28 de maio de 2013

Senso: o incomum


Senso já nasceu com personalidade marcante. Desde criança dava indícios de que iria corresponder perfeitamente às expectativas de seus pais: ser um homem sábio e com uma capacidade extraordinária de fazer escolhas.

Ainda na escola, Senso era incomum. Fundou o grêmio, lutou pelo passe livre para os estudantes, se interessou por bandas jamais ouvidas, se vestiu de maneira exótica, fez da sua cabeça palco para um espetáculo dos mais diferentes penteados, cortes e cores. O rapaz sempre foi muito crítico e inquieto, não suportava os padrões pregados pela sociedade, não se conformava com respostas prontas.

Mas, depois dos tempos de anarquia plena, Senso precisou arrumar um jeito de sobreviver. Foi então que teve a grande ideia: fazer da sua veia cômica seu ganha-pão. Em pouco tempo era sucesso de público o show Senso de Humor e o jovem talento se orgulhava por poder zombar do senso comum com o consentimento assinalado em forma das rizadas tanto de quem se reconhecia ali, quanto de quem se dizia longe daquele modelo.

Senso fez sucesso por anos na carreira de comediante, e o que mais o orgulhava era a posição de prestígio que ocupava entre o senso comum e os homens de bom senso. Quando estava no auge, a AEPBS (Ala da Esquerda do Povo de Bom Senso) passou a ter Senso em sua mira. Era preciso investigar: como podia o contrassenso de um integrante da Ala estar ganhando dinheiro fazendo graça com a desgraça que é não saber fazer as próprias escolhas?

Senso percebeu que sua posição de destaque já não o interessava mais. Percebeu que aos poucos ia abandonando seus planos e suas convicções para chegar ao topo, e o topo talvez nem fosse o melhor lugar. Desiludido, desfez sua equipe, cancelou os shows e se candidatou à vaga de carimbador no Cartório Central.

Senso passou a perseguir a homogeneidade com obstinação: desde a distribuição perfeita do tom de azul da tinta do seu carimbo nos mais diferentes documentos, à uniformidade com que os seus horários eram preenchidos, com que seus pratos eram servidos, com que seu descanso era vivido. Depois de uma vida na contramão, Senso finalmente se tornou comum, sente-se pertencente a um grande grupo, leva uma vida tranquila e o único medo capaz de assombrá-lo é o medo de voltar a querer o que verdadeiramente deseja.

2 comentários:

  1. Senso é chato, senso faz tudo legal, mas nada para ele. Senso é bom, senso é ético, senso é politicamente correto...

    Mas, e o contrassenso?

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