22 de junho de 2010

Entre linhas


A vida se faz de linhas
Tortas, imaginárias
Retas, contrárias
Enoveladas ou solitárias

Quando faladas, anotadas, prometidas ou encantas
Mesmo não sendo a metade do que foi imaginado
Todas as linhas se tornam tudo o que foi dito
E o verbo conjugado, tão logo, se torna passado

Pode-se seguir uma linha
Permitindo que uma lógica faça sequência
Dando às aspas o privilégio de que digam
Tudo o que você diria sem a mesma eficiência

E depois de uma linha, outra linha
E entre o todo de linhas, as entrelinhas
Que guardam consigo o rascunho, o rabisco e a intenção
Conservam e protegem o que se sonha tornar ação

O que não é dito em todas as linhas
Pode ser lido como qualquer entrelinha
Vocês nem imaginam as minhas...

Essa é a graça e a teimosia
Da vida que passa e da poesia

19 de junho de 2010

Diálogo SEMtemporâneo II - Não sei não


Ela diz: – Não acredito em “não sei”. Para mim a pessoa sempre sabe o que quer e não diz, ou não age de acordo por covardia.
A outra diz: – Eu acredito porque já me vi em situações assim, precisei parar e decidir.
Ela diz: – Na verdade você parou por medo, já sabia sim.
A outra diz: – Nem sempre é assim, as vezes você simplesmente não sabe.
Ela diz: – Não acredito nisso, para mim é agora, rápido, preciso, quero: SIM; um momento, aguarde, espere, pense: NÃO. Simples assim!
A outra diz: – Eu ainda acho que a dúvida tem o poder de tornar a decisão mais certeira e racional. Você AVALIA o entorno, o que QUER, para ONDE quer ir...
Ela diz: – Não acredito e ponto. Mas tenho que ir. Dia cheio de decisões!
A outra diz: – Ok! O que fará amanhã?
Ela diz: – Primeiro preciso AVALIAR se vou render nos estudos hoje, depois vejo se QUERO fazer algo e então te falo ONDE vou. Por enquanto, não sei...

11 de junho de 2010

Cuide-se


Tempo falta, pressa sobra. Corre-se daqui, corre-se de lá. Desapercebe-se o que se quer, o que o outro quer, e corre-se ainda mais pra tentar resolver. O primordial é fazer, ainda que seja cedo, antes que seja tarde.

Cuida-se das tarefas; da cafeteira ligada de manhã; das roupas no varal. Cuida-se de ser simpático com o porteiro; de ser pontual no trabalho; de aceitar que o mar é um quadro intocável na janela do ônibus.

Cuida-se de passar o dia entre paredes, em um clima artificial; e de ter comportamentos regrados e atitudes programadas. Cuida-se das burocracias; de se aperfeiçoar; de estar a par dos assuntos do momento; de ser o melhor em algo, sem sequer saber porque.

Cuida-se de não dizer tudo o que pensa; e das atitudes que podem atingir o que está na outra ponta do dominó, ainda que não se saiba. Cuida-se de parecer normal; parecer feliz; parecer bonito. Cuida-se da dor do outro, ainda que oculte as próprias dores.

Cuida-se de não esquecer a essência; a origem; a bondade; a palavra; o próximo; a generosidade; a gentileza; e o norte, mesmo que isso pareça - ou seja -, um comportamento condicionado. Cuida-se até de esconder certas virtudes; certos desejos, pois demonstrá-los poderia ser um perigo. Cuida-se de fazer o certo, sem saber quem criou o certo. Cuida-se dos amigos; da família; da casa.

Cuida-se de correr mais, pois logo o dia acaba e se percebe: quem cuida de tudo isso não cuida de si. E o castigo deve ser não encontrar quem o faça, ou quem o ajude a fazer. Cuide-se.