6 de janeiro de 2011

O passado é um bolso


O passado é um bolso: de onde se deve tirar apenas o que convém. O Passado é a contração da mãe de filho crescido; é o cheiro de quem vai, mas não é esquecido; é o choro de separação da moça que já tem novo marido; é a voz de quem se foi; é o tchau de quem era “oi”.

Do bolso passado se tira apenas o que precisar, existe o que nunca há de se resgatar. Passado é o minuto atrás do instante agora; é a fome do que saciou; é a solidão do acompanhado; é a dureza do abastado; é a tristeza do alegrado; é a caixa de email do mês passado; é a semente que já floriu; é a nascente que encontrou o rio; é a corrente que se partiu; é o março para o abril.

O Passado não deve ter zíper, nem mesmo botão, tudo precisa estar sempre acessível pra ser relembrado, para ter de lição. Não se deve lacrar o passado, mas pode-se tingir de outras cores, não se deve tê-lo furado, nem fazer dele morada das mãos. Pois apesar do bolso passado ser fundo e caber cada dor e alegria do coração, é preciso ter as mãos livres para pegar o novo que vem com os ventos presentes e então decidir o que se quer guardar - ou não.