14 de dezembro de 2011

A igualdade do desigual


É que ela acreditava todos os dias que o mundo poderia ser melhor para todo mundo. Assim poderia sair com aquela jóia que ganhara de seu marido há tempos e jamais havia exibido por medo da violência.

Seu marido esperava encontrar o equilíbrio dentro de si e energizar seus chakras. Para isso freqüentava um templo, com sua irmã, em que trabalhava um porteiro simpático de quem não sabia o nome e a quem nunca cumprimentou.

Sua irmã, por sua vez, sentia-se felicíssima em receber a família em sua luxuosa casa, mas tinha uma enorme preguiça do primo bicho grilo, que havia se casado com sua melhor amiga. Pois ele continuava com aquele papo cansativo socialista de quem não vai amadurecer nunca: “blá blá blá igualdade para todos”.

Empolgada com os ideais do marido, a melhor amiga sempre fazia doações à instituições de caridade, mas preferia aquelas que não precisava ir ao local fazer a entrega, “Vocês não tem uma conta bancária para eu depositar? É que eu e minha mãe temos um peeling marcado para a véspera do Natal”.

Sua mãe tinha um apego enorme (pela pele do rosto e...) por animais, sobretudo os seus. Por isso comprara sapatos e roupinhas para eles. E fazia questão de levá-los para passear pessoalmente, todas as manhãs, pelas calçadas do seu bairro em que ainda dormiam os meninos descalços e desagasalhados.
   

27 de novembro de 2011

Medo de ser medo


Não é medo, nunca é. O que se chama de medo, pavor, horror, pânico é apenas o hábito de ser e fazer sempre igual. O traje do diferente, anormal, desconhecido, pode ser acompanhado por esse adorno prisional, que subtrai os movimentos de quem o veste completo.

Não é medo, mas pode ser. O medo é o que ninguém quer sentir, mas sempre diz sentir quando é a única justificativa para a falta de coragem de viver o impalpável.

Não é medo, e é. O medo é a água que prefere seguir a correnteza na lama espessa do rio poluído, à liberdade de ser parte de um afluente límpido e estreito, que pode um dia secar. Por medo de virar vapor, ela entrega suas moléculas à terra, sem se dar conta que vapor um dia pode ser tempestade.

28 de outubro de 2011

A menina sem face

Bruno Grossi - óleo sobre tela - Série Retrato Sem Face

    Nina nasceu assim, como todos os oriundos de sua província, sem face. Ali se aprendia que desde os primeiros segundos de vida, cada ato seria um influenciador direto de cada traço que surgiria em seus rostos, a princípio inexpressivos. O susto do nascimento deu a ele os rasgos entre as sobrancelhas. A falta de ar em uma noite de asma deu àquela o arrebitado do nariz. As canções, que permeavam o lar de amor, na voz suave da mãe, deram a ele a concavidade dos lábios, por desde sempre ensaiar longos sorrisos - ainda que sem dentes. Não se sabia por que, diferente de todos, Nina, conhecida na escola como “a menina sem face”, ou só “Nina sem face” mesmo, não conseguia desenhar seus traços.

    Dona Marieta a rezadeira – que costumava profetizar alguns acontecimentos enquanto balançava seu velho sino com pêndulo enferrujado - dizia que Nina não tinha face porque não tinha sentimentos. “Essa menina não é do céu, nem do inferno. (blen blen) Ela é do meio, não tem um lado, e se você não tem um lado nada você faz, nada você tem, nada você sente, nada você é (blen blen)”. Mas havia também quem acreditasse que Nina não tinha sentimentos porque não tinha expressões para demonstrá-los. Na verdade nunca se soube o que faltou primeiro.


     Seus pais a encheram de amor, de caneta hidrocor, de vestidos de flor, mas nada fazia Nina pintar seu primeiro sorriso, seu primeiro choro, seu primeiro berro, sua primeira dor. Nada que fizessem poderia tirar Nina da inércia do não-sentir.


