29 de outubro de 2013

À esquerda das maravilhas


No ônibus: Lado direito disputado, mesmo com sol, é ali que se pode observar durante a viagem – que com o trânsito que está hoje (e quase sempre), será longa – a cidade maravilhosa e sua orla, o vigor das ondas, a agitação da espuma branca, o conforto da areia fofa, a beleza do cenário, a expiração dos atletas de um dia, a tranquilidade da repetição de movimentos do praticante de SUP, a calma das senhoras caminhando, a vontade de ter outra rotina, de saltar e ir ser um deles. Ali, a cidade respira, a natureza disfarça seus esgotos, os pequenos furtos perdem espaço para a bossa nova ao vivo, que vem do próximo quiosque. Ali, os gringos fotografam, enquanto possuem câmeras; os turistas de outros estados se extasiam; os moradores superlotam seus instagrans, e se sentem compensados por todo tempo e dinheiro despendidos na gincana diária enfrentada para ver e viver tudo isso - nem que seja pela janela direita do ônibus.

Mas não se atrase, não dê a frente na fila para uma idosa ou para o moço com muitas sacolas, gentileza gera um longo período de pé, ou, na melhor das hipóteses, um lugar do lado esquerdo. Nesse lado, as pequenas lojas fazem descontos ainda em órbita, enquanto as imobiliárias anunciam valores fora da estratosfera. Nesse lado, tem promoção de salgado com refresco para quem se atrasou, tem também as mobílias dos sonhos para compor aquele apartamento anunciado logo ali. Nesse lado, tem meninos com suas garrafinhas de cola e tem moradores de rua aproveitando o calorzinho matinal para dormir o sono que a noite fria e, talvez, o uso de drogas pela madrugada afora, não permitiram. Tem também os cachorros das madames encontrando os tão sonhados postes, sob a tutela de seus passeadores particulares. Os pequenos furtos também acontecem ali, mas são ofuscados rapidamente pela imagem das portas de vidro do banco estilhaçadas na manifestação de ontem. Tem até a intervenção do passageiro, capaz de interromper a música no fone para se pronunciar: Vândalos, bandidos mascarados, destruindo nosso patrimônio!

Desse lado a cidade mostra suas entranhas, suas veias entupidas, seu colesterol alto, e seu povo compondo o sangue que corre por ela - muito mais venoso que arterial. Falta oxigênio. Faltam respiros e reflexões. Falta sair do ciclo cada vez mais rápido, e que de tão rápido e necessário te rende, cada dia mais. Falta pagar o resgate da sua alma sequestrada. Falta descobrir como pagar o resgate da alma sem deixar de pagar o aluguel. Falta sonhar com o que se faria estando de posse da alma. Berraria, saltaria e faria a revolução? Faltaria quem acompanhasse? Uma senhora surpreende meus devaneios, usando um elevado tom de voz para pensar alto. Teria ela resgatado a alma que faltava? De volta à realidade ouço a frase se formar aos poucos: “Nossa, olha como estão boas as ofertas de aniversário desse mercado!”. E então, já direcionando seu discurso à passageira ao lado, completa: “Talvez na volta eu desça aqui para esperar o trânsito melhorar”. Assim, a senhora, provavelmente seguirá para casa mais tarde, do lado que for do ônibus, entre cochilos e sacolas, se sentindo revolucionária por ter feito a feira mais barata dos últimos meses. E quem há de dizer que ela não é?

2 comentários:

  1. qd se está com um pé imóvel passa-se a dar mais importância para as faltas de gentilezas do que para os preços do mercado. rs
    Belíssimo texto.

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  2. Adorei!
    Essa dicotomia de lados no ônibus foi muito maneiro!

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