminho para o banheiro está escorregadio, se o caso for um acaso assim acontecer, quem sabe não tropeço?


Vencidas as etapas em casa, passo por perigos maiores ao sair na rua. Já começando pela portaria, já pensou se o porteiro estivesse rendido por bandidos? E essa corrida que eu dei para pegar o ônibus bem na calçada de pedras portuguesas? Que risco eminente! Pequei o ônibus mais perigoso da região. Dizem que a cada dez pessoas que utilizam essa linha, pelo menos uma é assaltada. Seria eu a sorteada hoje? Li em uma manchete na banca, bem rapidamente, enquanto parávamos em um ponto, que o índice de desemprego aumentou muito nos últimos tempos. Poderia eu estar prestes a perder o meu?


E o dia seguiu repleto de incertezas. O perigo estava ali o tempo todo. O espinho do peixe; o carro saindo da garagem; a topada na mesa; a ida ao banco; o sinal que abriu rápido demais; o andaime bem acima de mim; o vão do metrô; o garoto se aproximando com cara de poucos amigos; o chão molhado; a ligação, devidamente recusada, de um possível pretendente; o porteiro que, novamente, poderia estar rendido; e, enfim - ufa! - minha casa. Os perigos não param aqui dentro, e ainda faltam três horas desse dia que acordei viva.


Mas o maior perigo aqui, está dentro de mim.  Por mais que meu sangue pulse, minha respiração percorra seus caminhos, minha pele esteja quente, meu corpo esteja abrigado e coberto, é esse medo das incertezas que insiste em jogar na minha cara bem na última hora do dia, que não, hoje não, assim como ontem, não acordei, não amanheci, não amanheci viva, não vivi. Quem sabe amanhã? Será que acordo cedo para isso? Será que acordo?

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