    Cresceu assim: não gostava nem desgostava de música; não costumava ler; anulava o voto nas eleições de grêmio; tinha sempre frases neutras nas mais acaloradas discussões; e não queria nem saber de se apaixonar. Imune a qualquer prazer ou desagrado, uma das poucas opiniões firmes de Nina era que não valia ter boca, para todas as gargalhadas que tivesse em vida, se para isso fosse preciso ter olhos para tantas quantas fossem as lágrimas que sempre intercalavam as alegrias.
 

26 de outubro de 2011

O ser global


      Ele acorda sabendo do trânsito; da confusão que deu no metrô – bem longe da sua casa; da tempestade que virá com a frente-fria, mais tarde; do vencedor do prêmio da música mais bonita do país, que havia acontecido ontem; e de todos os verbetes mais comentados da internet nas ultimas 24h, inclusive os em inglês.

    
Agradar a todos do entorno era sua principal característica, ele nunca contestava nada, apesar de sempre ter um dado correto – ou não – sobre o tema do momento. Seu comportamento, assim como cada um dos sentimentos que carregava em sí, eram preceitos de velhos antepassados. Mas a sua camisa... ah essa era com estampa exclusiva!

    
- Bondade? Claro! Repliquei uma foto do Tody, o cachorro multilado, semana passada na minha rede social, e olha que sou super seguido por lá!

    
- Luta? Como não? Coloquei no meu perfil um avatar de desenho animado em protesto contra a violência infantil!

    
- Belo Monte? Já ouvi falar sim! Mas olha, sou um cara de atitudes mais abrangentes, semana passada, por exemplo, comprei uma ecobag irada!

    
Assim ele é visto: o admirado; o antenado; o interessante; o ativista de correntes virtuais; o diferente. Assim ele é: um portfólio de sí; um sabedor de notícias inuteis; um interessado em parecer interessante; um mantedor de velhos padrões; um replicador das mesmas formas de se relacionar; um desativista; um produto em série; um igual a tantos outros uns.

28 de junho de 2011

Amor al dente

O post dessa semana é um presente pelos dois anos do blog Feito com Pimenta da minha amiga, jornalista gatronômica e aspirante a cozinheira Mariana Marcial. E vai ser postado por lá mesmo, uma boa oportunidade para todos conhecerem o blog que - claro - tem como prato principal a gastronomia e é uma delícia.

http://feitocompimenta.blogspot.com/2011/06/amor-al-dente.html

21 de junho de 2011

O que há


Há quem ache que espelho é só retrovisor
Há quem viva soluçando sempre a mesma dor
Há quem faça o mal desejando pra si o bem
Há quem só queira aquilo que o outro tem

Há um leste, um oeste, uma peste dentro da gente
Que revira, reveste e escolhe o que fica na mente
Há um oco, um pouco e um rouco fazendo oração
E até um que já dizem louco por agir na emoção

Há quem use o espelho pra ver o que fica de si
Há quem tome suas dores para enfim aprender a sorrir
Há quem espalhe o bem e deseje pro outro o melhor
Há quem só é feliz se consigo for todo o redor

14 de junho de 2011

Cada passo

É esperando o muito que se vive pouco
Cada gota, cada nuvem, cada pedaço
É parte do inteiro de quem dizem: louco
Por cada farelo, cada caco, cada estilhaço
Do desejo do plural vem o valor do singular  
E de cada peça, cada célula, cada bagaço
Pois chega longe quem não se priva de andar
Cada curva, cada trilha, cada passo

20 de maio de 2011

Só isso tudo


Todos os dias ao acordar ele busca alcançar o inalcançável; atingir o inatingível; e desejar o que não podia ter. Ele deixou em algum lugar, que não se lembra mais, a vontade de esgotar as possibilidades do hoje e o gargalo que abastecia sua sede de viver.

Um dia de repente, resolveu que o que tinha era pouco, que podia muito mais, e que esse mais estava sempre adiante de sua posição no tempo. Esse dia lhe fez forte; lhe fez batalhador; lhe fez aficionado; lhe fez tanto que lhe sobrou pouco para aproveitar a vida. Em que momento perdeu a medida? Isso ele não sabia, porque na verdade nem sabia que a havia perdido.

