29 de dezembro de 2010

O velho novo


E os sinos já tocaram. Toda a correria desenfreada pelas ruas, para se gastar o 13° salário, cessou. Todo apelo consumista da data natalina é substituído por uma “renovação da esperança” sugerida pelo Ano novo – festejo do momento. Mas você já parou para pensar o que tem de novo, de fato, no seu ano que virá? Você aproveitou bem o ano de 2010 para se tornar uma pessoa melhor? Essa “passagem”, tão emblemática, realmente carrega consigo mudanças profundas? Ou é só uma desculpa para se embebedar e usar roupas brancas sem parecer que é médico ou enfermeira?

Nos últimos dias, tenho reparado meus amigos, familiares, contatos da internet agitados com o tema "ano novo". Uns divulgam as roupas a serem usadas; outros a compra das passagens para a Europa, para o nordeste, ou para Ituiutaba mesmo; Alguns se animam com as festas open bar, que tem o convite mais caro que o estoque do buteco aqui da esquina – que poderia ser comsumido em um ano, com muitas e boas companhias. Tem aqueles que suplicam: “Acaba logo 2010!”. Tem os saudosos que pedem: “Fica mais um pouco ano velho”. Tem os metódicos traçando as metas. Os desorganizados dizendo que não deu tempo de fazer o que queriam. Tem “revellionista” para todos os gostos.

O que acho engraçado mesmo é o modo de encarar essa “virada”; esses segundos da contagem regressiva; essas uvas; essas ondas; essas lentilhas; essas moedas; e taças de espumante como se toda a transformação necessária – e não batalhada durante os outros 365 dias – estivesse ali. Um brinde entre condutores alcoolizados; cidadãos que não exercem o direito de voto com consciência; sonegadores de impostos; moradores que não cumprimentam os porteiros; patrões que tratam mal seus funcionários; maridos com atitudes machistas com suas esposas; jovens que não respeitam os idosos; tim tim, vamos lá, é ano novo!

Tudo bem, antes que eu pareça ranzinza vou me explicar: o caso não é apenas jogar pedra no ano novo e sair correndo. Sim, eu também gosto de festejar a data, mudanças de ciclo sempre são boas. Mas merecem reflexões profundas e novas atitudes, certo? Que bom seria se o que é ruim de cada um fosse jogado fora às 0h; Que bom seria se não precisássemos de hora marcada para termos os melhores gestos; Que bom seria se a hora certa para isso fosse todos os dias, o dia todo; Que bom seria se nessa hora certa um despertador disparasse, e nos acordasse para o ano novo que sempre carregamos em cada um de nós. Afinal como diria Drummond “É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre”.

14 de dezembro de 2010

Eu passarinho


Um passarinho me disse para não ficar mais triste, que o bom da vida era passarinhar. Inquieta, tratei logo de procurar o significado nos mais variados dicionários – formais e informais – da língua portuguesa. Passarinho me deixou confusa, seria ele exibido a ponto de querer ser observado todo dia, o dia todo? Afinal o ato de observar aves pode ser entendido por passarinhar... Ou seria ele de uma espécie dessas que vivem na pele – ou, nesse caso, nas penas – o ato de vadiar? Sim, porque acabei por descobrir que passarinhar pode ser também o lema de vida do desocupado, do vadio. 

Passarinho me fez pensar, poderia ele ter conselho tão leviano? Ou seria eu que não conseguia entender o “passarinhar”? Os dias se seguiam e eu seguia com tristeza no olhar. Passarinho ressurgiu risonho com um tanto de deboche a me observar. Disse ele que o mal do homem é querer a tudo conceituar. Quis me tirar toda a agonia e explicar que de noite e dia já me punha a passarinhar:

– Menina olha para a sua volta; olha para o seu pranto; olha para o tanto de pranto mais doído que passou ao lado seu; olha para a palavra mais certa que já disse; olha para o aperto mais abraçado que já deu; olha os escritos e cantos mais bonitos que o piar que escreveu. É como eu faço todos os dias, pego umas sementes aqui, deixo caí-las acolá. O que foi flor para um jardim, pode ser flor em outro lugar. O acalmou um coração, pode outros tantos acalmar. O que viveu o seu vizinho, pode um amigo distante ajudar. Bom mesmo, menina, é apanhar essas sementes, semear por toda parte, deixar brotar. Mas não se esquecer nunca que semente também serve de alimento no tormento do passarinho que tanto se põe a passarinhar.

