29 de julho de 2010

Gotas de felicidade

Ela se achava infeliz. Não podia ser mais infeliz. Nem toda infelicidade do mundo transformada em pó, colocada em cápsulas, tomada três vezes ao dia, poderia oferecer mais momentos de desprazer quanto os que haviam tomado conta de sua vida inesperadamente.

Era difícil sair da cama sabendo que teria mais um dia tão deprimente. Olhava a sua volta e desgostava de tudo. E assim se passavam os bons momentos despercebidos. Sua música preferida se envergonhava de existir, preferia mudar de ritmo à sucitar tanto desprazer. O prato que mais gostava, queria ser jiló, para justificar tamanha expressão de amargura. Os versos que a fazia sentir um tremor de alegria, se encaminhavam tímidos para as notas de rodapé. A brisa fresca formada pelas árvores de sua rua, que vinha lhe saudar todas as manhãs, mandou currículo para ser ar quente em uma sauna. Os amigos engraçados, não queriam mais fazer piadas. As fotos de festas, viagens, amigos, amados, desejavam todos os dias desbotar, até perder a cor, para não serem mais vistas. Assim se sentia tudo o que lhe trazia felicidade e belas lembranças em outros tempos. E assim ela se entristecia por ter acumulado tantas coisas, hábitos e prazeres, simples - e inúteis - em seus dias.

A vida seguia e ela seguia reclamando do mundo que a cercava, sem perceber que esse mundo só queria vibrar na mesma sintonia que ela. Para todas as pessoas, objetos e momentos não interessava mais trazer felicidade a quem havia concluído que a felicidade ali não poderia morar. Em certas ocasiões pensava que tanta desventura poderia ter justificativa médica, física, psíquica – não sabia muito bem diferenciar essas nuanças -, mas em seguida lembrava que diagnóstico de depressão e virose estavam mais na moda que esmalte rosa.

Eu só queria a fazer entender um dia, em um indesejável despertar, que precisa  se olhar de modo diferente, assim como o que mais lhe rodeia. E que entenda enfim, que não perdeu nada, como gosta de apregoar. Que são os ciclos se fechando, para outros começarem. Que é hora de gritar determinados fins, para se soprar os infindáveis inícios que se seguirão. E as vezes, é até preciso desabilitar o egoísmo, olhando a desgraça e a miséria alheia, para saber o quanto tudo que acumulou até então - mesmo as dores – são gotas homeopáticas de felicidade, que só fazem efeito se ela acreditar.

15 de julho de 2010

A camisa azul


Acordado: já se vê entre o susto do despertador; a preguiça gostosa proporcionada pela função “soneca”; e o alongamento indesejado do espreguiçar matinal. Levantado: já não sabe o que primeiro fazer para menos atrasar. Café sem complementos; banho rápido; louça na pia; jornal só as manchetes; torrada queimada no lixo; lixo lotado para fora.

Afobado: se vê prestes a vestir aquela camisa que não usava há várias estações, a correria então para, o ar fica rarefeito, e perde a cor, preto e branco, ganha sabor, ganha cheiro, o peito aperta. Lá estão todas elas, as especialistas em fazer o tempo parar, em fazer o tempo querer voltar, em fazer o tempo ter vergonha de andar, mas conscientes de que não fosse o tempo elas não existiriam, não fosse ele passar, não fosse o ontem, o antigo, o já visto, o perdido, elas seriam extintas, algo que só o avô do tempo que havia tempo contaria para o neto como era ter: “as lembranças”.

Contrariado: lembrou de quando comprou aquela camisa para seu primeiro encontro com a ex-namorada; lembrou que ela olhou para ele – com aquele olhar que lhe resfriava o corpo no mais alto verão –, e disse que adorava azul; lembrou que sua mãe brigou muitas vezes por ela estar mal passada; lembrou que saiu com seu sobrinho ele agarrou pela gola e fez ela esticar; lembrou dos passeios de bicicleta nas tardes de dias da semana; lembrou do dia que foi ao asilo como voluntário, e a senhora simpática da cadeira de balanço  o disse que ficava um “pão” vestido assim; lembrou que guardou a camisa no canto da gaveta para não lembrar o que havia passado.

Atormentado: viu que não tinha mais um amor que resfriava o corpo; não morava mais com a mãe, e até suas reclamações faziam falta; já não podia pegar o sobrinho no colo, ele havia crescido; não tinha mais tempo para os passeios de bicicleta dias de semana; para o trabalho voluntário; para olhar o outro; para lembrar do passado; para olhar para si. Estranho como o cheiro de guardado da gaveta não havia extraído da camisa tantas lembranças, tantos pedaços seus esquecidos, adormecidos, tantas saudades do que viveu, do que viu, do que foi um dia.

