8 de setembro de 2010

Medo da solução

Foto: Jason Conlon
Aos sábados, sempre havia um problema diferente para resolver. Fazia sol e outros problemas apareciam; os amigos chamavam para se distrair, mas os problemas ainda estavam lá. Voltava para casa mais cedo a fim de resolvê-los. Se punha na cama e não dormia pois eles não davam descanso. Eles ocupavam sua vida mais que qualquer solução, e não havia fagulha de paz capaz de explodir um bem-estar maior que a demasiada preocupação.

De bonito no amor só a rima com dor. De sua bela casa, só as contas todas pagas, reparos feitos, armários cheios. De sua aparência, o espelho refletia apenas o que não agradava. De seu livro, uma resenha com críticas severas. De sua música, a inconformidade com aquela rima feita com uma palavra em diminutivo. De seu prato favorito a observação da falta de manjericão. Do trabalho com revisão de textos, o único lamento de não poder modificar estilos literários, achava em qualquer que fosse uma falha. Adorava ver o mesmo filme de vez em sempre, com a mesma frequência que lamentava a escolha da atriz protagonista, podia ter mais emoção não fosse ela, não fosse essa luz mal colocada, não fosse sua habilidade em encontrar defeitos e vivenciar problemas.

O seu principal receio era se descobrir, afinal quanto mais defeitos achasse em si, menos possibilidades de se esconder do defeituoso mundo ao redor. E foi identificando esse temor que ele identificou o que aguçava seu radar de problemas – o medo. Não podia se permitir gostar de algo mais do que desgostava; nem achar alguém tão perfeito que até seus defeitos o agradassem; não poderia pensar que esse alguém se tornaria tão importante para sua felicidade a ponto de achar necessário assumir essa fraqueza; nem reconhecer que sua casa era tão bonita quanto vazia. Ela achava não merecer mais tamanha desvalorização. Os amigos queriam alguém para dividir os problemas e alegrias e essa matemática era muito assimétrica quando se tratava dele. Ele mesmo não se aguentava mais. Sabia que só vencendo o medo veria menos problemas em tudo, mas o fato é que esses problemas já estavam há tanto tempo servindo como proteção, que submerso neles já não sabia como seria a vida sem os ter, sem os evidenciar, ou pior, a vida repleta de soluções... Descobriu como maior dos seus problemas: o medo de viver sem eles.

4 comentários:

  1. Querida!!!!!!!!!!!

    Perdoe-me pela imperdoável ausência no seu blog. É que aqui nada se lê de maneira rasa... É preciso ter tempo, ter fôlego... pra absorver tantas nuances literárias em tão poucas palavras.

    MULHER, VC ME DEIXA SEM FÔLEGO! Quanta profundidade nesse teu post! Conheço muita gente assim: com medo de deixar de ter medo. Pior é que agora me questiono se eu também sou uma delas...

    Beijos imensos! O Mattosquela está com um visual lindo! Amei!

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  2. Ótimo! Profundo mesmo, concordo com a Ana...
    E estou aqui pensando também no medo de deixar de ter medo... e ele realmente existe, fato!
    Medo da sociedade moderna!

    Mattosquela arransando, nem é novidade mais...

    :)

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  3. Profundamente lindo!

    Nós sempre submersos nos medos. Sabe Mattosquela amada, meu medo agora vou lhe dizer abertamente, é de amar!
    Mas eu acredito que o medo se manifesta qdo a pessoa tem mais intensidade no assunto.

    Como por exemplo o medo de sair de casa, de pessoas, tipo pânico. A pessoa é tão intensa e profunda naquilo q se protege não vivendo.

    Assim, temos nossos medos e pessoas e situações especiais nos ensinam a não temer mais não é? a vida sempre nos corrigindo!

    Salve Salve Fabíola Mattos.

    Amo muito muito!

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  4. Desde pequeno assumo que tenho um medo apenas: marimbondos. Depois que fui crescendo comecei a ter mais um medo, que pouco disse às pessoas. O medo da solidão.
    Este medo deve ter sido construído após duas décadas de solteirice. Só fui namorar já na segunda década de vida.
    O fato é que, hoje, confesso ter estes dois medos ainda. Não gosto de ser encontrado por marimbondos e não gostaria de ficar alone. Claro que sempre terei amigos (assim espero!) e sinto-me uma pessoa bem resolvida para viver sozinho. Sem uma companheira. Mas não é aquilo que desejo.
    Hoje, após escutar de alguns médicos que eu poderia estar desenvolvendo uma depressão, sinto-me mais leve. Ou melhor, procurando mais leveza em minha vida, tentando não me preocupar tanto com algumas coisas de trabalho, família e relação.
    O que eu gostaria, minhas amigas, é que a solução de meus problemas seja apenas uma questão de ver, entender e viver no mundo.
    Pareço, neste post, um tanto enigmático, mas... Não sei. Pode ser um desabafo gratuito ou até fortuito. Mas, que diabos!, não é que é um medo vencido por mim?
    Tá, eu sei... Costumo me abrir muito, falar sem medo de minhas coisas, sentimentos... Não é nada, não é nada. Mas... Pelo menos cá estou oferecendo-me em algumas linhas para a leitura da minha amiga Fá e de todos seus leitores.

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