24 de março de 2014

O pássaro, o homem e as grades

Não gosto de gaiolas. Nunca gostei. Nem mesmo em decorações floridas e iluminadas, ou nessas estampas, com portas abertas, sugerindo uma explosão de liberdade ao som de Freendom em forma de camisetas fofas. Simplesmente porque se existe gaiola – com ou sem flores, aberta ou não – já houve uma prisão, ou a intenção de aprisionamento. Mas aquela gaiola especificamente, pela qual eu passo todos os dias, me intriga e me comove.

Presa a uma marquise embolorada, de um edifício antigo cheio de apartamentos, em um ponto bem alto de uma das calçadas mais movimentadas de Copacabana, a gaiola em questão, abriga o pequeno e agitado pássaro do porteiro. Exposto aos ruídos e poeira, sob os olhares atentos do seu dono, o bicho, se mostra cúmplice e ajudante, piando e se movimentando sempre que um morador se aproxima do portão, como se essa atividade fizesse parte de sua função vital.

A cena não parece incomum e, por isso, a ave e o porteiro quase se camuflam no anonimato de seus papéis, praticamente despercebidos pelos milhares de transeuntes que circulam por ali todos os dias. Apesar disso, o que faz desse quadro interessante para mim é que os dois, além de serem companheiros de labuta, coexistem na estreita relação entre suas vidas, as grades e a dúvida se elas os protegem ou aprisionam.

Sempre ali, todas as manhãs, um a contemplar o outro e a dividir os medos, os pios, as buzinas, a poeira, a fumaça, os horários para comer, os momentos para receber moradores, o silêncio de palavras humanas, a ausência de olhares e uma solidão devidamente acompanhada, tanto para bicho, quanto para homem. Talvez faça com que ambos dividam também o mesmo sonho, o de ter uma rotina menos programada, ou de viver longe das grades, quem sabe eles queiram mesmo poder voar por aí? Ou, simplesmente, nutram o desejo de continuar assim, como estão: executando com perfeição suas funções em equipe, nessa estreita e harmoniosa relação entre pássaro, homem e grades.

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