7 de dezembro de 2012

Porta aberta


Abotoo a camisa; amarro o cadarço; prendo o cabelo; atarraxo o brinco; afivelo o cinto; ato o nó da pulseira; bloqueio o celular; fecho a bolsa; tranco a porta; aperto o cadeado; e vou te encontrar.

Saio com a certeza de que, por mais que me prepare para o seu olhar - abotoando; amarrando; prendendo; atarraxando; afivelando; atando; bloqueando; fechando; trancando; apertando – ele é a única coisa que não pode ser aprisionada e é também a única coisa que eu quero nesse instante.

Amo você assim, na lembrança de que antes do seu olhar todo esse enredo parecia sem desfecho; na certeza que eu só possuo esse olhar no momento que ele acontece; e na constante expectativa para os próximos olhares seus, mesmo sabendo que não há botão; amarra; presilha; fecho; tarraxa; fivela; nó; laço; cadeado; fechadura, que os garantam. E talvez essa seja toda a graça. 

23 de novembro de 2012

Quase nada


se pouco
é quase nada
se muito 
é quase tudo

pouco importa
importa quase nada
se pouco a pouco
tem um pouco

quase nada 
de quase tudo
quase sempre
é muito no final

10 de outubro de 2012

Andança

Para ler sem hora marcada




Uma perna corre paralelamente da outra em um movimento apressado e rítmico como se tivesse o poder de se transportar para qualquer lugar mais distante de sua complementar que o corriqueiro um metro. Cada outra parte do corpo, cada fibra muscular, sem entenderem muito bem porque, se esticavam até onde pudessem para chegar primeiro ao local das horas marcadas. Escapando por um triz da porta se fechar, estranhavam o movimento do corpo de baile. Joelhos amortecendo rompantes; pernas traspassando em busca de equilíbrio; figurinos distintos e desconexos; e um palco em movimento.

Quando o corpo descansa em uma ausência de movimento: é preciso saltar, é preciso desviar, é preciso esbarrar, é preciso se afirmar corpo para se firmar nas leis inventadas há tanto tempo e acreditar que outro igual não poderia ocupar o mesmo lugar – mesmo muitas vezes ocupando. Há tanta vontade de ser o corpo da frente que se o estalar das juntas fosse um pouco mais perceptível aos ouvidos, nesses lugares da pressa das horas marcadas, teríamos verdadeiras orquestras se apresentando involuntariamente.

Existem os objetos solidários que, ao verem tamanha correria, chegam a suplicar em linhas retas e diagonais para os corpos descansarem. As escadas se movem, o chão se move: para frente, para cima, para baixo. Mas os corpos não param de se mexer. No lugar das horas marcadas não existe trégua. Nem nos dias em que as horas se atrasam, ou simplesmente descansam, os corpos conseguem praticar a inércia e o livre caminhar. É como se o tempo sempre fosse um vento contra o corpo, um anticorpo, que precisa ser vencido. 

Em meio a esses corpos, um ingênuo joelho se dobra até quase tocar o chão para assim proporcionar o impulso de um dos braços, que em uma alavancada recolhe a moeda que havia caído. Nesse gesto todo o balé se desconcentra: quem vem de trás, e já conta os segundos das horas marcadas, teme as frações de tempo demandadas por esse desvio de obstáculo. O pobre joelho já se arrepende por quase ver seus membros companheiros pisoteados por alguns centavos. E se estica rapidamente contabilizando a ironia de que tamanha correria dos possíveis corpos pisantes também se deve a alguns centavos ganhados e perdidos em troca das tais horas marcadas.

25 de setembro de 2012

De carne e fantasias


Um antebraço repousado sobre o parapeito, o outro funcionando como suporte para o queixo. Ela não se importava em passar o anoitecer nessa posição. Sabia bem que a pele dos cotovelos fora feita com qualquer coisa morta especialmente para dor alguma interromper seus momentos de sonhar acordada. A essa altura não se lembrava mais do que aprendera na escola, não sabia se eram as mitocôndrias que não conversavam direito com os ribossomos, ou se o complexo de golgi estava precisando fazer terapia e por isso essas células não esboçavam sinais vitais. A única certeza era a da importância desse apoio para sustentar a cabeça em algo que fosse sólido, pois todo o resto que passaria dentro dela não seria palpável, pelo menos não nesse momento.

