28 de setembro de 2010

Aos pedaços

Foto: Hidden

Tem gente que vive uma vida toda calculando, precisa se sentir inteiro; ganhar no mínimo x salários; achar a sua metade; completar as quatro décadas em bom estado físico; ler ao menos tantos livros ao ano; conhecer um determinado número de países. Como se viver fosse uma ciência exata, uma matemática precisa, baseada, sobretudo, em números, somas e multiplicações. Com a preocupação em ter muito e pouco ser.

Vive-se bem nessa equação? De repente, sim. O grande problema – não matemático – dessa questão é se acostumar com a não aceitação das subtrações e divisões necessárias para seguir a vida. Aquele armário abarrotado de peças não mais usadas; aquele coração contabilizando amarguras; aquela poupança cheia no fim da vida; aquele apego excessivo; aquele número absurdo de sapatos para quem tem apenas dois pés e pisa nas mesmas calçadas de tantos meninos descalços...

Tudo para se sentir inteiro, não atento que o gesto de se espalhar por aí pode ser a melhor forma de se ampliar. Eu deixo um pedaço meu com cada um que me é importante. Deve ser por esse motivo que tenho tantas saudades dos meus queridos, saudades das partes de mim. E também por isso é muito difícil conseguir juntar minhas partes em um só lugar, em um só momento. Mas dos pesares que isso pode causar, nenhum é maior que o prazer de se sentir inteira. Porque, para mim, ser inteira é estar aos pedaços.

6 comentários:

  1. Lindo Fabíola, Um cadinho de vc está aqui. Um cadinho de mim está aí?

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  2. Maravilhosamente belo. Cada dia com mais sensibilidade; Vamos publicar seu livro hein? Vai escrevendo aí.

    Olha, essa análise é profunda e linda, qto mais tento me 'encher' mais vazia me sinto. E qto mais vazia tento ficar, mas me preencho de alegria.

    bjus, sua parceira de jogar as coisas fora e ser completamente inteira.

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  3. Nossa!!!!

    Que lindo, lindo, lindo!!!!! Fiquei emocionada, amiga. É verdade. Certas coisas, quanto mais dividimos, mais crescemos. Parece paradoxal mas é a verdade.

    Espero ter um pedacinho seu aqui comigo porque um pedacinho meu está aí com você!

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  4. Gostei muito do fim, de que ser inteira é estar aos pedaços - estes que ficam em nós, seus queridos.

    Isso me lembra quando uma menina que começava a me conhecer exclamou: "O que é você, Thiago? Quem fez você?"

    Uma exclamação gritante de uma admiração, acho que merecida naquele momento. Eu respondi que eu era "uma pessoa feliz que busca levar um pouco de pazzz para as pessoas que gosto." E que depois citei, nominalmente, todos aqueles que me fizeram até então: família e amigos. Acho que é isto mesmo que nós somos: uma soma de partes de outros.

    O que faz-me inteiro hoje? Além de sentir-me benquisto por aqueles que gosto, me faz inteiro a sensação de que estou caminhando direito nessa vida. Mas neste caminhar gostaria, sim, de (re)viver algumas coisas. Até para que a existência seja ainda mais repleta de alegrias.

    Gostaria muito de voltar a viajar para Viena, por exemplo. E de ir para Montevídeu - algo me cutuca a alma, insistentemente, quando penso nesta cidade. Gostaria, muito, de viajar em um cruzeiro com minha mãe... Isto desde que, qdo criança, eu perguntei para ela o que ela mais queria fazer: ela disse que queria fazer um cruzeiro. Aquilo me marcou. Sinto que devo fazer isto com ela. Bem como fazer com ela o "Caminho de Santiago", outro sonho que ela tem - e que muito motivou o meu nome. Também gostaria de levar minha avó ao Corcovado (é uma vontade dela) e a um jogo do Flamengo no Maracanã (uma vontade minha, para que ela possa entender o pq do seu neto tanto gostar de lá).

    São coisas que faltam para eu sentir-me inteiro?
    Eu não sei dizer se trata-se disto. São desejos, vontades, sonhos. Somos inteiros sem eles?

    Porém, certamente, são ideias que também me fazem, que também me constroem. Sem elas - essas ideias desejosas de realizar-se -, a vida seria menos alegre, não? Creio que a felicidade passa pelas realizações que fazemos na vida e também por aquelas que ajudamos outros a realizarem. Sigo, sim, buscando em levar paz para as pessoas que gosto. Mas agora, crescido e amadurecido, gostaria de ter as condições (financeiras, decerto) para que possa realizar algumas destas ideias, vontades, sonhos, desejos.

    PS: Fá, você continua inspirando-me em meus "tratados", "livros", etc, por aqui, né? Sinal de que você é uma escritora preciosa.

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  5. Caraca!!!! Fala sério! Difícil comentar à altura do seu texto... Tão poético, tão lindo, tão sincero... tão parecido comigo!

    Sempre fui péssima em matemática, rsrs. Nada na minha vida pode ser muito calculado. E tb tenho milhões de pedacinhos espalhados por aí que, se juntos, formam o meu eu.

    Vc é um desses pedacinhos... Pessoa muito querida que fez enorme sentido na minha vida de estudante quarentona, rsrs. Espero que as pecinhas de nosso quebra-cabeça possam se juntar algum dia novamente (frente a frente, não só no computador...).

    Beijos com orgulho de vc!

    Ana Prôa
    www.analuciaproa.blogspot.com

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  6. Seu texto me fez lembrar que exatamente como as estações do ano, as pessoas também têm muitas faces, e o que realmente são, em essência, é o conjunto de todas elas. Os pedaços da gente carregam tudo o que, de fato, somos... Um vaso quebrado não deixa de contar uma história inteira só porque se partiu. Parabéns pela reflexão sensível e consciente!

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