28 de outubro de 2011

A menina sem face

Bruno Grossi - óleo sobre tela - Série Retrato Sem Face

    Nina nasceu assim, como todos os oriundos de sua província, sem face. Ali se aprendia que desde os primeiros segundos de vida, cada ato seria um influenciador direto de cada traço que surgiria em seus rostos, a princípio inexpressivos. O susto do nascimento deu a ele os rasgos entre as sobrancelhas. A falta de ar em uma noite de asma deu àquela o arrebitado do nariz. As canções, que permeavam o lar de amor, na voz suave da mãe, deram a ele a concavidade dos lábios, por desde sempre ensaiar longos sorrisos - ainda que sem dentes. Não se sabia por que, diferente de todos, Nina, conhecida na escola como “a menina sem face”, ou só “Nina sem face” mesmo, não conseguia desenhar seus traços.

    Dona Marieta a rezadeira – que costumava profetizar alguns acontecimentos enquanto balançava seu velho sino com pêndulo enferrujado - dizia que Nina não tinha face porque não tinha sentimentos. “Essa menina não é do céu, nem do inferno. (blen blen) Ela é do meio, não tem um lado, e se você não tem um lado nada você faz, nada você tem, nada você sente, nada você é (blen blen)”. Mas havia também quem acreditasse que Nina não tinha sentimentos porque não tinha expressões para demonstrá-los. Na verdade nunca se soube o que faltou primeiro.


     Seus pais a encheram de amor, de caneta hidrocor, de vestidos de flor, mas nada fazia Nina pintar seu primeiro sorriso, seu primeiro choro, seu primeiro berro, sua primeira dor. Nada que fizessem poderia tirar Nina da inércia do não-sentir.


    Cresceu assim: não gostava nem desgostava de música; não costumava ler; anulava o voto nas eleições de grêmio; tinha sempre frases neutras nas mais acaloradas discussões; e não queria nem saber de se apaixonar. Imune a qualquer prazer ou desagrado, uma das poucas opiniões firmes de Nina era que não valia ter boca, para todas as gargalhadas que tivesse em vida, se para isso fosse preciso ter olhos para tantas quantas fossem as lágrimas que sempre intercalavam as alegrias.
 

26 de outubro de 2011

O ser global


      Ele acorda sabendo do trânsito; da confusão que deu no metrô – bem longe da sua casa; da tempestade que virá com a frente-fria, mais tarde; do vencedor do prêmio da música mais bonita do país, que havia acontecido ontem; e de todos os verbetes mais comentados da internet nas ultimas 24h, inclusive os em inglês.

    
Agradar a todos do entorno era sua principal característica, ele nunca contestava nada, apesar de sempre ter um dado correto – ou não – sobre o tema do momento. Seu comportamento, assim como cada um dos sentimentos que carregava em sí, eram preceitos de velhos antepassados. Mas a sua camisa... ah essa era com estampa exclusiva!

    
- Bondade? Claro! Repliquei uma foto do Tody, o cachorro multilado, semana passada na minha rede social, e olha que sou super seguido por lá!

    
- Luta? Como não? Coloquei no meu perfil um avatar de desenho animado em protesto contra a violência infantil!

    
- Belo Monte? Já ouvi falar sim! Mas olha, sou um cara de atitudes mais abrangentes, semana passada, por exemplo, comprei uma ecobag irada!

    
Assim ele é visto: o admirado; o antenado; o interessante; o ativista de correntes virtuais; o diferente. Assim ele é: um portfólio de sí; um sabedor de notícias inuteis; um interessado em parecer interessante; um mantedor de velhos padrões; um replicador das mesmas formas de se relacionar; um desativista; um produto em série; um igual a tantos outros uns.