26 de outubro de 2011

O ser global


      Ele acorda sabendo do trânsito; da confusão que deu no metrô – bem longe da sua casa; da tempestade que virá com a frente-fria, mais tarde; do vencedor do prêmio da música mais bonita do país, que havia acontecido ontem; e de todos os verbetes mais comentados da internet nas ultimas 24h, inclusive os em inglês.

    
Agradar a todos do entorno era sua principal característica, ele nunca contestava nada, apesar de sempre ter um dado correto – ou não – sobre o tema do momento. Seu comportamento, assim como cada um dos sentimentos que carregava em sí, eram preceitos de velhos antepassados. Mas a sua camisa... ah essa era com estampa exclusiva!

    
- Bondade? Claro! Repliquei uma foto do Tody, o cachorro multilado, semana passada na minha rede social, e olha que sou super seguido por lá!

    
- Luta? Como não? Coloquei no meu perfil um avatar de desenho animado em protesto contra a violência infantil!

    
- Belo Monte? Já ouvi falar sim! Mas olha, sou um cara de atitudes mais abrangentes, semana passada, por exemplo, comprei uma ecobag irada!

    
Assim ele é visto: o admirado; o antenado; o interessante; o ativista de correntes virtuais; o diferente. Assim ele é: um portfólio de sí; um sabedor de notícias inuteis; um interessado em parecer interessante; um mantedor de velhos padrões; um replicador das mesmas formas de se relacionar; um desativista; um produto em série; um igual a tantos outros uns.

Um comentário:

  1. De fato, é genial. Coloca o dedo nas feridas, inclusive. Pois me li em todos os parágrafos dessa prosa.
    Quantos links sobre Belo Monte compartilhei?? rs De 3 a 5 rs

    É a "reprodução" que já falava Bourdieu ;)

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