A noite sucumbia, as estrelas cintilavam e as janelas se fechavam, quando então a moça sentia agradecida o redemoinho no peito, como se o ar aos rodopios insistisse em ser expirado para comemorar por aí mais momentos de sonhos. E assim terminavam os dias dela, que continuava não entendendo o porquê do tal cotovelo, que tanto lhe proporcionava quimeras sem reagir, era apontado pelos outros como a parte do corpo que doía com os desapontamentos. Talvez a imaginação àquela altura estivesse tão entrelaçada às decepções para tanta gente que eles sentiam dor onde havia sonho. Não sabiam eles que a dor de não sonhar poderia ser muito maior em longo prazo; a dor de não ver os sonhos se tornarem reais; a dor de receber da vida tudo que não fora inventado por si, tudo pronto como decidido fosse pela grande maioria; a dor de só existir na realidade e não na ideia.

Diante dos que insistiam em dizer-lhe que a terra era feita por acontecimentos concretos e que, por isso, deveria ser habitada por gente de carne e erros, ela nunca se intimidou. Acreditava que era na vontade de acertar que residiam os sonhos, assim como era na possibilidade dos erros que os acertos existiam. Sonhava seus sonhos só, sabendo que a chance deles serem reais seriam maiores se tivesse ao seu redor gente de carne e fantasias. Se as fantasias por fim fossem erros, que se acreditasse nelas até se mostrarem o contrário. Imagina quanta fantasia com potencial para ser realidade se tornou erro apenas por não encontrar quem as imaginasse? 

17 de setembro de 2012

Oração contemporânea


Imagem Claudia Rogge

Assista novelas, não banque a Tieta
Recorra à autoajuda e a etiqueta
Se molde, se lance como tem que ser
Segure-se e force - não deixe arder
Esqueça que pode o todo mudar
Ouça o refrão que vai te educar
Ordene seus músculos, controle o instinto
Siga devagar mesmo que faminto
Não rasgue, não grite, não deixe escapar
Seus medos, seus sonhos, o que quer falar
Execute o ofício com ritmo preciso
Camufle o que quer, se mostre indeciso
Sufoque a vontade de sentir prazer
Se morda, se amarre, esconda o querer
Respeite a hora de desligar a mente
Se estampe feliz; seja convincente
Verifique, à noite, se fechou a porta
E agradeça mais um dia de vida morta

15 de agosto de 2012

Os fins justificam os começos




A fumaça fazia o ar ficar denso e ao mesmo tempo rarefeito, estabelecia um balé de tórax ofegantes, ao mesmo tempo em que, suprimia muitos pudores que ainda insistiam em sair de casa à noite. Os personagens noturnos são muito diferentes dos atores que os interpretam, esses geralmente vivem sem a dramaturgia durante a luz do sol. Cada um com a sua história de fins e começos. Cada um procurando manter ou pontuar um dos dois estados em que a vida sempre se encontra, cada um com sua aflição e seu encanto. 

As cabeças chacoalhantes não pensam o quanto esses ciclos são constantes, dos donos delas poucos são os que reconhecem que atêm seus fins por medo do novo início que vem na sequência. Mas os fins são sempre os sopros de começos, foi o fim da gestação que fez, de todos ali, vivos; foi o fim do amor que fez aquela se arrumar e conhecer gente nova; foi o fim da bebida que fez aquele pedir outro sabor; foi o fim do que podia ser dito que fez aqueles se beijarem; foi o fim das músicas que fez o cantor seguir viagem em outra estrada.

