10 de outubro de 2012

Andança

Para ler sem hora marcada




Uma perna corre paralelamente da outra em um movimento apressado e rítmico como se tivesse o poder de se transportar para qualquer lugar mais distante de sua complementar que o corriqueiro um metro. Cada outra parte do corpo, cada fibra muscular, sem entenderem muito bem porque, se esticavam até onde pudessem para chegar primeiro ao local das horas marcadas. Escapando por um triz da porta se fechar, estranhavam o movimento do corpo de baile. Joelhos amortecendo rompantes; pernas traspassando em busca de equilíbrio; figurinos distintos e desconexos; e um palco em movimento.

Quando o corpo descansa em uma ausência de movimento: é preciso saltar, é preciso desviar, é preciso esbarrar, é preciso se afirmar corpo para se firmar nas leis inventadas há tanto tempo e acreditar que outro igual não poderia ocupar o mesmo lugar – mesmo muitas vezes ocupando. Há tanta vontade de ser o corpo da frente que se o estalar das juntas fosse um pouco mais perceptível aos ouvidos, nesses lugares da pressa das horas marcadas, teríamos verdadeiras orquestras se apresentando involuntariamente.

Existem os objetos solidários que, ao verem tamanha correria, chegam a suplicar em linhas retas e diagonais para os corpos descansarem. As escadas se movem, o chão se move: para frente, para cima, para baixo. Mas os corpos não param de se mexer. No lugar das horas marcadas não existe trégua. Nem nos dias em que as horas se atrasam, ou simplesmente descansam, os corpos conseguem praticar a inércia e o livre caminhar. É como se o tempo sempre fosse um vento contra o corpo, um anticorpo, que precisa ser vencido. 

Em meio a esses corpos, um ingênuo joelho se dobra até quase tocar o chão para assim proporcionar o impulso de um dos braços, que em uma alavancada recolhe a moeda que havia caído. Nesse gesto todo o balé se desconcentra: quem vem de trás, e já conta os segundos das horas marcadas, teme as frações de tempo demandadas por esse desvio de obstáculo. O pobre joelho já se arrepende por quase ver seus membros companheiros pisoteados por alguns centavos. E se estica rapidamente contabilizando a ironia de que tamanha correria dos possíveis corpos pisantes também se deve a alguns centavos ganhados e perdidos em troca das tais horas marcadas.

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