15 de julho de 2010

A camisa azul


Acordado: já se vê entre o susto do despertador; a preguiça gostosa proporcionada pela função “soneca”; e o alongamento indesejado do espreguiçar matinal. Levantado: já não sabe o que primeiro fazer para menos atrasar. Café sem complementos; banho rápido; louça na pia; jornal só as manchetes; torrada queimada no lixo; lixo lotado para fora.

Afobado: se vê prestes a vestir aquela camisa que não usava há várias estações, a correria então para, o ar fica rarefeito, e perde a cor, preto e branco, ganha sabor, ganha cheiro, o peito aperta. Lá estão todas elas, as especialistas em fazer o tempo parar, em fazer o tempo querer voltar, em fazer o tempo ter vergonha de andar, mas conscientes de que não fosse o tempo elas não existiriam, não fosse ele passar, não fosse o ontem, o antigo, o já visto, o perdido, elas seriam extintas, algo que só o avô do tempo que havia tempo contaria para o neto como era ter: “as lembranças”.

Contrariado: lembrou de quando comprou aquela camisa para seu primeiro encontro com a ex-namorada; lembrou que ela olhou para ele – com aquele olhar que lhe resfriava o corpo no mais alto verão –, e disse que adorava azul; lembrou que sua mãe brigou muitas vezes por ela estar mal passada; lembrou que saiu com seu sobrinho ele agarrou pela gola e fez ela esticar; lembrou dos passeios de bicicleta nas tardes de dias da semana; lembrou do dia que foi ao asilo como voluntário, e a senhora simpática da cadeira de balanço  o disse que ficava um “pão” vestido assim; lembrou que guardou a camisa no canto da gaveta para não lembrar o que havia passado.

Atormentado: viu que não tinha mais um amor que resfriava o corpo; não morava mais com a mãe, e até suas reclamações faziam falta; já não podia pegar o sobrinho no colo, ele havia crescido; não tinha mais tempo para os passeios de bicicleta dias de semana; para o trabalho voluntário; para olhar o outro; para lembrar do passado; para olhar para si. Estranho como o cheiro de guardado da gaveta não havia extraído da camisa tantas lembranças, tantos pedaços seus esquecidos, adormecidos, tantas saudades do que viveu, do que viu, do que foi um dia.

Determinado: deixou-se invadir por uma súbita coragem; uma vontade de amar novamente, outra mulher; de sentir o corpo, se não resfriado, aquecido; de ensinar seu sobrinho a andar de bicicleta; de incentivar a mãe a se ocupar sendo voluntária do tal asilo; e se não pudesse retornar a esse trabalho, que descobrisse outras formas de ajudar ao outro; de olhar com compaixão o próximo. Então olhou no espelho e percebeu que precisava também olhar com compaixão para si. Que não podia mais negar suas lembranças ou torná-las tão ruins. Entendeu que elas não tinham que ficar na gaveta, afinal elas existiam para somar, para ele aprender, fossem boas ou não, e deviam ficar acessíveis para serem rememoradas, reutilizadas, recicladas, reinventadas, sempre que fosse necessário.

Aliviado: Vestiu sua camisa azul, sua sorte então mudou.

4 comentários:

  1. Vestiu azul, pó pó pó pó, sua sorte então mudou!!

    Existem roupas minhas no fundo armário, escondo bem no fundo pois me trazem lembranças tristes! Não dou, pq acho -as bonitas, mas tb não visto pq nelas se impregnam uma Raquel que não mais sou!

    Talvez tenha uma lá que goste... hum... deixa eu pensar... acho que não tem não, não gosto de nada velho, ou tem lembranças estranhas de alguém que já não fui, ou nada tem, apenas um tecido fora de moda!

    Pra me dar sorte, visto roupas novas, acreditando que com o cheiro de novo, venham também tempos novos! Sou uma eterna menina em busca do novo, vivendo sempre um passo a frente!

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  2. Este comentário foi removido por um administrador do blog.

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  3. que lindoooooooooooo!
    amei o layout amiga!
    desculpe toda minha jaula da sinceridade!
    a primeira coisa que percebi agora foi logo sua descrição, viuuuuuu!!!

    e voltei a comentar, diante minha abitolação, pelo meu amor à mattosquela!!! ó que honra hein!
    hahahaha


    beeeeeeeeeeeijo, amo sempre!

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  4. é, foi mesmo removida a minha postagem! hehe

    Mas eu falava que eu havia lido o melhor 2º parágrafo da minha vida! Na verdade, pode ser que seja o 3º, pois agora estou vendo que deve ser o 3°: é onde começa a parte do "afobado"!

    Então, que este 3º parágrafo esteja na "Antologia dos melhores terceiros parágrafos de todos os tempos"! A ser editado pela Raquel ou pela a Ana, já que a autora não deveria organizar uma antologia com textos próprios, não é verdade? ahahhaah

    E está bem bacana o novo layout! Concordo com a Vi!

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