28 de setembro de 2010

Aos pedaços

Foto: Hidden

Tem gente que vive uma vida toda calculando, precisa se sentir inteiro; ganhar no mínimo x salários; achar a sua metade; completar as quatro décadas em bom estado físico; ler ao menos tantos livros ao ano; conhecer um determinado número de países. Como se viver fosse uma ciência exata, uma matemática precisa, baseada, sobretudo, em números, somas e multiplicações. Com a preocupação em ter muito e pouco ser.

Vive-se bem nessa equação? De repente, sim. O grande problema – não matemático – dessa questão é se acostumar com a não aceitação das subtrações e divisões necessárias para seguir a vida. Aquele armário abarrotado de peças não mais usadas; aquele coração contabilizando amarguras; aquela poupança cheia no fim da vida; aquele apego excessivo; aquele número absurdo de sapatos para quem tem apenas dois pés e pisa nas mesmas calçadas de tantos meninos descalços...

Tudo para se sentir inteiro, não atento que o gesto de se espalhar por aí pode ser a melhor forma de se ampliar. Eu deixo um pedaço meu com cada um que me é importante. Deve ser por esse motivo que tenho tantas saudades dos meus queridos, saudades das partes de mim. E também por isso é muito difícil conseguir juntar minhas partes em um só lugar, em um só momento. Mas dos pesares que isso pode causar, nenhum é maior que o prazer de se sentir inteira. Porque, para mim, ser inteira é estar aos pedaços.

17 de setembro de 2010

Tudo vale a pena?

Foto: M Nota

O que não se faz valer é o que não vale a pena? Ou é só uma manobra usada por nós, para não assumirmos, de uma vez por todas, que não temos a capacidade de fazer valer a pena, de “mergulhar”, de “se jogar” sem expectativas? Fernando Pessoa diria que “Tudo vale a pena quando alma não é pequena”, eu, pedindo perdão pelo clichê, assino embaixo, temendo o autodiagnóstico de “nanismo n´alma” até concluir o presente texto.

Quando dizemos que algo vale a pena significa dizer que compensa o sacrifício para conquistá-lo, certo? Tão logo, esbarramos em outra expressão: o “se fazer valer” que seria atribuir ao objeto de conquista a obrigação de se afirmar merecedor de esforço. Tornando, desse jeito, comum a frase que pronunciamos desde pequenos quando não alcançamos algo: “Eu não queria mesmo”. A partir daí entramos em uma enorme dança de parâmetros, na qual se torna difícil diferenciar quem dá o passo mais belo e o mais atraente: o conformismo ou a interpretação positiva dos fatos? Você prefere dizer que toda a situação apontou para aquele resultado porque de fato não valia a pena; ou dizer que tentou, independente das consequências e resultados?

A frase de Fernando Pessoa, já citada, entraria nessa roda para suscitar diferentes interpretações a respeito do tema, eu explicaria que: tudo vale a pena se você souber ver sob diferentes pontos de vista. Isso fornece um alívio, baseado na lógica de que o “fazer valer” só funciona em primeira pessoa, é você quem torna valiosos todos os seus atos e conquistas e não o contrário. Parece complexo, porque abre espaço para os diferentes ângulos com dos quais podemos visualizar uma circunstância. Coisas que amarguramos por anos; que tememos por décadas; que deixamos de dizer; de fazer. Tudo, tudo mesmo, vale a pena ser feito. Pois se não der certo, dali há algum tempo, saberemos, até mesmo, o propósito daquele “erro” ou “derrota”. Cabe ainda uma avaliação pessoal quanto a em que se baseia o seu “não deu certo”. Afinal, o que seria mesmo certo? O que você estabeleceu à partir das suas expectativas? O que a sociedade impôs como ideal? Ou o que sua “pequen’alma” o limita a ser? Quanto a dimensão da minha... A dúvida permanece após o ponto final.

8 de setembro de 2010

Medo da solução

Foto: Jason Conlon
Aos sábados, sempre havia um problema diferente para resolver. Fazia sol e outros problemas apareciam; os amigos chamavam para se distrair, mas os problemas ainda estavam lá. Voltava para casa mais cedo a fim de resolvê-los. Se punha na cama e não dormia pois eles não davam descanso. Eles ocupavam sua vida mais que qualquer solução, e não havia fagulha de paz capaz de explodir um bem-estar maior que a demasiada preocupação.

De bonito no amor só a rima com dor. De sua bela casa, só as contas todas pagas, reparos feitos, armários cheios. De sua aparência, o espelho refletia apenas o que não agradava. De seu livro, uma resenha com críticas severas. De sua música, a inconformidade com aquela rima feita com uma palavra em diminutivo. De seu prato favorito a observação da falta de manjericão. Do trabalho com revisão de textos, o único lamento de não poder modificar estilos literários, achava em qualquer que fosse uma falha. Adorava ver o mesmo filme de vez em sempre, com a mesma frequência que lamentava a escolha da atriz protagonista, podia ter mais emoção não fosse ela, não fosse essa luz mal colocada, não fosse sua habilidade em encontrar defeitos e vivenciar problemas.

O seu principal receio era se descobrir, afinal quanto mais defeitos achasse em si, menos possibilidades de se esconder do defeituoso mundo ao redor. E foi identificando esse temor que ele identificou o que aguçava seu radar de problemas – o medo. Não podia se permitir gostar de algo mais do que desgostava; nem achar alguém tão perfeito que até seus defeitos o agradassem; não poderia pensar que esse alguém se tornaria tão importante para sua felicidade a ponto de achar necessário assumir essa fraqueza; nem reconhecer que sua casa era tão bonita quanto vazia. Ela achava não merecer mais tamanha desvalorização. Os amigos queriam alguém para dividir os problemas e alegrias e essa matemática era muito assimétrica quando se tratava dele. Ele mesmo não se aguentava mais. Sabia que só vencendo o medo veria menos problemas em tudo, mas o fato é que esses problemas já estavam há tanto tempo servindo como proteção, que submerso neles já não sabia como seria a vida sem os ter, sem os evidenciar, ou pior, a vida repleta de soluções... Descobriu como maior dos seus problemas: o medo de viver sem eles.