E se esses assombros que o fim provoca pudessem ser decretados proibidos, a parte cristã das cabeças chacoalhantes diria que a sua fé teve origem na morte de seu Deus, outra parte diria que a sua liberdade veio à custa do sangue dos que lutaram por ela. Sem compreender que os fins estão sempre por aí se preparando para provocar novos começos, a terceira parte continuaria chacoalhando a cabeça, até o fim da noite que se dá no minuto que antecede o começo do dia.

13 de julho de 2012

Bartolomeu o gato preto


Bartolomeu, seu gato preto, estava sonolento desde cedo, assim como a dona, que acordara de uma noite que preferia não ter tido fim. Há anos a realidade dos dias era assim pra ela, uma torcida pela chegada das horas livres, das noites, dos feriados, dos finais de semana. No entanto, mesmo reconhecendo toda a beleza dessas horas e de quem a fazia ansiar por elas, não eram suficientes para preencher o peito o resto do tempo. Cristina se sentia culpada por isso, seria possível implantar amor nas entranhas? Poderia criar uma pílula que prolongasse o sentimento para as horas que seu emissor estivesse longe? Conseguiria reverter a efemeridade que vivia? Bartolomeu riu, juro que riu, um riso irônico de quem debocha do humano que fala só, e até mesmo, um riso de quem sabe as respostas que Cristina não encontra.

Aliás, encontrar nunca foi o forte de Cristina, como não bastassem os óculos que perdia todas as manhãs, não encontrava a ponta do lacre para abrir os biscoitos recheados, não encontrava seu casaco cinza que combinaria mais com o look do dia, não encontrava sua vocação, não encontrava seu amor. E como se não fosse suficiente não encontrar tudo isso, Cristina se sentia culpada com o biscoito sem recheio que estava aberto, com o casaco preto que combinava com tudo e estava sempre no cabide próximo à porta, com o seu trabalho que lhe dera tudo que tinha, e com o seu companheiro que se esforçava tanto para ser o melhor que podia. Era como se quase tudo que procurasse pudesse estar ali o tempo todo, ou como se as coisas que encontrara fossem quase tudo o que queria. Como se estivesse procurando incansavelmente os óculos para enxergar de perto enquanto os óculos para enxergar de longe estivessem apoiados na cabeça. “Afinal, porque precisamos ver tudo pelo detalhe? De longe minha vida parece perfeita”. Refletia ela.

A culpa dominava Cristina, parecia que nada era suficiente para alegrá-la. Punha-se a perguntar se estava contentando-se com pouco ou se estava querendo demais. E essa questão nunca tinha resposta certeira. A não ser para Bartolomeu, que a observava comendo seu biscoito sem recheio com café, apanhando o casaco preto no cabide enquanto saía para o trabalho combinando, ao celular, um encontro para a noite. Bartolomeu já estava na sétima vida e sabia muito bem que o “quase” nunca é exatamente o todo, e que a sensação da quase felicidade não é nem de longe parecida com a sensação da felicidade plena. 

5 de julho de 2012

Quem não se comunica se...



Estrumbica: palavra que vem do latim Ex trubic que sugere algo extremamente pernicioso. Ou seja, quando alguém disser que você se estrumbicou, está querendo dizer que algo nefasto, desgraçado, maléfico, nocivo, prejudicial lhe aconteceu. No português mais moderno e coloquial: você se fudeu. Claro, nesse momento você está se lembrando do mestre Chacrinha com o velho dito “Quem não se comunica se estrumbica”. Sim, quem não se comunica se fode, e se fode no sentido mais pernicioso – já que assim disseram - da palavra, até porque para o outro sentido você vai precisar se comunicar de alguma forma. Esse enredo inicial todo foi só para apresentar para vocês nossos três personagens: Ullysses, Clara e Beto.

