3 de maio de 2012

Dois... Apenas meios?



Afrânio sempre admirou grampeadores: as molas; as alavancas; as curvas perfeitas que serviam de molde para o objeto que com um empurrão deixa de ter três lados para se tornar uma linha reta em duas dimensões de um conjunto de papeis. Era como se as folhas grampeadas ganhassem sentido após a união, ficava explícito para todo e qualquer observador que aquele calhamaço era filho de um só assunto, além da ordem do pensamento do autor estar protegida pela sequência em que as páginas foram fixadas. Admiração parecida, ele só nutria por: tampas de rosca; elásticos; e suspiros.

A contemplação se abrangia para os demais objetos, de certa forma, por motivos muito parecidos. A tampa de rosca, mais que qualquer outro tipo de tampa, selava o ajuntamento entre o conteúdo e o recipiente. Não bastava o teor – sólido, líquido ou gasoso – apenas estar ali, se ele podia se esvair a qualquer momento. E mesmo que o objeto tivesse uma função multiuso, naquele instante do enrosco ele renascia para seu conteúdo, era a partir de então decretado o “pote de biscoitos”, a “garrafa de água”, a “vasilha de mantimento”.

Já os elásticos eram simples objetos que se adequavam as mais variadas formas e dimensões dando as voltas que fossem para, também, juntarem unidades. Incrível imaginar que todo o espaço de tempo trabalhado em um mês era recompensado por dinheiros dobrados e agrupados em um só fardo. Aquele aglomerado de notas, unidas pelo elástico até o fim, representava cada minuto de seu tempo servindo, cada hora de lazer que teria, cada migalha do pão que comeria.

Mas os preferidos de Afrânio eram mesmo os suspiros. Não pelo paladar, mas porque suspiros, diferente dos objetos acima, provocadores de uniões, era o resultado de uma união, a mais magnífica que conhecera: clara, açúcar e nada mais. Desde criança quando assistia sua avó cozinhar ficava boquiaberto observando a entrega das moléculas úmidas da clara à doçura do açúcar. Ao passo que a batedeira se movimentava “rrruuunn” um ritmo poético era criado em sua mente. Lembrava (rrruuunn) dos “Dois, apenas dois” de Neruda, que seguiam cursos paralelos e (rrruuunn) talvez só se encontrassem no infinito, pensava em (rrruuunn) como essa coisa de querer se distanciar do que te completa era mania de humano. Clara e açúcar estavam ali entregues “Dois... Apenas um” (rrruuunn) com um simples chacoalhar, e assim seriam por toda a sua efêmera eternidade a partir de então. 

Afrânio passava dias a indagar: por que diabos essa tal junção, amarração, conexão, atrelamento, era tão difícil se dar entre as pessoas. Por que não existe um parafuso, uma maçaneta, um clipes, um grampo, um elástico, uma molécula que faça de dois indivíduos um para todo o sempre? Somente se assim fosse passaria a admirar seres animados como toda vida fizera com os objetos unificadores que conhecia. Mas não era e não podia ser. Porque para o resultado da conta: “Afrânio mais um” ser igual a um ele e o outro teriam que ser meios. Deixando de lado a metade dos defeitos, das qualidades e, sobretudo, das preferências que conservaram por toda a vida. Naquela tarde chuvosa, ao fazer compras na padaria, Afrânio notou que a embalagem nova, de papel pardo, fora grampeada para maior segurança dos suspiros. Sentiu-se feliz por não ter que se separar das suas paixões, e seguiu vagarosamente as carregando pelos braços até sua casa.

2 comentários:

  1. Olha, este post foi de uma perspicácia... Só de escolher falar de grampo, elástico, suspiro --com ótimo detalhamento e boas ligações... nossa!

    Muito bom, parabéns!

    Alma gêmea, cara-metade, "cada um é cada um", etc., tantos outros predicados, sei lá, né? O jeito, acredito, apenas é, como já dito certa vez: "ter e fazer o melhor amor".

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  2. Sou nova aqui, mas sinto que vim pra ficar. Lindo texto!

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