9 de abril de 2010

Chuva de contradições




Ainda falando de “enquantos”... Durante a semana, vimos cenas triste e caóticas, dos danos causados pelas chuvas que atingiram o estado do Rio de Janeiro, sobretudo a capital e Niterói.


Enquanto isso, aqui na Zona Sul eu ganhava um dia de folga, seguindo a sugestão dada pelas autoridades, devido a impossibilidade de me deslocar pela cidade. Alternei então por horas e horas os filmes que assistia com os plantões televisivos, feitos por jornalistas destemidos que a cada minuto apareciam com água até uma parte do corpo – receei por vezes que em algum flash eles estariam apenas com a cabeça e microfone acima da enchente. Até a hora que desliguei a TV esse fato não aconteceu, graças!


Nesse mesmo enquanto, passageiros dos aeroportos do Rio reclamavam a jornalistas da globo.com sobre os atrasos dos vôos e possível falta a compromissos, perda de tempo e dinheiro. O Bom dia Brasil chegou a noticiar no dia seguinte esse fato lastimável “Os passageiros dos aeroportos do Rio de Janeiro foram obrigados a ficar alojados em hotéis”.


No enquanto posterior – porque nesse mesmo enquanto a terra ainda descia abaixo – o porteiro Rogério Teixeira buscava informação de três sobrinhos mortos no Caramujo em Niterói. “Eles quatro estavam dormindo. Meu irmão foi salvo pelos vizinhos, mas as crianças não resistiram. Ele está sendo acompanhado por uma assistente social porque está muito abalado”.


No enquanto agora, o governador Sérgio Cabral indaga: “A culpa é de toda a sociedade”. Não quero me safar da culpa que sei que tenho, mas vamos lá, ficar com a totalidade da culpa também não dá. Enquanto ele afirma, nós negamos, milhares de pessoas se questionam quanto ao seu futuro, suas casas, seus parentes desaparecidos.


Enquanto isso, vou para casa correndo - pois tem uma nuvem negra bem aqui em cima. Me perguntando o que posso fazer; quais são as próximas afirmativas, negativas e questionamentos que nos rondarão; e o que poderia ser mais contraditório que esses “enquantos”: O preto e o branco? A vida e a morte? Os hotéis e os abrigos? O seco e o molhado?


4 comentários:

  1. E o sensacionalismo da mídia? Aquilo que provoca arrepios tanto nos mais impressionáveis quanto naqueles que são críticos... Tenho visto muita gente reclamando que a imprensa está "gastando" este assunto da chuva, das enchentes, dos deslizamento e das mortes e desaparecidos... Desta vez, não estou ao lado destes que têm arrepio por estarem, digamos, ou de "saco cheio" ou apenas reclamando da intensa cobertura que tem sido feita pelos diversos veículos de comunicação.
    Estou arrepiado pelo o sofrimento daqueles que ficaram. Arrepiado pelo ceifamento cruel de vidas por aquela que sempre nos ronda.

    Poderíamos ter nestas tragédias fluminenses centenas de "João Gostoso" (evitei pluralizar, até por não saber como ficaria), aquele personagem de Manuel Bandeira. Cá está o poema:

    Poema Tirado de uma Notícia de Jornal

    João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
    Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
    Bebeu
    Cantou
    Dançou
    Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

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    Mas não temos "João Gostoso" até o momento. Ao menos, desta vez, estou satisfeito com a cobertura da mídia. Ela não está banalizando a morte dos pobres como costuma fazer, como demonstra o poema de Manuel Bandeira. Desta vez, a imprensa tem buscado um jornalismo emotivo, intuitivo e revelador: é possível não banalizar a vida daqueles que são menos favorecidos.

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  2. Seu texto me fez lembrar a crônica do Arnaldo Jabor no Jornal da Globo, anteontem, falando que "enquanto" o principal problema para ele era estar ilhado em seu apartamento na Lagoa (que coisa chata...), o problema para a população que morria nos desabamentos era a falta de escolha. Não moravam lá pq queriam, mas sim pq eram pobres, não tinham opção mais decente.

    É, amiga, a vida é feita de muitos enquantos... Infelizmente, muitos deles são tristes, como os que estamos vendo na TV e na Internet a toda hora. Enquanto isso, nós temos que fazer nossa parte orando, doando... e escolhendo melhor nossos votos para que, na próxima tragédia, não tenhamos que ouvir asneiras da boca dos governantes que querem fazer como Pilatos: lavar suas mãos...

    Excelente texto! Grande reflexão!

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  3. Enquanto isso chamam favela de comunidade. E ela ali encravada no morro, impede a absorção das lágrimas de São Pedro, mas vamos condenar pobres? claro q não! Deixa eles morarem perto do trabalho, ter net, luz gato. Não pagar imposto, deixa né! Deixa os ricos Vieira Souto sonegarem tb, pq eles estarão nas suas casas- forte qdo o mundo cair. E quem paga o pato, ou nada com o pato? Nós classe média, que pagamos imposto, conta, e ficamos enlameado no meio do caminho.

    Enquanto isso deixa as pessoas jogarem lixo no chão iguais selvagens, naquele gesto involuntário que não se toca q entope bueiros e um dia de chuva navegamos pelas ruas graças as gimbas dos cigarros e dos plásticos.

    Enquanto fico revoltada aqui, nada se faz, nada se resolve.

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  4. Me abstenho de mais protestos, o texto já diz tudo.

    O que tenho a dizer é que João Gostoso era o cara! Há! Grande Manoel Bandeira! SALVE!

    Obrigado pelos comentários revoltosos.
    Democracia que chama né?

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