Ullysses já tinha o problema de comunicação grafado na certidão de nascimento. Sempre que se apresentava para alguém repetia seu nome algumas vezes, quando precisava soletrá-lo era pior. Há 24 anos, desde que se alfabetizou, o rapaz descrevia as letras e os objetos relacionados a elas com um tremor interno, acompanhado da imagem mental dos pais rindo, ao o verem ainda bebê, e dizendo “tem cara de Ullysses”. Irritava-se ainda mais quando lhe perguntavam se era para iniciar a escrita com ‘w’. De todas as desventuras que esse nome podia ter - era complicado; tinha ‘y’ fazendo sanduiche com duas vogais repetidas, era tão ingrato que nem apelidos engraçadinhos ele derivava, além de fazê-lo parecer um Benjamin Button pós-moderno tamanha a velhice que o nome sugeria – de todas essas e outras características desagradáveis, NÃO, ele não começava com ‘W’.

Depois de apresentar-se e relembrar todo esse trauma de vida, Ullysses já havia transpirado o suficiente para aparecerem pequenas manchas úmidas pela camisa; a dicção, a princípio suave, havia se tornado um misto de gagueira com língua presa; e nenhuma das palavras que pensara em dizer fazia um curso perfeito entre o cérebro e a língua. Todas as ideias geniais de Ullysses, tudo que ele planejou viver, todas as conclusões que chegou após observar tanto os relacionamentos interpessoais e não vivê-los, todo o estudo, todos os livros. Tudo, absolutamente tudo, era impedido de se tornar concreto pelo simples fato de não ser exposto.

Ullysses era amigo de infância de Clara, e odiava quando ela – ao vê-lo tentando se expressar – utilizava o seguinte gemido em tonalidade crescente: “Aaaaannnn você é tão fofinho nervoso!”. Clara sabia falar, Clara sabia muito falar, Clara sabia muito falar muito. Talvez por isso se devia a amizade com o pobre menino semi-mudo. Mas Clara não sabia ir direto ao ponto, alguns diziam que isso era problema corriqueiro de mulheres e seus melindres, pode até ser que sim, já vi melindres iguais aos da Clara por ai, mas nunca todos na mesma pessoa. Ela sabia de tudo um pouco, de muito nada. Gostava de todos, uma característica de cada um, mas nunca todas as características de um só. “Sabia” o porquê de todas as coisas, e sabia principalmente se comunicar por gestos e frases que significam exatamente o oposto do que representavam. Clara era tudo, menos clara.

Se ela não ligava para alguém, muitas vezes, era sinal de que queria muito ligar, mas precisava provar a partir dessa falta de comunicação que não estava tão disponível assim. Se ficasse muda, coisa rara em se tratando de Clarinha, estava querendo mostrar que precisava dizer o que havia lhe deixado sem palavras, mas que deveriam a perguntar o que acontecera antes dela "derramar" o assunto. Se iniciasse qualquer diálogo com a seguinte frase “Eu não quero brigar” era fato que a terceira guerra mundial se aproximaria em instantes. Adorava uma ironia. E mesmo com essa comunicação tão rebuscada, Clara havia encontrado um intérprete para o seu idioma. O seu eterno ex-atual-futuro-namorado, pra quem sempre voltava e “desvoltava”, Beto.

Tá certo que muitas vezes Beto se passava por compreensivo, enquanto dedilhava seu Iphone embaixo da mesa, consultando as polêmicas que rondavam o Twitter. Mas ele devia ter muitas qualidades além dessa. Beto podia ser definido como “o cara” popular na faculdade, admirado no trabalho, conhecido no bairro, querido na família. Ele tinha mais de mil amigos nas redes sociais, milhares o seguiam, dezenas o marcavam, centenas o curtiam, mas poucos o conheciam. Também, pudera, Beto vivia sempre um paradoxo: quando encontrava seus amigos pessoalmente, estava em digitação constante de frases de efeito, postava fotos dos drinks, fazia check in, conferia temas dos assuntos da mesa no Google, citava todos os virais do momento; Já quando estava distante dos amigos usava as redes para postar fotos antigas, declarar a saudade, compartilhar com eles vídeos que remetiam a tempos remotos e finalmente marcar outro encontro, no qual ele estaria, claro, conectado com o virtual, e desconectado demais da vida real.