6 de dezembro de 2010

Metalinguagem

Foto:  Hidden
Não há nada mais precioso para mim que as palavras. Confesso que gostaria de ser mais amiga das proferidas, mas é que às vezes a hora de por para fora, o que é uma junção do que foi pensado, vivido, sentido e entendido, de determinando momento, se torna tão difícil. Possuir caneta e papel – ou mesmo teclado e monitor - para fazer esse intermédio entre o mundo interior e o exterior é quase imprescindível em algumas ocasiões. Seria bom andar por aí com um bloquinho dizendo em verso e prosa o que se passa em mim aos outros, no entanto psicografar a si mesma a torto e à “esquerda” seria mais esdrúxulo do que deixar que elas saiam do modo estranho que seja.

Aquela carta que escrevi para o meu pai, já grandinha, quando não mais entregava cartões prescritos no colégio, toda com palavras minhas, o fez me olhar de um jeito emocionadamente diferente naquela tarde, ele pode não se lembrar, mas eu jamais esqueci. Aqueles versos que entreguei para uma amiga na adolescência, quando ela estava vivendo sua pior dor de todos os tempos da última semana, podem ter se perdido entre uma arrumação de gaveta e outra, mas o sorriso dela naquele intervalo de aula valeu por cada vogal gasta. Aquele email consolador, revelador, declarador, na tentativa de me fazer presente em lugares que não pude estar, foram válidos e verdadeiros em seu tempo, ainda que não substituíssem o abraço. 

Isso sem dizer desses comentários sobre meus textos aqui, que me impulsionam a querer voltar, para contar um pouco mais de mim, para ouvir um pouco de vocês. O mais incrível é que cada palavra eleita para habitar esses meus escritos, cabe em cada um de vocês de modo diferente. Quantas vezes alguém achou ser inspiração de determinado texto sem ser; quantas outras, quem realmente o era nem percebeu; quantos comentários me apontaram para o entendimento de que o que fazia sentido para mim de uma forma, fazia sentido para o outro de forma totalmente diferente, e para outros nem fazia sentido. E isso é tão lindo, tão mágico, tão, tão... Que - ironicamente - me faltam palavras. 

Ah, minhas queridas palavras... Se combinadas em versos são como enigmas a serem desvendados, cada poesia é de um jeito para cada um que a lê, para o poeta talvez aquela dor nem fosse por determinado motivo, mas para o João pareciam remédio, pareciam alívio, mas eram só palavras. Se ritmadas, deixam de embalar só a alma para embalar também o corpo, a letra combinada ao som gera uma sensação de entendimento, de conforto. Teria o compositor conhecido a história do moço apaixonado pela “moça em contraluz” para saber que ele andava mais confuso que o casarão “onde os sonhos serão reais, e a vida não”? Se escritas da forma que seja: entregues a quem se destinam (ou não), elas eternizam momentos. O que a Ana sentiu exatamente naquele dia que recebeu uma declaração do Rômulo estará sempre ali, ele sabendo ou não, ele interpretando ou não, ele lendo ou não, e emocionará os de fora quase como uma amostra da beleza do que foi sentido no momento da escrita.

E esse é o encanto da emissão das mensagens. Eu prefiro sempre que elas cheguem ao receptor, pois se mesmo juntando o que foi pensado, vivido, sentido e entendido as palavras ainda insistirem em sair, é porque elas devem seguir o fluxo e chegar aos ouvidos – no meu caso, geralmente, aos olhos – de quem as merece. E então eu as divido com vocês todos, pois elas podem caber exatamente aí nos seus pensamentos, nas suas vidas, podem ajudar, emocionar, fazer rir, refletir, ou pensar que estão perdendo tempo, e então encontrem outros tantos cursos diferentes do que foi pensado a princípio. Sigam por aí palavras queridas, sigam cumprindo, cobrindo e bordando papeis distintos, sigam em frente, e, quem sabe um dia, retornem em forma de uma bela resposta.