O que importava era que os “agoras” estavam, todos eles, fadados ao fracasso. Pois bem sabia ele que quando o futuro desejado se tornasse agora, carregaria consigo a sina de ser perecível e a sombra de outras querências que passariam a existir no meio do caminho.

Ao dormir se punha a pensar em soluções. E uma delas, talvez, seria viver o temido agora e pensar menos no que não podia ter no momento. A partir desse agora só ia tentar alcançar o que pudesse tocar entre o espaço da ponta dos pés alongados aos braços esticados. Esse era o espaço do esforço máximo que o seu eu poderia fazer pela conquista e só. Quem sabe esse só não passaria a ser tudo? E se ele vivesse só uma parte do todo por vez, o tudo poderia ser menos e o muito deixar de ser pouco?

12 de maio de 2011

Antes

Antes...
Que o dia termine
Que o mundo acabe
                                Que o bonde ande
                                                     Que o tempo corra
Que o juiz apite
Que o sol se ponha 
                                                                  Que a idéia passe
                                                                                           Que a vida morra.

4 de maio de 2011

Ponto de vista


É que o claro
Tantas vezes é melhor no escuro
É que o sábio
Tantas vezes é em cima do muro
É que o rico
Tantas vezes tem mais do que é
É que o silêncio
Tantas vezes vem da ponta do pé
É que o ontem
Tantas vezes leva algo bom consigo
É que o culpado
Tantas vezes escapa do castigo
É que o telhado
Tantas vezes toma para si a tempestade 
É que o relógio
Tantas vezes se esquece o quanto é tarde

2 de maio de 2011

Seus "ais"


Seus antigos “ais”
São partes que ficam
Dos seus ancestrais
De medos e marcas
Que já não doem mais
Mas teimam e temem
Não ser imortais.

Seus agora “ais”
São culpas constantes
Do que não satisfaz
De grades e amarras
Que prendem a um cais
E te retribuem com cores
E fatos sempre iguais.

Seus futuros “ais”
Serão sempre culpa
De todos os demais
Formando um ciclo
Que não fecha jamais
Girando em torno do todo
Que pode ser tudo menos paz.

12 de abril de 2011

Simplicitude



Parecia estar tudo bem na frase, aí alguém inventa de colocar a conjunção “mas”, ali logo depois da vírgula. E tudo que foi dito na oração anterior ganha um quê de oposição ou restrição. Está um dia tão bonito, mas eu tenho que trabalhar. Eu tenho tudo para ser feliz, mas tem aquele detalhe ali fora do lugar. O pão está fresquinho, mas só tem manteiga para rechear.

Por que será tão difícil emitir uma simples frase positiva sem “poréns”? É que a gente aprende desde pequeno que sempre tem o que melhorar. Ok, longe de termos alcançado a perfeição, mas essa sombra do que seria o ideal, instaura, de alguma maneira, uma competição em nossas vidas, que nos torna aos poucos rivais de nós mesmos. E tudo que era bom, não é tão bom assim, poderia ser mais, poderia ter mais, poderia fazer mais.

Sim, podemos sempre mais, e podemos também nos cobrar menos, exigir menos da vida, problematizar menos, usar menos “mas” pro caso de opor com pessimismo o bem feito. Se a gente encontra o valor da oração simples, e da simplicidade por si só, a gente descobre o quanto é bom poder apenas ver esse tal “dia tão bonito”; saber “que se tem tudo para ser feliz, mesmo com aquele detalhe”; e que, às vezes, não há banquete melhor que “um pão fresquinho com manteiga”.

2 de abril de 2011

Reticente...


Um pouco de hoje já é o bastan
tenho pressa, não posso esper
ardem os goles de sede de vi
dando partida e querendo ficar

21 de março de 2011

Sol em si


Começarei esse texto aqui de um jeito que me desagrada. Em primeira pessoa, bem no estilo “querido diário”. Não acho legal, mas acho necessário para expressar as constatações presentes.

