28 de agosto de 2013

Sujeito a mudanças



Era aniversário de Sujeito e ele havia escolhido uma meta para seu novo ano de vida. Sujeito queria ir fundo no sentido da palavra mudança. Decidido a radicalizar, Sujeito foi às compras, mudou totalmente seu estilo. Aproveitou e passou no barbeiro, tirou os - desde sempre - bigodes, mudou o corte, arriscou uma tintura. Sujeito e suas sacolas foram então visitar imobiliárias, havia chegado a hora de dar o passo definitivo para consolidar sua transformação: mudar-se de casa.

E não foi nada fácil, entre os entraves das altas taxas, impostos, comissões, ainda havia a escolha do novo. Um novo bairro, uma nova disposição de cômodos, uma nova vizinhança. Depois dessa fase, Sujeito julgou ser mais fácil o restante do processo, afinal, não era mais preciso fazer escolhas. Em poucos minutos, diante da primeira caixa a ser preenchida rumo ao novo apartamento, Sujeito percebeu o tamanho do engano. As escolhas estavam só começando. O que levar para o novo? O que só está ali na prateleira há anos por apego? Do que eu realmente preciso para viver?

Depois vieram mais dúvidas. Aquelas paredes estavam pintadas há tanto tempo. Que cores me representam hoje? Que móveis eu preciso de verdade para me dar suporte no dia a dia? Há quanto tempo estão desocupadas as outras cinco cadeiras da mesa de jantar, além da minha? Ali, parado no meio da sala com suas caixas, Sujeito entendeu que não estava de mudança como imaginava. Afinal, percebeu-se preso aos seus costumes, hábitos, rotinas, egoísmos e comportamentos programados que nem mesmo lembrava de onde tinham vindo.

Sujeito e suas caixas estavam diante de outro desafio. Essa sim, a verdadeira mudança, seria difícil e provavelmente culminaria na dispensa de alguns de seus pertences e condutas que trazia em suas caixas. Pensar fora da caixa era essencial para iniciar esse doloroso processo. Doloroso sim, porque Sujeito estava abrigando seus males há tanto tempo, que eles não queriam outra morada, já haviam até se acostumado com a vizinhança e com as ocasiões em que eram acionados.

Sujeito compreendeu que mudar não é nada fácil, mas que nos primeiros dias dedicados a isso já era possível constatar o quanto seria bom ver o mundo e a si de outra maneira. Sujeito viu como era bom mudar de opinião, mudar de prioridades, mudar de emprego, mudar de ideia, mudar de caminho, mudar a rotina, mudar os comportamentos, mudar aquela velha opinião formada sobre tudo. E o que mais instigava ele era saber que as mudanças nunca chegariam ao fim. Aos que questionavam sua transformação, ele tinha uma resposta pronta: “Sou o que sou mais o que faço para mudar o que sou”. E assim seguiu a vida de Sujeito, à partir de então sempre sujeito a mudanças.

3 comentários:

  1. Mais um texto maravilhoso. Adorei o sujeito e me senti muito bem lendo esse texto. Fiz uma fan page do Absinto no facebook. Minha ideia é compartilhar por lá textos de outros blogs que eu também goste. O seu será o primeiro. Compartilhando em 3,2,1 foi!

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  2. Ai, adorei o Sujeito!!! Texto maravilhoso, flor. To apaixonada!!! Quero ler mais e mais e mais!! Portanto, ESCREVA SEMPRE!!! =)

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  3. Excelente crônica!
    Fiquei pensando: será que somos o que somos ou somos as nossas escolhas?
    Se somos as nossas escolhas, então, em que nos trandformamos quando mudamos tudo é tão radicalmente, como fez sujeito?

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