24 de janeiro de 2012

A solidez


Olhando aquele casebre bucólico lembrava-se de como ele parecia maior e mais abastado quando seu pai o construiu em seu tempo de infância. Parado por horas a observar tal quadro, pensava no quanto havia mudado sua perspectiva e olhar para enxergar tudo tão diferente com o passar dos anos e em como os caminhos haviam sido generosos o fazendo voltar ao ponto de partida àquela altura da vida. Cada marca nas paredes úmidas, cada pedaço de parede terroso, já sem reboco, cada ferrugem, cada telha escurecida pelo lodo pareciam marcas em sua própria pele.
Mas o que o fez não voltar ali por tantos anos não fora exatamente a enfadada constatação de que o tempo havia passado, com relação a isso ele tinha plena consciência e aceitação. O problema mesmo era o tempo do vazio e do silêncio que o roubaram. Podia ouvir o barulho dos três irmãos a brincar pelo jardim; da voz doce da mãe os impedindo de se aproximarem da roupa quarando; da respiração ofegante do pai que se escondia atrás do muro tentando os surpreender com o mesmo susto todos os dias; dos berros dos garotos simulando espantamento só para escutar o riso grosso do pai satisfeito com o sucesso de seu plano; e do seu coração acelerado todas as vezes que Dolores passava com suas tranças grossas pela travessa.
Naquele instante não ouvia berros, risos, vozes doces nem amargas, não existiam crianças brincando, não se podia perceber respirações ofegantes, mas seu coração permanecia batendo acelerado por todo esse tempo, em cada período por um motivo distinto. Dessa vez, o motivo era que depois de anos vivendo sucessivas perdas e vendo todos os seus próximos se esvaírem, ele finalmente se sentia preparado para encarar aquele cenário sem muitas dores, como provavelmente seria em outrora. As fatalidades e o tempo o conduziram para sábias conclusões que só dividira com seu caderno de anotações. Acreditava que cada indivíduo devia chegar ao seu fim com um saldo de padrões dos quais havia se desvinculado, por saberem que aqueles não os cabiam mais, ou que na verdade nunca os coube.  
De todos os paradigmas com os quais havia rompido o que mais se orgulhava era o mais recente: o medo da solidão. Porque esse para ele era o conceito mais cruel imposto para cada sujeito desde a sua infância, o escuro, o dormir só, o passar a vida sem se casar, o não ter filhos, o não gostar de boemia, o preferir um cálice de vinho em sua cadeira de balanço, tudo exaustivamente criticado, tudo obrigatoriamente tornado o contrário para se encaixar nos desejos dos que queria ter netos, dos que queriam se casar, dos que queriam dividir a conta do bar, dos que propunham sociedade... Todo esse excesso de companhia que o afastava dele mesmo, toda essa falta de solidão que foi clamada por tantas vezes, por um dia que fosse.
Prestes a não se incomodar mais por nunca ter vivido esse vazio, sentiu vontade de mostrar o seu caderninho de anotações a tantas pessoas jovens conhecidas e desconhecidas. A eles dedicaria: “Precisamos de quando em quando, o quanto antes, viver tempos de ouvir a própria respiração; de escutar o que está lá dentro guardado; de saber como é o próprio cheiro sem se misturar com o de mais alguém; de ter a consciência do quanto o silêncio pode ser barulhento e denso, ou melódico e macio; e do quão intransponível você pode se tornar para si sem viver esses momentos; Tempos para viver de si e para si”. Tempos chamados por ele de tempos de solidez, tempos de viver a solidão com lucidez.

17 de janeiro de 2012

Luz e ação


Ali naquela mesa; naquele cenário tão comum; naquele dia da semana em que a rotina decidiu morar. Ali onde tudo parecia ser tão igual aos seus olhos; onde os pedidos eram os mesmos de sempre, com muito gelo e bem passados; no lugar em que tudo ia, tudo vinha; e a percepção já havia se acostumado a ser desativada por ver tudo tão análogo tantas vezes.
Ali naquele mesmo ali, ela entendeu que já havia olhado todo aquele redor tantas vezes, mas talvez nunca o enxergou.  O bar era um velho novo conhecido, pois, apesar das cinco décadas, havia sido reformado há pouquíssimo tempo e, mesmo a reforma sendo muito notória, ela ainda não tinha reparado em vários detalhes, rejuntes e minúcias. Entre eles estavam os quadros de fotografia. Achava inspiradora a foto do sujeito de terno correndo com cara de liberdade e a boca aberta aos gritos. Talvez fosse uma cena que gostaria de protagonizar em algumas tardes de jornada trabalhista de sua recente vida.
E por falar em protagonistas, ali à direita estava a rua movimentada de pedestres cada um com o seu roteiro. Quais seriam esses roteiros? O personagem que senta na mesma mesa todas as noites e degusta um vinho sozinho não é decifrável, algumas horas parece viver um drama, em outras parece um romance avassalador: será que ele espera a mesma pessoa retornar todo esse tempo?

E falando em romance... A moça passa com um buque de flores lindo e feição triste. O Buquê pode não ser do agrado de todas, mas a destoância entre o que essas florezinhas mortas representam em nossa sociedade com o semblante dela fazia esse roteiro parecer aquele que tem voltas surpreendentes. Não gostou? Preferia ter ganho de outra pessoa? Está angustiada com o que aquele presente pode representar? Esqueceu sua neosaldina no escritório?
E ali está uma galera aos risos, o da viola nas costas tem potencial para ser destaque, afinal ele oferece a toda a roda de amigos - e mais quem quiser chegar - o melhor presente que se pode dar a alguém: música. Momento para todos transformarem seu terror pessoal diário em acordes através das cordas vocais afinadas ou não.
Aquele ali que mais ri dos seus amigos, do time alheio, do gordinho, do garçom, deve ser o que mais chora escondido a noite. Enquanto o branquinho calado com olhar de meia pálpebra deve planejar um dia rolar sobre aquelas poças de lama aos murros com o fanfarrão, se tornando a partir de então o libertador de todo o público do happy hour que é oprimido há tanto tempo, condenados a ouvir as mesmas piadas babacas todas as semanas.
Ali ainda está ela observando tudo isso e pensando se seria o caso de inserir mais falas e ações ao seu roteiro. Se tivesse alguém a observando ali, pensaria o que? Os mais típicos espécimes diriam: mulher, sozinha, no bar, oscilando entre a expressão chorosa e a gargalhada interna não deve ser boa coisa. Suscita no mínimo uma comédia romântica de uma jornalista acima do peso que levou um fora. Sem se incomodar ela pensava se haveria um jeito de promover menos ensaios, menos textos decorados, muitas narrações em terceira pessoa como sinal de reflexão, e um absoluto protagonismo da própria vida, quando... “Desculpe, demorei?”, “Imagina, foi só o tempo de uma cerveja e uns dezessete longa-metragens!”