Bem... (querido diário) hoje eu acordei de bom humor. Olhei para o céu e vi que haviam muitas nuvens e a única observação que me restou daquele quadro cinza, emoldurado pela janela, foi: “é preciso levar o guarda-chuvas ao sair”. Sim, mas antes disso, dei aquela circulada pela internet, e em toda parte, - entre as redes sociais, e-mail e as notícias do dia - estava decretado com pesar: o outono chegou.

Reparei então que o fim do verão era visto muito mais do que como uma mudança climática: era o início de uma triste etapa do ano. Alguns lamentavam o tempo que não se veria a praia; outros, saudosos, diziam o quanto havia sido bom o que passou; outros recorriam à música para dizer das folhas que cairiam secas; outros a grandes poetas e pensadores – talvez o mais sensato desses fosse o Nietzsche que também reparou “que o outono é mais estação da alma do que da natureza”.

Descobri, em uma rápida pesquisa, que o outono rima com tristeza para a maioria dos poetas, apesar de não me parecer uma rima tão rica. O fato de se tratar de uma estação transformadora para a natureza, e dessa transformação ser tão associada à dor, nem precisa ser muito explicado, pois é de praxe do ser humano encarar mudanças como pedaços horríveis de vida. Ok, você pode me dizer que existem explicações físicas para isso, afinal a exposição à luz do sol estimula a produção de serotonina, dopamina e melatonina, - substâncias responsáveis por nos transmitir bom humor e energia. Ou ainda dizer que muito mais que isso, está o fator psicológico, o sol leva consigo, muitas vezes, o choppinho; a vontade de sair; e leva com isso o contato social, certo? Errado. Tenho na memória festas, jantares e reuniões inesquecíveis em outonos bem frios, a base de muita comida quentinha, vinho, amizade e carinho. 

Se eu quero ficar aqui todo o tempo contando histórias do meu “querido diário”, até esse dia horroroso acabar? Não, não, eu só quero voltar à reflexão inicial e dizer que tudo isso me remete ao seguinte pensamento: as pessoas, de modo geral, procuram com intensidade o que as faz falta e quais detalhes podem se tornar, sem muito esforço, a essência do que “impede” sua felicidade, muito mais do que procuram as grandes pequenas coisas que de fato as fazem felizes. E aí uma das frases que encontrei me levou a uma doce dose de otimismo que eu tanto sinto falta: “Gosto do outono porque ele é frio suficiente para refrescar o calor. E é quente o suficiente para aquecer o frio”, de autoria de Lidiane Mejozebato. Que me faz pensar o seguinte: quem sabe se nos atermos menos aos incômodos, o dia mais cinza de todos; o inverno mais frio; o outono mais seco; não se apresentam momentos ideais para redescobrir e fazer brilhar o maior sol que pode haver? O sol que cada um carrega em si.

2 de março de 2011

Passado a limpo


Assim que ele despertava todos os dias sentia seu sangue correr nas veias, o atrito do lençol em sua pele, os olhos inchados e então percebia que o anúncio da sentença era inquestionável: mais um dia de vida se seguiria. Alí se punha a pensar nas dificuldades e na dor de suportar o tempo passando e o distanciando a cada hora de tudo que virou passado.

Quando se levantava fazia uma análise minuciosa das fotografias penduradas na parede, o quanto os seus pigmentos se alteraram nos últimos tempos, o quanto alguns rostos se tornaram lembrança, o quanto lhe faziam falta todos aqueles que havia perdido pela vida e pela morte. Para ele era uma tormenta ver o vídeo de sua primeira pedalada de bicicleta; as fotos de seus avós e de seu pai; relembrar as histórias dos tempos de faculdade; o tempo que morava com seus filhos; o dia do casamento...

Entre o sabor do café, e a preocupação em perder o sono devido à cafeína, ele seguia ouvindo seus LPs. Lembrou do baile de formatura; lembrou de festas juninas; lembrou da moça bonita de laço de fita no cabelo. Procurou logo seu diário e se dedicou a leitura dos fatos do ano de 1979. As lágrimas embaçaram-lhe os óculos, resolveu dar uma pausa.

