13 de julho de 2012

Bartolomeu o gato preto


Bartolomeu, seu gato preto, estava sonolento desde cedo, assim como a dona, que acordara de uma noite que preferia não ter tido fim. Há anos a realidade dos dias era assim pra ela, uma torcida pela chegada das horas livres, das noites, dos feriados, dos finais de semana. No entanto, mesmo reconhecendo toda a beleza dessas horas e de quem a fazia ansiar por elas, não eram suficientes para preencher o peito o resto do tempo. Cristina se sentia culpada por isso, seria possível implantar amor nas entranhas? Poderia criar uma pílula que prolongasse o sentimento para as horas que seu emissor estivesse longe? Conseguiria reverter a efemeridade que vivia? Bartolomeu riu, juro que riu, um riso irônico de quem debocha do humano que fala só, e até mesmo, um riso de quem sabe as respostas que Cristina não encontra.

Aliás, encontrar nunca foi o forte de Cristina, como não bastassem os óculos que perdia todas as manhãs, não encontrava a ponta do lacre para abrir os biscoitos recheados, não encontrava seu casaco cinza que combinaria mais com o look do dia, não encontrava sua vocação, não encontrava seu amor. E como se não fosse suficiente não encontrar tudo isso, Cristina se sentia culpada com o biscoito sem recheio que estava aberto, com o casaco preto que combinava com tudo e estava sempre no cabide próximo à porta, com o seu trabalho que lhe dera tudo que tinha, e com o seu companheiro que se esforçava tanto para ser o melhor que podia. Era como se quase tudo que procurasse pudesse estar ali o tempo todo, ou como se as coisas que encontrara fossem quase tudo o que queria. Como se estivesse procurando incansavelmente os óculos para enxergar de perto enquanto os óculos para enxergar de longe estivessem apoiados na cabeça. “Afinal, porque precisamos ver tudo pelo detalhe? De longe minha vida parece perfeita”. Refletia ela.

A culpa dominava Cristina, parecia que nada era suficiente para alegrá-la. Punha-se a perguntar se estava contentando-se com pouco ou se estava querendo demais. E essa questão nunca tinha resposta certeira. A não ser para Bartolomeu, que a observava comendo seu biscoito sem recheio com café, apanhando o casaco preto no cabide enquanto saía para o trabalho combinando, ao celular, um encontro para a noite. Bartolomeu já estava na sétima vida e sabia muito bem que o “quase” nunca é exatamente o todo, e que a sensação da quase felicidade não é nem de longe parecida com a sensação da felicidade plena. 

Um comentário:

  1. Pensei que o texto iria tratar como a sexta-feira 13, sobre o dia do azar. Lendo, fui interpretando que, nas entrelinhas, talvez seja sim um texto que fale de azar. Cristina não parece ter tido sorte - aquela Sorte maiúscula, ou seja, não teve plenamente sorte em sua vida.

    E essa leitura me fez relacionar o texto com o bom filme "Match Point - O ponto final", do mestre Woody Allen. Esse filme, se bem entendo, trata da dicotomia Sorte x Azar. Uns têm uma; outros têm a outra. E, apesar dos esforços de cada pessoa, o destino pode ser uma questão de sorte ou de azar.

    Bem, um gato preto sinaliza o azar - infelizmente, visto que a ignorância humana acaba (literalmente) com a vida de muitos desses gatos. Mas Bartolomeu já está em sua sétima vida, segundo o texto. Em quantas ele teve mais sorte que azar ou mais azar do que sorte?

    E sua dona Cristina? Como falamos, parece que tem tudo, mas não tem tudo que desejava plenamente. Ou seja: tem quase tudo. Azarada?

    Pois, nesse momento, cá estamos nessa vida, nessa realidade. Penso que ser pleno ou ser quase pleno é ainda melhor do que não ser nada próximo do que gostaríamos ser. Nem sempre conseguimos conquistar o pleno; ficando assim com o quase pleno. Mas, acredito!, viver deveria ser a arte de buscar sempre o pleno. Principalmente, do amor.

    Todavia, tal como as sete vidas de Bartolomeu... "se as almas não morrem, é bom que em suas despedidas não haja ênfase (BORGES, Jorge Luis. Delia Elena San Marco. IN: "O fazedor". SP: Companhia das Letras, 2008, pg. 24)."

    Mas... Como a vida humana pode ser breve - além de dificilmente passar de sete décadas -, que o Encontro Pleno se realize logo.

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