Os três personagens tinham em comum o motivo daquela introdução lá no início: a dificuldade de se comunicar e a facilidade em se estrumbicar - se fuder. Nenhum aparato é suficientemente facilitador da comunicação, porque sempre é manipulado por um humano, naturalmente, “dificultador” da comunicação. Talvez se déssemos menos voltas; talvez se existissem menos aparatos; talvez se conseguíssemos dizer, de fato, o que queremos, o que pensamos, o que sentimos; talvez se cada um de nós se propusesse a fazer isso, seria tudo melhor; ou talvez, seria tudo sem graça demais.

Obs.: A propósito Ex trubic não existe – foi ironia.

25 de junho de 2012

Quem fala? É da Terra?

Deu um suspiro de espanto ao notar quão arenoso era o chão da lua, e como era bonito admirar a terra de longe. Não se sentia assim desde que acordara no meio da madrugada na casa de estranhos. Será que os marcianos ainda estavam lá pelo globo azul? E seus amigos teriam escapado? Não fosse o meteorito ter partido tão depressa conseguiria dar uma carona para o Léo. Léo era desses que inflava o peito pra mostrar sua coragem, e o resultado dos hormônios artificiais no seu corpo, mas chamava a mãe por qualquer resfriado. Imaginou o sufoco do rapaz diante do ataque alienígena, mas ainda assim, agradeceu por ele não estar na garupa quando a madrasta ofereceu alfajor havana envenenado. Seria mais difícil para ele resistir, do que foi para ela. Maçãs não eram mais proibidas, não atraiam mais mocinhas que viviam de dieta na luta pelo novo estereótipo de beleza que pairava na terra, e a bruxa sabia muito bem disso.

Ela saltou crateras até encontrar a passagem que saía em Machu Picchu e achou ótimo, pois sabia da rincha entre os marcianos e os Incas. Lá ela estaria protegida. Se o Léo conseguisse chegar a São Tomé das Letras e pegar aquele atalho dentro das grutas eles poderiam até fazer um piquenique na Republica do Peru até a terra voltar ao normal. Mas ele não tinha essa coragem... Não andava nem de metrô por causa do pânico de ficar embaixo da terra. Será que os homens marcianos eram mais destemidos? Será que eles aceitavam amar, se relacionar, com menos medo que os humanos? Começou a cogitar um contato imediato. Mas logo pensou que verde não era lá sua cor preferida.

A caminho de Machu Picchu, encontrou umas amigas do movimento feminista que haviam falado com a líder marciana. Espantou-se ao saber que a mulher marciana não era julgada pelas roupas que vestia. Que se acontecesse algum ato de violência com elas a culpa era toda de quem o cometeu e não delas mesmas por terem provocado. Achou as histórias incríveis, pensou em aproveitar o feriado de 7 de setembro para conhecer o planeta. Quem sabe assim, não arrumava motivo melhor para comemorar a independência, pois essa que era alardeada aqui há quase dois séculos não fazia jus ao nome. Servia apenas para se libertar da cor de gesso adquirida no inverno e se aprisionar no engarrafamento da região dos lagos no Rio de Janeiro.

Encontrou um balão que a levaria até a patagônia e achou melhor mesmo diversificar o programa. Já em terras frias teve medo por não estar acompanhada, e pensou no quanto lhe havia sido imposto, por todos esses anos, que solidão sempre deveria vir acompanhada do medo. Viu um vulto se aproximando e um barulho crescente que chegou a ficar ensurdecedor “TANANANà TANANANà TANANANANÔ. Temeu um ataque, pensou que pudesse ser um xingamento intergaláctico. Mas era só seu despertador anunciando que mais um dia começaria, e que as aventuras apresentadas por ele girariam em torno de enfrentar o metrô cheio, a pilha de trabalhos na mesa, a fila do supermercado, as teias de aranha no teto, as roupas sujas e a contagem dos minutos até poder sonhar novamente que faria e seria quem quisesse.

3 de maio de 2012

Dois... Apenas meios?