Determinado: deixou-se invadir por uma súbita coragem; uma vontade de amar novamente, outra mulher; de sentir o corpo, se não resfriado, aquecido; de ensinar seu sobrinho a andar de bicicleta; de incentivar a mãe a se ocupar sendo voluntária do tal asilo; e se não pudesse retornar a esse trabalho, que descobrisse outras formas de ajudar ao outro; de olhar com compaixão o próximo. Então olhou no espelho e percebeu que precisava também olhar com compaixão para si. Que não podia mais negar suas lembranças ou torná-las tão ruins. Entendeu que elas não tinham que ficar na gaveta, afinal elas existiam para somar, para ele aprender, fossem boas ou não, e deviam ficar acessíveis para serem rememoradas, reutilizadas, recicladas, reinventadas, sempre que fosse necessário.

Aliviado: Vestiu sua camisa azul, sua sorte então mudou.

9 de julho de 2010

Ouvir ou escutar?


Você ouve ou escuta? Se acha que é tudo a mesma coisa vamos às explicações. Tecnicamente: os verbos “ouvir” e “escutar” são considerados sinônimos nos dicionários, porém eles têm significados distintos. Sendo “ouvir: perceber o som pelo sentido da audição”; e “escutar: estar consciente do que se ouve”. Poeticamente: Mário Quintana diria “Esses que pensam que existem sinônimos, desconfio que não sabem distinguir as diferentes nuanças de uma cor.” Particularmente: Sinto falta de ser escutada muitas vezes em que sou ouvida; sinto falta até de ser somente ouvida em algumas ocasiões; e de ouvir; e de escutar então...

Somos todos artistas de nós mesmos, e usamos o sentido do outro para tentar nos mostrar. O que diz o que vemos em você, suas roupas, sua cara, suas cores? O que diz o que cheiramos em você, seu suor, seu perfume? O que diz o que tocamos em você, sua pele, sua temperatura, seus calos? Talvez não fosse preciso o uso de tantos sentidos se soubéssemos escutar, se soubéssemos o que diz o que ouvimos de você, no sentido de pensar, processar e guardar o que você mesmo – que tanto se conhece – tem a dizer de si.

Que música faz o seu colega de trabalho chorar? Que momento marcou a vida de sua mãe? Qual foi a melhor tarde da vida do seu amigo? Que problema aflige aquele senhor de olhar caído? O garoto tímido da faculdade, o que faz no fim de semana? Qual o doce preferido da sua irmã? Aquela menina que passa por você e sempre sorri, tem pensamentos parecidos com os seus?

Não se sabe... nem se saberá, se não parar para escutar. O fato do “ouvir” ser preferido em lugar do “escutar” é constante. Tantas coisas rasas vão passando pela vida, tanta terapia pra tentar se fazer ouvir, pra tentar descobrir por que sempre falta alguma coisa. Falta porque não aprofundamos em nada; falta porque o que começa já está no fim, falta porque temos pressa; porque estamos tão programados a não escutar que desenvolvemos um falar diferente de dizer.

E então ninguém diz; ninguém escuta; ninguém se conhece; ninguém se vê; ninguém se faz entender. E a vida segue na grande e bela cidade que todos olham, mas ninguém vê; observada pela janela da moça que todos sabem quem é, mas ninguém conhece; que tanto tem para dizer, mas ninguém escuta.

7 de julho de 2010

Comprometida consigo?


Hoje uma amiga me disse: “Resolvi. Vou viver como se estivesse comprometida com ele, ainda que ele nem saiba”. Na hora pensei em quanto seria uma cartela de Rivotril, e se eu teria o dinheiro para emprestá-la. Como pode tamanha insanidade? Já era tarde e eu preferi raciocinar aquilo no caminho.

Já no ônibus me pus a refletir – mais uma da série “coisas simples da vida que eu amo”. Segui pensando nela, não podia escutar tamanha maluquice e não fazer ou pensar nada – mais uma da série “temos sempre que estar pensando em algo, ainda que não tenhamos nada a ver com aquilo”.

Então pensei... Pensei nela caminhando todos os dias de manhã pela orla, imaginando quando faria isso de mãos dadas com ele; Pensei nela animada em seu trabalho, pensando no que ele acharia da idéia que ela teve; Pensei no vinho que ela tomava à noite imaginando o estalar do brinde que faria um dia; Pensei nos livros que ela lia, para passar o tempo da espera; Pensei nas músicas que ela ouvia, prestando atenção na letra ,para ver se poderia ser tomada como “sua”; Pensei na meditação que ela disse estar fazendo, para se acalmar enquanto aguarda; Pensei em suas noites de sono tranquilo, repletas de sonhos incríveis. Nossa que freada! Quase caio.

Pensei, pensei... E conclui que queria muito um comprometimento assim. Ela está comprometida com sua mente; com seu corpo; com sua alma; com seu bem estar. Se esse babaca não enxergar isso - da série "todo cara que não quer uma amiga sua é um babaca" -, ela há de chorar dois dias e terá se tornado uma pessoa muito melhor. Se comprometendo com seus sonhos, ela se compromete consigo. Como é raro fazermos isso hoje em dia, não é? Ponto final, tenho que saltar. Sigo para casa pensando em qual sonho vou escolher para me comprometer. Comprometida comigo, será que consigo?