25 de setembro de 2012

De carne e fantasias


Um antebraço repousado sobre o parapeito, o outro funcionando como suporte para o queixo. Ela não se importava em passar o anoitecer nessa posição. Sabia bem que a pele dos cotovelos fora feita com qualquer coisa morta especialmente para dor alguma interromper seus momentos de sonhar acordada. A essa altura não se lembrava mais do que aprendera na escola, não sabia se eram as mitocôndrias que não conversavam direito com os ribossomos, ou se o complexo de golgi estava precisando fazer terapia e por isso essas células não esboçavam sinais vitais. A única certeza era a da importância desse apoio para sustentar a cabeça em algo que fosse sólido, pois todo o resto que passaria dentro dela não seria palpável, pelo menos não nesse momento.

A noite sucumbia, as estrelas cintilavam e as janelas se fechavam, quando então a moça sentia agradecida o redemoinho no peito, como se o ar aos rodopios insistisse em ser expirado para comemorar por aí mais momentos de sonhos. E assim terminavam os dias dela, que continuava não entendendo o porquê do tal cotovelo, que tanto lhe proporcionava quimeras sem reagir, era apontado pelos outros como a parte do corpo que doía com os desapontamentos. Talvez a imaginação àquela altura estivesse tão entrelaçada às decepções para tanta gente que eles sentiam dor onde havia sonho. Não sabiam eles que a dor de não sonhar poderia ser muito maior em longo prazo; a dor de não ver os sonhos se tornarem reais; a dor de receber da vida tudo que não fora inventado por si, tudo pronto como decidido fosse pela grande maioria; a dor de só existir na realidade e não na ideia.

Diante dos que insistiam em dizer-lhe que a terra era feita por acontecimentos concretos e que, por isso, deveria ser habitada por gente de carne e erros, ela nunca se intimidou. Acreditava que era na vontade de acertar que residiam os sonhos, assim como era na possibilidade dos erros que os acertos existiam. Sonhava seus sonhos só, sabendo que a chance deles serem reais seriam maiores se tivesse ao seu redor gente de carne e fantasias. Se as fantasias por fim fossem erros, que se acreditasse nelas até se mostrarem o contrário. Imagina quanta fantasia com potencial para ser realidade se tornou erro apenas por não encontrar quem as imaginasse? 

Um comentário:

  1. Puxa... Um dos melhores textos, hein?

    Tô aqui contemplando, já li umas três vezes... Colocando-me no texto, fazendo-me personagem; tentando pensar ao contrário o texto, lendo os parágrafos em outra ordem... Estou passeando a mente.

    Parabéns!

    Agora, toda vez que eu vir o totem, tal como esse, que há na minha rua, lembrarei desse texto e de que "a pele dos cotovelos fora feita com qualquer coisa morta especialmente para dor alguma interromper seus momentos de sonhar acordada".

    Nossa, parabéns mesmo! Se não é o melhor, certamente está na lista dos seus melhores!

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