12 de novembro de 2010

As cores da vida


Era mais uma tarde chuvosa, como eu jamais havia visto da velha varanda, na velha cadeira, em um mês de novembro. Lembrei que as tardes chuvosas de fim de ano outrora tinham um tom violeta, sem deixar de ser azul, também com um verde molhado e mais algumas cores que se fossem jogadas em uma tela branca, de qualquer jeito, virariam essas obras de arte modernas – um tanto rabiscadas ao meu ver – mas que valem um bom dinheiro, como explicou minha neta, estudante de belas artes.

Como esses tais rabiscos, existem outras tantas coisas da modernidade que eu não consigo entender. Mas a essa altura as coisas não precisam de muita explicação como na juventude. A essa altura novembro faz frio e em junho ainda há calor. A essa altura os jovens dançam epileticamente uns sons repetidos com letras escandalizantes. A essa altura as meninas não observam mais a aquarela dos dias chuvosos. A essa altura eu não sou mais uma menina.

E assim como eu não quero muitas explicações sobre a vida atual, também não quero resmungar sobre o tempo perdido – no fundo acho isso uma tremenda babaquice de velhos patéticos que acham necessário todo esse lamento antes da “partida”. Não, jamais, jamais terminaria minha vida lamentando o que não disse, o que disse, o que fiz, o que deixei de fazer... Um fim assim não justificaria toda a beleza contida no meio do caminho, um fim assim apagaria uma parte significativa dessa beleza.

Para não dizer que não tenho mais nada a questionar nem a acrescentar eu sempre repito – dizem que repetir virou uma característica minha, mas não me importo – repito e repito apenas um conselho aos mais jovens, meus filhos, minha neta e até seus amiguinhos da faculdade – que apreciam essa tremedeira corporal musicada, mas que no fundo são boa gente e merecedores dessa recomendação. O Conselho é o seguinte: “aprenda a não perder tempo”.

Muito mais que um simples “não perca tempo”, deve-se atentar ao “aprender”. Afinal, saber esperar muitas vezes evita uma volta enorme que se usa para chegar ao mesmo ponto - apenas pelo fato de não ter aprendido a ficar parado só mais um tempinho. Aprender a aceitar as crises e encará-las - ao contrário de correr do problema e encarar uma crise mais densa logo adiante. Aprender a distinguir, observar e admirar as cores de uma tarde chuvosa, de um gesto simples, de um dia-a-dia mais leve, de um aconchego com a família, de uma bela amizade, de um verdadeiro amor.

Aprendendo que esse tempo não volta, aprende-se a vive-lo enquanto ele é presente. Aprendi vivendo assim que não tem nada melhor que chegar à minha velha varanda e não esperar por mais nada a não ser por aquela tarde chuvosa imensamente colorida, e saber que todas as outras cores pertencentes a mim eu já pintei.   

4 comentários:

  1. :)
    Seu texto me fez sorrir - de satisfação. Afinal, parece que há uma inspiração no livro emprestado.

    Eu tenho um momento muito marcante na minha vida: quando eu era agarrado por uma amiga bêbada que queria meu beijo, mas eu não queria dá-lo daquele jeito. Então, para desembaraçar o embaraço, eu mostrava-a aquele céu. Um céu extremamente lilás. Foi o céu mais bonito que já vi pintado. Sempre quando vejo o céu naquela tonalidade, lembro da amiga; sempre que vejo a amiga, lembro daquele céu.

    Enfim... há alguns posts atrás eu comentei sobre pintar a vida. Não seria interessante se todos pudéssemos ter um pincel mágico (tal qual a varinha mágica) e saíssemos pintando tudo ao nosso bel prazer?

    Pintaria o céu de lilás; pintaria o mar de verde turquesa; pintaria o Sol de ocre; pintaria o amor de rosa; pintaria o Flamengo de vermelho e preto mais uma vez; pintaria o cabelo de branco...

    Aliás... ai, ai... todo este comentário de pintar me lembrou um filme belíssimo (e triste, mas bonito): "Amor além da vida", com o Robin Willians, Cuba Goodding Jr. e Annabella Sciorra) . Tá indicado um filme para o feriadão... Um link para quem quiser saber mais:
    http://www.cineplayers.com/filme.php?id=893

    Beijinhos!

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  2. Pintaria a vida de amarelo. Amarelo ouro, de tão valiosa que é. Amarelo da cor da alma, da cor do infinito. Amar- elo.

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  3. Seu texto é comovente.
    Belo.
    Vou ficar por aqui.
    beijos

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