Afrânio sempre admirou grampeadores: as molas; as alavancas; as curvas perfeitas que serviam de molde para o objeto que com um empurrão deixa de ter três lados para se tornar uma linha reta em duas dimensões de um conjunto de papeis. Era como se as folhas grampeadas ganhassem sentido após a união, ficava explícito para todo e qualquer observador que aquele calhamaço era filho de um só assunto, além da ordem do pensamento do autor estar protegida pela sequência em que as páginas foram fixadas. Admiração parecida, ele só nutria por: tampas de rosca; elásticos; e suspiros.

A contemplação se abrangia para os demais objetos, de certa forma, por motivos muito parecidos. A tampa de rosca, mais que qualquer outro tipo de tampa, selava o ajuntamento entre o conteúdo e o recipiente. Não bastava o teor – sólido, líquido ou gasoso – apenas estar ali, se ele podia se esvair a qualquer momento. E mesmo que o objeto tivesse uma função multiuso, naquele instante do enrosco ele renascia para seu conteúdo, era a partir de então decretado o “pote de biscoitos”, a “garrafa de água”, a “vasilha de mantimento”.

Já os elásticos eram simples objetos que se adequavam as mais variadas formas e dimensões dando as voltas que fossem para, também, juntarem unidades. Incrível imaginar que todo o espaço de tempo trabalhado em um mês era recompensado por dinheiros dobrados e agrupados em um só fardo. Aquele aglomerado de notas, unidas pelo elástico até o fim, representava cada minuto de seu tempo servindo, cada hora de lazer que teria, cada migalha do pão que comeria.

Mas os preferidos de Afrânio eram mesmo os suspiros. Não pelo paladar, mas porque suspiros, diferente dos objetos acima, provocadores de uniões, era o resultado de uma união, a mais magnífica que conhecera: clara, açúcar e nada mais. Desde criança quando assistia sua avó cozinhar ficava boquiaberto observando a entrega das moléculas úmidas da clara à doçura do açúcar. Ao passo que a batedeira se movimentava “rrruuunn” um ritmo poético era criado em sua mente. Lembrava (rrruuunn) dos “Dois, apenas dois” de Neruda, que seguiam cursos paralelos e (rrruuunn) talvez só se encontrassem no infinito, pensava em (rrruuunn) como essa coisa de querer se distanciar do que te completa era mania de humano. Clara e açúcar estavam ali entregues “Dois... Apenas um” (rrruuunn) com um simples chacoalhar, e assim seriam por toda a sua efêmera eternidade a partir de então. 

Afrânio passava dias a indagar: por que diabos essa tal junção, amarração, conexão, atrelamento, era tão difícil se dar entre as pessoas. Por que não existe um parafuso, uma maçaneta, um clipes, um grampo, um elástico, uma molécula que faça de dois indivíduos um para todo o sempre? Somente se assim fosse passaria a admirar seres animados como toda vida fizera com os objetos unificadores que conhecia. Mas não era e não podia ser. Porque para o resultado da conta: “Afrânio mais um” ser igual a um ele e o outro teriam que ser meios. Deixando de lado a metade dos defeitos, das qualidades e, sobretudo, das preferências que conservaram por toda a vida. Naquela tarde chuvosa, ao fazer compras na padaria, Afrânio notou que a embalagem nova, de papel pardo, fora grampeada para maior segurança dos suspiros. Sentiu-se feliz por não ter que se separar das suas paixões, e seguiu vagarosamente as carregando pelos braços até sua casa.

