12 de abril de 2011

Simplicitude



Parecia estar tudo bem na frase, aí alguém inventa de colocar a conjunção “mas”, ali logo depois da vírgula. E tudo que foi dito na oração anterior ganha um quê de oposição ou restrição. Está um dia tão bonito, mas eu tenho que trabalhar. Eu tenho tudo para ser feliz, mas tem aquele detalhe ali fora do lugar. O pão está fresquinho, mas só tem manteiga para rechear.

Por que será tão difícil emitir uma simples frase positiva sem “poréns”? É que a gente aprende desde pequeno que sempre tem o que melhorar. Ok, longe de termos alcançado a perfeição, mas essa sombra do que seria o ideal, instaura, de alguma maneira, uma competição em nossas vidas, que nos torna aos poucos rivais de nós mesmos. E tudo que era bom, não é tão bom assim, poderia ser mais, poderia ter mais, poderia fazer mais.

Sim, podemos sempre mais, e podemos também nos cobrar menos, exigir menos da vida, problematizar menos, usar menos “mas” pro caso de opor com pessimismo o bem feito. Se a gente encontra o valor da oração simples, e da simplicidade por si só, a gente descobre o quanto é bom poder apenas ver esse tal “dia tão bonito”; saber “que se tem tudo para ser feliz, mesmo com aquele detalhe”; e que, às vezes, não há banquete melhor que “um pão fresquinho com manteiga”.

6 comentários:

  1. Assino, carimbo e reconheço firma.
    Agora, vc há de concordar que é uma tarefa difícil, um hábito a ser mudado. O budismo ensina isso desde seus primórdios e muita gente busca incessantemente esse caminho.
    É aquela parábola do colonizador encontrando o índio, e um diz pra outro:
    - Pq é que trabalha tanto e vive estressado?
    - Para ter paz, deitar numa rede olhando para o mar e não ter preocupações no fim da vida.
    - Mas eu tenho isso tudo a vida inteira.

    Aí é que está. O sábio índio vive no presente, na simplicidade.
    O colonizador vive no futuro, nas expectativas.

    :)
    Boa filosofia amiga!

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  2. Fabíola,o problema dos homens é querer comer morangos em dias de jabuticabas.

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  3. Só para acrescentar um pouco da parábola da Raquel...

    Quando os colonizadores vieram para o Brasil, tentaram escravizar os índios. Mas viram que eles não davam conta do recado e aí trouxeram os negros... Acusavam os índios de serem preguiçosos (Macunaíma está aí...), de não gostarem de trabalhar (se aquilo era trabalho...). O que esqueceram de avaliar é que os povos indígenas não tinham o espírito mercantilista - o germe do capitalismo -, que queria produzir para estocar e depois vender.
    Os povos índigenas trabalham poucas horas e assim que caçavam ou coletavam o que precisavam, eles paravam e iam descansar ou cuidar dos rituais e outras coisas de sua tribo e família.

    Pierre Clastres, um antropólogo já consagrado, foi quem pensou sobre isto. Que a sociedade não precisa ter um Estado, coisa que os povos indígenas mostravam: eram sociedades contra o Estado que tem o poder de polícia. Clastres mostra no texto "A sociedade contra o Estado" que no modo de "vida civilizado" (muitas aspas para este termo) - isto é as sociedades não ditas como primitivas e/ou de caça e coleta, mas aquelas que são as sociedades industriais e técnicas -, que a sociedade existe para o Estado.

    Contra esta alienação, Clastres mostra a economia dos índios: produzem para viver de acordo com suas necessidades, não pq são preguiçosos, mas sim pq não precisam produzir mais do que podem carregar ou guardar. Não se trata de sociedades de economia de subsistência. Trata-se de sociedades que tem um domínio "do meio natural adaptado e relativo às suas necessidades (...) Os índios, efetivamente, só dedicavam pouco tempo àquilo a que damos o nome de trabalho".

    Não é necessário trabalhar. Temos uma vida e é necessário viver. O problema são, como a autora trouxe, os senões, os poréns, os mas...

    É por isso que desejamos ganhar aquelas boladas da Megasena. Bem, pelo menos alguns que veem a vida como uma dádiva e um ótimo passatempo não para trabalhar, mas sim para se divertir, ser feliz, ser triste, ser ser humano - aquele que é capaz de viver muitas emoções e sentimentos.

    PS: Desculpem-me a "antropologia guardada na memória" sem muita reflexão e, talvez, com bobagens ditas.

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  4. :( atualmento eu só tenho conseguindo mudar ordem de causalidade. "ta tudo ruim, mas pode melhorar"

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  5. Olá! Passei pra conhecer e aplaudir seu Blog, muito bem cuidado, parabéns! Já estou te seguindo, abrçs

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  6. Penso que o "mas", seguido de vírgula, denota a personalidade frágil do ser humano, na hora de tomar importantes decisões. Passando pra lhe conhecer, abraços

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