21 de março de 2011

Sol em si


Começarei esse texto aqui de um jeito que me desagrada. Em primeira pessoa, bem no estilo “querido diário”. Não acho legal, mas acho necessário para expressar as constatações presentes.

Bem... (querido diário) hoje eu acordei de bom humor. Olhei para o céu e vi que haviam muitas nuvens e a única observação que me restou daquele quadro cinza, emoldurado pela janela, foi: “é preciso levar o guarda-chuvas ao sair”. Sim, mas antes disso, dei aquela circulada pela internet, e em toda parte, - entre as redes sociais, e-mail e as notícias do dia - estava decretado com pesar: o outono chegou.

Reparei então que o fim do verão era visto muito mais do que como uma mudança climática: era o início de uma triste etapa do ano. Alguns lamentavam o tempo que não se veria a praia; outros, saudosos, diziam o quanto havia sido bom o que passou; outros recorriam à música para dizer das folhas que cairiam secas; outros a grandes poetas e pensadores – talvez o mais sensato desses fosse o Nietzsche que também reparou “que o outono é mais estação da alma do que da natureza”.

Descobri, em uma rápida pesquisa, que o outono rima com tristeza para a maioria dos poetas, apesar de não me parecer uma rima tão rica. O fato de se tratar de uma estação transformadora para a natureza, e dessa transformação ser tão associada à dor, nem precisa ser muito explicado, pois é de praxe do ser humano encarar mudanças como pedaços horríveis de vida. Ok, você pode me dizer que existem explicações físicas para isso, afinal a exposição à luz do sol estimula a produção de serotonina, dopamina e melatonina, - substâncias responsáveis por nos transmitir bom humor e energia. Ou ainda dizer que muito mais que isso, está o fator psicológico, o sol leva consigo, muitas vezes, o choppinho; a vontade de sair; e leva com isso o contato social, certo? Errado. Tenho na memória festas, jantares e reuniões inesquecíveis em outonos bem frios, a base de muita comida quentinha, vinho, amizade e carinho. 

Se eu quero ficar aqui todo o tempo contando histórias do meu “querido diário”, até esse dia horroroso acabar? Não, não, eu só quero voltar à reflexão inicial e dizer que tudo isso me remete ao seguinte pensamento: as pessoas, de modo geral, procuram com intensidade o que as faz falta e quais detalhes podem se tornar, sem muito esforço, a essência do que “impede” sua felicidade, muito mais do que procuram as grandes pequenas coisas que de fato as fazem felizes. E aí uma das frases que encontrei me levou a uma doce dose de otimismo que eu tanto sinto falta: “Gosto do outono porque ele é frio suficiente para refrescar o calor. E é quente o suficiente para aquecer o frio”, de autoria de Lidiane Mejozebato. Que me faz pensar o seguinte: quem sabe se nos atermos menos aos incômodos, o dia mais cinza de todos; o inverno mais frio; o outono mais seco; não se apresentam momentos ideais para redescobrir e fazer brilhar o maior sol que pode haver? O sol que cada um carrega em si.

3 comentários:

  1. eu gosto de outono... de dias cinzas, de vinho e uma boa companhia.... possivelmente este será (para mim) mais cinza do que costumava ser. Mas sempre tem um bom livro para ajudar a esperar o tempo tempo passar enquanto a gente se aquece debaixo de um bom cobertor de lã.
    Sds de vc amiga...

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  2. Minha querida amiga, você abordou o cerne da questão. A felicidade é um estado de espírito. Podemos nos aquecer no inverno e sentir enorme frio no verão. É claro que o clima interfere sim. Mas não há uma roupa quentinha, um bom vinho e boa companhia que não "cure" isso. rss

    Um beijo grande,

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  3. Aquele filme "Beleza americana" tem uma cena com uma fala que, na época, muito me marcou. O filme é de 1999, época em que eu fazia 19 anos e estava apaixonado não apenas por um garota - sem tê-la -, mas também pelo o próprio sentimento que eu tinha por ela. (Quem tem formação em psicologia poderá remeter isto ao conceito de idealização do meu eu naquela menina - e eu concordarei).

    Enfim, a cena em questão é a de um saco plástico voando/levitanto, em um redemoinho constante, e aí um dos personagens, o garoto esquisito que tem uma câmera, pondera: "existe tanta beleza no mundo", para explicar porque ele gravava coisas aparentemente desinteressantes.

    Ainda naquela época, eu já dava valor às pequenas coisas da vida. Tanto que, apaixonado como estava, eu observava aquela menina de tal maneira que descobri de quantos segundos era o seu piscar de olhos: 4 segundos.

    (dessa vez, não deixei meu "post dentro de um post" aqui. O continuei no meu blog! Veja aqui a versão completa: http://jpassaro.blogspot.com/2011/03/pequenas-coisas-e-analogia-do-nome.html )

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