2 de março de 2011

Passado a limpo


Assim que ele despertava todos os dias sentia seu sangue correr nas veias, o atrito do lençol em sua pele, os olhos inchados e então percebia que o anúncio da sentença era inquestionável: mais um dia de vida se seguiria. Alí se punha a pensar nas dificuldades e na dor de suportar o tempo passando e o distanciando a cada hora de tudo que virou passado.

Quando se levantava fazia uma análise minuciosa das fotografias penduradas na parede, o quanto os seus pigmentos se alteraram nos últimos tempos, o quanto alguns rostos se tornaram lembrança, o quanto lhe faziam falta todos aqueles que havia perdido pela vida e pela morte. Para ele era uma tormenta ver o vídeo de sua primeira pedalada de bicicleta; as fotos de seus avós e de seu pai; relembrar as histórias dos tempos de faculdade; o tempo que morava com seus filhos; o dia do casamento...

Entre o sabor do café, e a preocupação em perder o sono devido à cafeína, ele seguia ouvindo seus LPs. Lembrou do baile de formatura; lembrou de festas juninas; lembrou da moça bonita de laço de fita no cabelo. Procurou logo seu diário e se dedicou a leitura dos fatos do ano de 1979. As lágrimas embaçaram-lhe os óculos, resolveu dar uma pausa.

Enfim retomou ao diário para atualizá-lo, já lamentando os fatos do dia anterior terem passado. Seus filhos haviam lhe visitado ontem, mas no momento ele ainda estava a lastimar o fim do anteontem e não pode os dar a atenção merecida. Mais uma vez ele não compreendeu por que eles haviam ido embora com olhar de desapontamento.

O entardecer já lhe trazia uma saudade enorme do dia findado. Àquela altura ele já havia se acostumado a se apegar aos tempos de felicidade apenas a partir do momento que eles se acabavam, e fazia parte também da sua condição vital imaginar que nada do que pudesse vir adiante seria tão bom quanto o que se foi. Para ele não importava o que havia ficado do que passou; não consolava pensar que com algumas coisas boas que se foram, foram-se também as ruins; não era suficiente pensar que havia adquirido experiência; e em hipótese alguma refletir sobre o temeroso conselho que insistiam em lhe dar: “amanhã vai ser outro dia”.

Passar a limpo o passado; acordar corajoso olhando adiante; seguir em frente; eram expressões inutilizáveis por ele. Simplesmente porque o ele em questão não aprendeu a usar o passado como lição; não aprendeu a guardar o que foi bom de maneira saudável; não aprendeu a conviver com as perdas, e por isso havia até optado em não ter mais ganhos; não aprendeu que muitos problemas se tornam insignificantes perto daquele tal da década passada; sequer aprendeu a fazer diferente, ou melhor, depois deles; não aprendeu que o ciclo que entrou era perigoso e difícil de sair. Talvez ele pense sobre isso hoje e se revolte. Mas quem sabe amanhã, ao se lembrar da reflexão datada no dia anterior, ele não a ache preciosa por já ser fenecida.

2 comentários:

  1. Esse sujeito aí é o meu oposto! Quando ele acha que a alegria está no passado eu acho que está no futuro.

    Talvez hipoteticamente se nos encontrássemos chegaríamos a conclusão da alegria no presente.

    Mattos, vc escreveu divinamente, como uma mágica onde tudo vai se colorindo.

    Muito bom!

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  2. É do ser humano ter memória, ter lembranças. Como também é nosso termos sentimentos. Juntar memórias com sentimentos do passado é que perigoso. Principalmente se forem lembranças ruins.
    Todo mundo tem seu tempo para se revigorar? É no que eu viso acreditar, mas, ainda assim, percebo que algumas pessoas não tem seu tempo. Elas, simplesmente, não conseguem se revigorar 100%. (Aliás, será que todos conseguimos?) Terão que saber conviver com certas lembranças, com seu passado.
    O passado é uma coconstrução (fica horrível o fim do hífem em casos como este) nossa e do mundo. O presente, idem. Já o futuro só à nós pertence. O mundo não toca nele. Só nós, com nossa mente, nossos desejos, é que tocamos no futuro. Que façamos dele algo sempre melhor do que já construímos. Talvez o mundo, suspiroso de nossas intenções, possa conspirar a favor de nos tornar melhores, mais completos, mais admiráveis da vida.

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