20 de março de 2012

Zé maré



Zé Maré sempre se vangloriou por ir de acordo com a correnteza. Jamais remava contra, nunca parava na beira pra pensar e nem cogitava qualquer esforço por algum movimento diferente do que as águas escolhiam para si.
Em tempos que a água mostrava sua força, Zé se sentia igualmente forte, por poder ir com ela por distancias e alturas inimagináveis. Já nos períodos de maré baixa, ele aproveitava pra ter os seus raros momentos de pés no chão.
Zé observava as criaturas com objetivos além d’água e se espantava. Tanto esforço para ter suas crias em terras quentes, ou pra aproveitar os ventos e pegar uma corrente rumo a outro oceano, o fazia se sentir exausto só de acompanhar os movimentos com as vistas. Por que tanta energia gasta? Bom mesmo é deixar que as águas escolham seu amanhã.
Seguindo o fluxo, Zé via seus amores indo e vindo, assim como seus trabalhos, seus amigos, suas preferências, seu estilo, nada permanecia... Tudo era tão constantemente mutável que ele não tinha tempo de se acostumar. E das mais variadas aventuras a única que Zé não se atrevia a conhecer era o mergulho em profundidade. O profundo era algo que ia para o extremo oposto do seu estilo de vida diversificadamente raso.
Um dia, de tanto medo do profundo, e de tanto costume de não fazer movimento, as ondas resolveram brincar com Zé. Ele não sabia que elas podiam ter tanta força ainda que na beira. Zé foi traído pela comodidade de nunca ter feito escolhas. De tanto não nadar, Zé morreu na praia.

24 de janeiro de 2012

A solidez


Olhando aquele casebre bucólico lembrava-se de como ele parecia maior e mais abastado quando seu pai o construiu em seu tempo de infância. Parado por horas a observar tal quadro, pensava no quanto havia mudado sua perspectiva e olhar para enxergar tudo tão diferente com o passar dos anos e em como os caminhos haviam sido generosos o fazendo voltar ao ponto de partida àquela altura da vida. Cada marca nas paredes úmidas, cada pedaço de parede terroso, já sem reboco, cada ferrugem, cada telha escurecida pelo lodo pareciam marcas em sua própria pele.
Mas o que o fez não voltar ali por tantos anos não fora exatamente a enfadada constatação de que o tempo havia passado, com relação a isso ele tinha plena consciência e aceitação. O problema mesmo era o tempo do vazio e do silêncio que o roubaram. Podia ouvir o barulho dos três irmãos a brincar pelo jardim; da voz doce da mãe os impedindo de se aproximarem da roupa quarando; da respiração ofegante do pai que se escondia atrás do muro tentando os surpreender com o mesmo susto todos os dias; dos berros dos garotos simulando espantamento só para escutar o riso grosso do pai satisfeito com o sucesso de seu plano; e do seu coração acelerado todas as vezes que Dolores passava com suas tranças grossas pela travessa.
Naquele instante não ouvia berros, risos, vozes doces nem amargas, não existiam crianças brincando, não se podia perceber respirações ofegantes, mas seu coração permanecia batendo acelerado por todo esse tempo, em cada período por um motivo distinto. Dessa vez, o motivo era que depois de anos vivendo sucessivas perdas e vendo todos os seus próximos se esvaírem, ele finalmente se sentia preparado para encarar aquele cenário sem muitas dores, como provavelmente seria em outrora. As fatalidades e o tempo o conduziram para sábias conclusões que só dividira com seu caderno de anotações. Acreditava que cada indivíduo devia chegar ao seu fim com um saldo de padrões dos quais havia se desvinculado, por saberem que aqueles não os cabiam mais, ou que na verdade nunca os coube.  
De todos os paradigmas com os quais havia rompido o que mais se orgulhava era o mais recente: o medo da solidão. Porque esse para ele era o conceito mais cruel imposto para cada sujeito desde a sua infância, o escuro, o dormir só, o passar a vida sem se casar, o não ter filhos, o não gostar de boemia, o preferir um cálice de vinho em sua cadeira de balanço, tudo exaustivamente criticado, tudo obrigatoriamente tornado o contrário para se encaixar nos desejos dos que queria ter netos, dos que queriam se casar, dos que queriam dividir a conta do bar, dos que propunham sociedade... Todo esse excesso de companhia que o afastava dele mesmo, toda essa falta de solidão que foi clamada por tantas vezes, por um dia que fosse.
Prestes a não se incomodar mais por nunca ter vivido esse vazio, sentiu vontade de mostrar o seu caderninho de anotações a tantas pessoas jovens conhecidas e desconhecidas. A eles dedicaria: “Precisamos de quando em quando, o quanto antes, viver tempos de ouvir a própria respiração; de escutar o que está lá dentro guardado; de saber como é o próprio cheiro sem se misturar com o de mais alguém; de ter a consciência do quanto o silêncio pode ser barulhento e denso, ou melódico e macio; e do quão intransponível você pode se tornar para si sem viver esses momentos; Tempos para viver de si e para si”. Tempos chamados por ele de tempos de solidez, tempos de viver a solidão com lucidez.

