20 de maio de 2011

Só isso tudo


Todos os dias ao acordar ele busca alcançar o inalcançável; atingir o inatingível; e desejar o que não podia ter. Ele deixou em algum lugar, que não se lembra mais, a vontade de esgotar as possibilidades do hoje e o gargalo que abastecia sua sede de viver.

Um dia de repente, resolveu que o que tinha era pouco, que podia muito mais, e que esse mais estava sempre adiante de sua posição no tempo. Esse dia lhe fez forte; lhe fez batalhador; lhe fez aficionado; lhe fez tanto que lhe sobrou pouco para aproveitar a vida. Em que momento perdeu a medida? Isso ele não sabia, porque na verdade nem sabia que a havia perdido.

O que importava era que os “agoras” estavam, todos eles, fadados ao fracasso. Pois bem sabia ele que quando o futuro desejado se tornasse agora, carregaria consigo a sina de ser perecível e a sombra de outras querências que passariam a existir no meio do caminho.

Ao dormir se punha a pensar em soluções. E uma delas, talvez, seria viver o temido agora e pensar menos no que não podia ter no momento. A partir desse agora só ia tentar alcançar o que pudesse tocar entre o espaço da ponta dos pés alongados aos braços esticados. Esse era o espaço do esforço máximo que o seu eu poderia fazer pela conquista e só. Quem sabe esse só não passaria a ser tudo? E se ele vivesse só uma parte do todo por vez, o tudo poderia ser menos e o muito deixar de ser pouco?

12 de maio de 2011

Antes

Antes...
Que o dia termine
Que o mundo acabe
                                Que o bonde ande
                                                     Que o tempo corra
Que o juiz apite
Que o sol se ponha 
                                                                  Que a idéia passe
                                                                                           Que a vida morra.

4 de maio de 2011

Ponto de vista


É que o claro
Tantas vezes é melhor no escuro
É que o sábio
Tantas vezes é em cima do muro
É que o rico
Tantas vezes tem mais do que é
É que o silêncio
Tantas vezes vem da ponta do pé
É que o ontem
Tantas vezes leva algo bom consigo
É que o culpado
Tantas vezes escapa do castigo
É que o telhado
Tantas vezes toma para si a tempestade 
É que o relógio
Tantas vezes se esquece o quanto é tarde

2 de maio de 2011

Seus "ais"


Seus antigos “ais”
São partes que ficam
Dos seus ancestrais
De medos e marcas
Que já não doem mais
Mas teimam e temem
Não ser imortais.

Seus agora “ais”
São culpas constantes
Do que não satisfaz
De grades e amarras
Que prendem a um cais
E te retribuem com cores
E fatos sempre iguais.

Seus futuros “ais”
Serão sempre culpa
De todos os demais
Formando um ciclo
Que não fecha jamais
Girando em torno do todo
Que pode ser tudo menos paz.