20 de março de 2012

Zé maré



Zé Maré sempre se vangloriou por ir de acordo com a correnteza. Jamais remava contra, nunca parava na beira pra pensar e nem cogitava qualquer esforço por algum movimento diferente do que as águas escolhiam para si.
Em tempos que a água mostrava sua força, Zé se sentia igualmente forte, por poder ir com ela por distancias e alturas inimagináveis. Já nos períodos de maré baixa, ele aproveitava pra ter os seus raros momentos de pés no chão.
Zé observava as criaturas com objetivos além d’água e se espantava. Tanto esforço para ter suas crias em terras quentes, ou pra aproveitar os ventos e pegar uma corrente rumo a outro oceano, o fazia se sentir exausto só de acompanhar os movimentos com as vistas. Por que tanta energia gasta? Bom mesmo é deixar que as águas escolham seu amanhã.
Seguindo o fluxo, Zé via seus amores indo e vindo, assim como seus trabalhos, seus amigos, suas preferências, seu estilo, nada permanecia... Tudo era tão constantemente mutável que ele não tinha tempo de se acostumar. E das mais variadas aventuras a única que Zé não se atrevia a conhecer era o mergulho em profundidade. O profundo era algo que ia para o extremo oposto do seu estilo de vida diversificadamente raso.
Um dia, de tanto medo do profundo, e de tanto costume de não fazer movimento, as ondas resolveram brincar com Zé. Ele não sabia que elas podiam ter tanta força ainda que na beira. Zé foi traído pela comodidade de nunca ter feito escolhas. De tanto não nadar, Zé morreu na praia.

Um comentário:

  1. Zé Maré devia ser daqueles que tinha um relógio com aviso de que aguentava 50m na água, mas achava que era em distância, e não em profundidade.
    Sempre se distanciou na horizontal; nunca na vertical. Um cara não sagaz, não ousado, não destemido. Um não cara. Um que não vivia, mas sim sobrevivia. Uma não vida. Vida de não. Vida de cão.

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