Enfim retomou ao diário para atualizá-lo, já lamentando os fatos do dia anterior terem passado. Seus filhos haviam lhe visitado ontem, mas no momento ele ainda estava a lastimar o fim do anteontem e não pode os dar a atenção merecida. Mais uma vez ele não compreendeu por que eles haviam ido embora com olhar de desapontamento.

O entardecer já lhe trazia uma saudade enorme do dia findado. Àquela altura ele já havia se acostumado a se apegar aos tempos de felicidade apenas a partir do momento que eles se acabavam, e fazia parte também da sua condição vital imaginar que nada do que pudesse vir adiante seria tão bom quanto o que se foi. Para ele não importava o que havia ficado do que passou; não consolava pensar que com algumas coisas boas que se foram, foram-se também as ruins; não era suficiente pensar que havia adquirido experiência; e em hipótese alguma refletir sobre o temeroso conselho que insistiam em lhe dar: “amanhã vai ser outro dia”.

Passar a limpo o passado; acordar corajoso olhando adiante; seguir em frente; eram expressões inutilizáveis por ele. Simplesmente porque o ele em questão não aprendeu a usar o passado como lição; não aprendeu a guardar o que foi bom de maneira saudável; não aprendeu a conviver com as perdas, e por isso havia até optado em não ter mais ganhos; não aprendeu que muitos problemas se tornam insignificantes perto daquele tal da década passada; sequer aprendeu a fazer diferente, ou melhor, depois deles; não aprendeu que o ciclo que entrou era perigoso e difícil de sair. Talvez ele pense sobre isso hoje e se revolte. Mas quem sabe amanhã, ao se lembrar da reflexão datada no dia anterior, ele não a ache preciosa por já ser fenecida.

23 de fevereiro de 2011

O que te move te comove?


Os compromissos movem seu corpo para lugares e tarefas muitas vezes indesejáveis. As más notícias te movem para baixo. As necessidades te movem para caminhos que não os escolhidos. A realidade - capitalista - move seu relógio com horas programadas.

A vontade de “vencer” te move para lutas em que você não escolhe o adversário. E de repente você percebe que nem sabe o que te move a vencer, afinal. Você não sabe, na verdade, nem o que quer vencer. São apenas as imposições do ideal e perfeito lançadas por aí, sabe-se lá por quem, que algum dia você resolveu vangloriar.

Agora pense, se você soltar seu corpo, respirar fundo, relaxar: Para onde você gostaria de se mover? Para aquele sonho que abandonou? Para aquela carreira que abortou? Para aquele amor que fracassou? Para aquele passo de dança que tropeçou? Para aquele endereço de onde se mudou? O que você deve saber é se quer passar a vida toda deixando que os compromissos; as más notícias; as necessidades; a realidade; e as batalhas impostas determinem os seus movimentos; ou se finalmente deseja assumir o comando sobre o que te move, e o que te comove.

6 de janeiro de 2011

O passado é um bolso


O passado é um bolso: de onde se deve tirar apenas o que convém. O Passado é a contração da mãe de filho crescido; é o cheiro de quem vai, mas não é esquecido; é o choro de separação da moça que já tem novo marido; é a voz de quem se foi; é o tchau de quem era “oi”.

Do bolso passado se tira apenas o que precisar, existe o que nunca há de se resgatar. Passado é o minuto atrás do instante agora; é a fome do que saciou; é a solidão do acompanhado; é a dureza do abastado; é a tristeza do alegrado; é a caixa de email do mês passado; é a semente que já floriu; é a nascente que encontrou o rio; é a corrente que se partiu; é o março para o abril.

O Passado não deve ter zíper, nem mesmo botão, tudo precisa estar sempre acessível pra ser relembrado, para ter de lição. Não se deve lacrar o passado, mas pode-se tingir de outras cores, não se deve tê-lo furado, nem fazer dele morada das mãos. Pois apesar do bolso passado ser fundo e caber cada dor e alegria do coração, é preciso ter as mãos livres para pegar o novo que vem com os ventos presentes e então decidir o que se quer guardar - ou não.