31 de agosto de 2010

A moral da tanga

Foto: Wim Demortier (sxc.hu)

Rio de Janeiro – Centro, 18h, 32º C, loja de lingerie (que não me lembro o nome). Uma dezena de mulheres se aglomera ao redor do departamento mais “ousado” do estabelecimento. Todas muito afoitas, contando suas vantagens, comentando o uso de determinados artefatos e acreditando – ou fingindo acreditar – que cascatas de strass, microtangas, rendas, paetês, brilhos, plumas e amarras as tornariam mais sexys. Eu cá no departamento mais básico (sozinha) observava, como sempre, a insana afoites humana, guardando minha opinião sobre: o quanto o natural é mais sexy; o quanto aquelas mulheres deveriam, ainda que implicitamente, reclamar em seus dias por serem subjugadas, ao passo que se fantasiavam de globo de boate e viravam cópias fiéis – e feias (na minha opinião) – umas das outras.

Antes que eu ocupasse todo o vão da minha mente, naquele instante, com discursos antissexistas, subisse em um daqueles puffs, citando Simone de Beauvoir, e solicitasse que as “mulheres balangandãs” se olhassem no espelho. Surgiu um homem super alto, forte e com a voz extremamente grossa – do tipo que faz as “mulheres balangandãs” suspirarem. Ele então solicitou à atendente: “Por favor, posso ver a tanga mais cavada que você tiver na cor preta?”. Uma das clientes chegou a dizer: “Viu? É assim que eles gostam”. A atendente rapidamente replicou: “Qual tamanho seria senhor?”. E em alto e bom tom ele respondeu: “Acho que pra mim teria que ser G”. Um burburinho imenso, parecido com o som de um coletivo de insetos, se formou na mesma hora. As mulheres se questionavam enlouquecidas: "como poderia aquilo?". Tanto tempo aprendendo a serem iguais, não dá para aceitar o diferente assim, sem mais nem menos.

O sujeito saiu da loja, sacudindo sua sacola, com ares de quem teria uma noite muito melhor do que qualquer uma ali. Nem se importando por ter deixado a mulherada desesperada, reduzidas a glíter. E eu, gargalhando por dentro, contemplei mais alguns movimentos e comentários, paguei e fui embora com uma moral pra essa história: “Deve-se importar muito mais em ser feliz, do que com o que o outro diz que você precisa ser, ter e fazer”. 

7 comentários:

  1. O pior é que aqui no Rio já virou estereótipo.

    Na indústria há um processo da manufatura chamado de Customização em Massa. Acho que o mesmo está acontecendo na sociedade...

    Depois da Dominatrix que vi atravessando a rua, não duvido mais de nada nessa cidade.

    Beijos (adorei o post!)

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  2. Que coisa!

    Eu sempre achei uma tremenda palhaçada esses lances de lingerie... Fetiche não é comigo... O legal é o natural, o sensual... e não a roupa, o objeto, etc, etc.

    Agora, que eu imaginei vc em pé em um puff citando Simone de Beauvoir... eu imaginei! Coisas da minha mente visual-imaginativa!

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  3. Amei! e concordo tb que o simples, a sensualidade natural vinda de um sorriso, de um amor, de uma pura demonstração de carinho é infinitamente mais sensual q qualquer balangandã. Afinal feliz é o cara da tanguinha, q se importa apenas com sua alegria e o que lhe causa ela.

    Amei Mattos!

    Tá parecendo nossas conversa!

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  4. como uma boa seguidora da beauvoir eu reafirmo.. bom mesmo são as cuecão, te preferencia bege e sem costura pra n marcar....
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

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  5. André Rocha (Oráculo)1 de setembro de 2010 09:47

    Pode ser também que essas pessoas aí não estão com auto-estima muito bem não e precisam de algo material para afirmá-las, já que as mesmas não conseguem fazer isso. E é provável que esses artefatos cumpram seu valor momentaneamente, causando apenas um alívio imediato, a não ser que o parceiro delas tenha fetiche nisso ou algo assim (ou também que o trabalho delas necessite desse tipo de vestimenta...).

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  6. Ótima crônica. Prabéns novamente. Sinto cheiro de livro por aí...

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