7 de junho de 2013

Vai Berenice, vai!


Berenice gostava muito dos verbos amar e ser, mas não percebia que nunca os usava na mesma frase. Com o primeiro ela podia amar os objetos diretos mais pertinentes para cada momento. Amava seu gato Pasqual; amava música antiga; amava beber vinho e ficar com a boca roxa; amava ser livre para amar o que bem entendesse. Com o outro verbo, Berenice - segura como só ela sabia se fazer parecer -, era! Berenice era tanto, era muito, era invejada por tanto ser e de tanto ser sem ser, Berenice ia.

Esse último verbo, o ir, não estava na lista dos preferidos de Berenice, mas com certeza estava entre os mais conjugados. Com ele, Berenice podia ir aonde quisesse, e ela gostava mesmo de ir. Sempre dizia "Me chama que eu vou" e lá ia Berenice, lá vai Berenice, já foi Berenice.

Certo dia, Berenice, se entregou a uma reflexão que teimava em aparecer vez ou outra: sentia falta mesmo era de dizer em alto e bom som o "ser" no presente do indicativo seguido pelo "amor" adjetivado no feminino na mesma frase "sou amada". A controvérsia é que Berenice não amava ser. De tanto não amar ser, Berenice preferia ser o que não era de fato. E de tanto não ser o que era de fato, Berenice precisava sempre estar indo. E quem sempre vai não fica; não para; e não volta; não se deixa amar; não é amado.

Decidiu então ir a um antigo endereço, ao qual jurou há tempos não mais voltar. Parecia o único lugar no mundo em que conseguia ser e amar em todos os tempos verbais. Vestiu-se de si, por dentro e por fora e foi. Depois desse dia não vi Berenice novamente e não sei se sua reinvestida ao passado deu certo. O fato é que aqui, onde ela sempre passava indo a algum lugar, com pernas firmes de quem sabe aonde vai e olhos marejados de quem está perdido, ela não voltou mais. Elegi na minha imaginação um final para Berenice. Na minha história, dentre outras coisas, escolhi que ela nunca esqueça que quem ama sem ser e quem é sem amar está sempre indo para lugar nenhum. E o final da sua história, como será?

Um comentário:

  1. Gente ! que texto lindo! Para mim, Berenice se descobriu e flui. É melhor pensar assim não é? Bjs querida

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