6 de dezembro de 2010

Metalinguagem

Foto:  Hidden
Não há nada mais precioso para mim que as palavras. Confesso que gostaria de ser mais amiga das proferidas, mas é que às vezes a hora de por para fora, o que é uma junção do que foi pensado, vivido, sentido e entendido, de determinando momento, se torna tão difícil. Possuir caneta e papel – ou mesmo teclado e monitor - para fazer esse intermédio entre o mundo interior e o exterior é quase imprescindível em algumas ocasiões. Seria bom andar por aí com um bloquinho dizendo em verso e prosa o que se passa em mim aos outros, no entanto psicografar a si mesma a torto e à “esquerda” seria mais esdrúxulo do que deixar que elas saiam do modo estranho que seja.

Aquela carta que escrevi para o meu pai, já grandinha, quando não mais entregava cartões prescritos no colégio, toda com palavras minhas, o fez me olhar de um jeito emocionadamente diferente naquela tarde, ele pode não se lembrar, mas eu jamais esqueci. Aqueles versos que entreguei para uma amiga na adolescência, quando ela estava vivendo sua pior dor de todos os tempos da última semana, podem ter se perdido entre uma arrumação de gaveta e outra, mas o sorriso dela naquele intervalo de aula valeu por cada vogal gasta. Aquele email consolador, revelador, declarador, na tentativa de me fazer presente em lugares que não pude estar, foram válidos e verdadeiros em seu tempo, ainda que não substituíssem o abraço. 

Isso sem dizer desses comentários sobre meus textos aqui, que me impulsionam a querer voltar, para contar um pouco mais de mim, para ouvir um pouco de vocês. O mais incrível é que cada palavra eleita para habitar esses meus escritos, cabe em cada um de vocês de modo diferente. Quantas vezes alguém achou ser inspiração de determinado texto sem ser; quantas outras, quem realmente o era nem percebeu; quantos comentários me apontaram para o entendimento de que o que fazia sentido para mim de uma forma, fazia sentido para o outro de forma totalmente diferente, e para outros nem fazia sentido. E isso é tão lindo, tão mágico, tão, tão... Que - ironicamente - me faltam palavras. 

Ah, minhas queridas palavras... Se combinadas em versos são como enigmas a serem desvendados, cada poesia é de um jeito para cada um que a lê, para o poeta talvez aquela dor nem fosse por determinado motivo, mas para o João pareciam remédio, pareciam alívio, mas eram só palavras. Se ritmadas, deixam de embalar só a alma para embalar também o corpo, a letra combinada ao som gera uma sensação de entendimento, de conforto. Teria o compositor conhecido a história do moço apaixonado pela “moça em contraluz” para saber que ele andava mais confuso que o casarão “onde os sonhos serão reais, e a vida não”? Se escritas da forma que seja: entregues a quem se destinam (ou não), elas eternizam momentos. O que a Ana sentiu exatamente naquele dia que recebeu uma declaração do Rômulo estará sempre ali, ele sabendo ou não, ele interpretando ou não, ele lendo ou não, e emocionará os de fora quase como uma amostra da beleza do que foi sentido no momento da escrita.

E esse é o encanto da emissão das mensagens. Eu prefiro sempre que elas cheguem ao receptor, pois se mesmo juntando o que foi pensado, vivido, sentido e entendido as palavras ainda insistirem em sair, é porque elas devem seguir o fluxo e chegar aos ouvidos – no meu caso, geralmente, aos olhos – de quem as merece. E então eu as divido com vocês todos, pois elas podem caber exatamente aí nos seus pensamentos, nas suas vidas, podem ajudar, emocionar, fazer rir, refletir, ou pensar que estão perdendo tempo, e então encontrem outros tantos cursos diferentes do que foi pensado a princípio. Sigam por aí palavras queridas, sigam cumprindo, cobrindo e bordando papeis distintos, sigam em frente, e, quem sabe um dia, retornem em forma de uma bela resposta.

3 comentários:

  1. Me arrepiou!

    Suas palavras sempre seguem me tocando e me ajudando, como que remédio para minhas dores, e confete e serpentina para minhas felicidades!

    E eu continuo a admirar e incentivar essas palavras a seguirem sempre em frente, para onde quer que elas estejam indo, apenas EM FRENTE!

    AMO Mattosquela!

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  2. As palavras conforme ditas ou escritas ou não ditas têm o dom de expressão da alma, do coração. As frases, sílabas, vogais e consoantes vibram no nosso inconsciente-consciente e de alguma forma são captadas pelo campo mórfico de cada um.

    A mattosquelice já escreveu muito para mim, de mim e sobre mim. Só tenho que reverenciar minha amiga de tão profundos sentimentos, generosidade e amor.

    Agora, tenho um pinguinho de pena... É bom sentir pena? Tenho pena das pessoas que não conseguem escrever, falar e se expressar com as palavras. Conheço algumas assim. Talvez, lá no seu cerne fica tudo entalado e um dia vem à tona.. quem sabe?

    Eu agradeço todos os dias aos céus por poder e sabe expressar as ideias pelas palavras.

    E continue aqui trocando suas ideias e sentimentos, nós amamos!

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  3. Quando terminei de ler seu post - e já sabendo que viria aqui comentá-lo -, o comentário que veio à minha mente é um daqueles clichês que vimos em exercícios de textos de 4ª capa que aprendemos na faculdade: "Tocante!".

    Sabe... Já te passei outro dia um blog que eu admirava bastante (e admiro ainda!) que eu, volta e meia, ia lá visitá-lo. Nem conhecia (e nem conheço!) a autora. Mas era um blog com posts, textos, poemas, prosas, etc., tão legal, mas tão bonito que me permitiam sentir-me encaixado ali. Sabe? Dava liga, eu sentia-me como a peça final de um quebra-cabeças.

    Você sabe porque eu te indiquei aquele blog. Logo, também sabe que aqui, no Mattosquela, também já sinto-me como uma peça final de um quebra-cabeça. Não sou o único, todos aqueles que aqui vêm te visitar sentem o mesmo.

    Você faz de seu blog algo como um livro de autoajuda para quem o lê; ou um autoconsultório para quem o visita. Ou, simplesmente, um quebra-cabeça.

    Em tempo: adorei a ilustração. Como estudamos isso... haha

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