17 de janeiro de 2012

Luz e ação


Ali naquela mesa; naquele cenário tão comum; naquele dia da semana em que a rotina decidiu morar. Ali onde tudo parecia ser tão igual aos seus olhos; onde os pedidos eram os mesmos de sempre, com muito gelo e bem passados; no lugar em que tudo ia, tudo vinha; e a percepção já havia se acostumado a ser desativada por ver tudo tão análogo tantas vezes.
Ali naquele mesmo ali, ela entendeu que já havia olhado todo aquele redor tantas vezes, mas talvez nunca o enxergou.  O bar era um velho novo conhecido, pois, apesar das cinco décadas, havia sido reformado há pouquíssimo tempo e, mesmo a reforma sendo muito notória, ela ainda não tinha reparado em vários detalhes, rejuntes e minúcias. Entre eles estavam os quadros de fotografia. Achava inspiradora a foto do sujeito de terno correndo com cara de liberdade e a boca aberta aos gritos. Talvez fosse uma cena que gostaria de protagonizar em algumas tardes de jornada trabalhista de sua recente vida.
E por falar em protagonistas, ali à direita estava a rua movimentada de pedestres cada um com o seu roteiro. Quais seriam esses roteiros? O personagem que senta na mesma mesa todas as noites e degusta um vinho sozinho não é decifrável, algumas horas parece viver um drama, em outras parece um romance avassalador: será que ele espera a mesma pessoa retornar todo esse tempo?

E falando em romance... A moça passa com um buque de flores lindo e feição triste. O Buquê pode não ser do agrado de todas, mas a destoância entre o que essas florezinhas mortas representam em nossa sociedade com o semblante dela fazia esse roteiro parecer aquele que tem voltas surpreendentes. Não gostou? Preferia ter ganho de outra pessoa? Está angustiada com o que aquele presente pode representar? Esqueceu sua neosaldina no escritório?
E ali está uma galera aos risos, o da viola nas costas tem potencial para ser destaque, afinal ele oferece a toda a roda de amigos - e mais quem quiser chegar - o melhor presente que se pode dar a alguém: música. Momento para todos transformarem seu terror pessoal diário em acordes através das cordas vocais afinadas ou não.
Aquele ali que mais ri dos seus amigos, do time alheio, do gordinho, do garçom, deve ser o que mais chora escondido a noite. Enquanto o branquinho calado com olhar de meia pálpebra deve planejar um dia rolar sobre aquelas poças de lama aos murros com o fanfarrão, se tornando a partir de então o libertador de todo o público do happy hour que é oprimido há tanto tempo, condenados a ouvir as mesmas piadas babacas todas as semanas.
Ali ainda está ela observando tudo isso e pensando se seria o caso de inserir mais falas e ações ao seu roteiro. Se tivesse alguém a observando ali, pensaria o que? Os mais típicos espécimes diriam: mulher, sozinha, no bar, oscilando entre a expressão chorosa e a gargalhada interna não deve ser boa coisa. Suscita no mínimo uma comédia romântica de uma jornalista acima do peso que levou um fora. Sem se incomodar ela pensava se haveria um jeito de promover menos ensaios, menos textos decorados, muitas narrações em terceira pessoa como sinal de reflexão, e um absoluto protagonismo da própria vida, quando... “Desculpe, demorei?”, “Imagina, foi só o tempo de uma cerveja e uns dezessete longa-metragens!”