17 de janeiro de 2012

Luz e ação


Ali naquela mesa; naquele cenário tão comum; naquele dia da semana em que a rotina decidiu morar. Ali onde tudo parecia ser tão igual aos seus olhos; onde os pedidos eram os mesmos de sempre, com muito gelo e bem passados; no lugar em que tudo ia, tudo vinha; e a percepção já havia se acostumado a ser desativada por ver tudo tão análogo tantas vezes.
Ali naquele mesmo ali, ela entendeu que já havia olhado todo aquele redor tantas vezes, mas talvez nunca o enxergou.  O bar era um velho novo conhecido, pois, apesar das cinco décadas, havia sido reformado há pouquíssimo tempo e, mesmo a reforma sendo muito notória, ela ainda não tinha reparado em vários detalhes, rejuntes e minúcias. Entre eles estavam os quadros de fotografia. Achava inspiradora a foto do sujeito de terno correndo com cara de liberdade e a boca aberta aos gritos. Talvez fosse uma cena que gostaria de protagonizar em algumas tardes de jornada trabalhista de sua recente vida.
E por falar em protagonistas, ali à direita estava a rua movimentada de pedestres cada um com o seu roteiro. Quais seriam esses roteiros? O personagem que senta na mesma mesa todas as noites e degusta um vinho sozinho não é decifrável, algumas horas parece viver um drama, em outras parece um romance avassalador: será que ele espera a mesma pessoa retornar todo esse tempo?

E falando em romance... A moça passa com um buque de flores lindo e feição triste. O Buquê pode não ser do agrado de todas, mas a destoância entre o que essas florezinhas mortas representam em nossa sociedade com o semblante dela fazia esse roteiro parecer aquele que tem voltas surpreendentes. Não gostou? Preferia ter ganho de outra pessoa? Está angustiada com o que aquele presente pode representar? Esqueceu sua neosaldina no escritório?
E ali está uma galera aos risos, o da viola nas costas tem potencial para ser destaque, afinal ele oferece a toda a roda de amigos - e mais quem quiser chegar - o melhor presente que se pode dar a alguém: música. Momento para todos transformarem seu terror pessoal diário em acordes através das cordas vocais afinadas ou não.
Aquele ali que mais ri dos seus amigos, do time alheio, do gordinho, do garçom, deve ser o que mais chora escondido a noite. Enquanto o branquinho calado com olhar de meia pálpebra deve planejar um dia rolar sobre aquelas poças de lama aos murros com o fanfarrão, se tornando a partir de então o libertador de todo o público do happy hour que é oprimido há tanto tempo, condenados a ouvir as mesmas piadas babacas todas as semanas.
Ali ainda está ela observando tudo isso e pensando se seria o caso de inserir mais falas e ações ao seu roteiro. Se tivesse alguém a observando ali, pensaria o que? Os mais típicos espécimes diriam: mulher, sozinha, no bar, oscilando entre a expressão chorosa e a gargalhada interna não deve ser boa coisa. Suscita no mínimo uma comédia romântica de uma jornalista acima do peso que levou um fora. Sem se incomodar ela pensava se haveria um jeito de promover menos ensaios, menos textos decorados, muitas narrações em terceira pessoa como sinal de reflexão, e um absoluto protagonismo da própria vida, quando... “Desculpe, demorei?”, “Imagina, foi só o tempo de uma cerveja e uns dezessete longa-metragens!”

2 comentários:

  1. Adorei essa ideia: "Ali naquele mesmo ali"

    E, nossa, você usou um palavrão: "ondenados a ouvir as mesmas piadas babacas todas as semanas". hahahaha
    Nunca imaginei ser possível você escrever um palavrão em um texto!
    hahahahaha

    Gostei do texto... Dissecando o óbvio do cotidiano!

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  2. Esqueceu em colocar que ela não estava vivendo o cotidiano e sim esperando uma mudança nele entre chopps e longa-metragens....hehe
    Gostei!!

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