26 de abril de 2010

Pode-se, pode se, pode ser...


Pode se pôr
Sem se opor
Pode-se dar voltas
Sem voltar
Pode-se ter
Sem prometer

Também pode-se ir
Sem nunca ter estado
Pode-se rir
Sem ter gostado
Pode se sacudir
Sem ser empurrado

Até pode-se reler
Sem ter entendido
Pode-se perder
Sem jamais ter tido
Pode-se esquecer
Sem ser esquecido

Ainda assim pode-se cantar
Sem ser erudito
Pode-se pular
Sem achar que é delito
Pode-se ficar
Por acreditar que é bonito

23 de abril de 2010

O descontrole de Mariazinha



Mariazinha acordava às 6h. Jamais havia usado a função “soneca” de seu despertador; nunca se atrasara para seu trabalho e mantinha rigidamente os horários de sua alimentação. Ela tinha dia marcado para encontros com seus pais, amigos – que eram poucos, e namorado. Tomava pontualmente seus remédios, vigiava as horas de sono que poderia ter. Afinal, Mariazinha não podia perder o controle sobre o seu tempo.
Mariazinha contava suas calorias diárias. Aos poucos descobriu que o cafezinho da tarde, que tanto gostava, fazia ultrapassar 2 calorias do que poderia consumir por dia. Abandonou esse prazer, assim como outros: o chocolate; a pizza de domingo; a lasanha de sua mãe; as festinhas de criança; os churrascos; e encontros que incluíam tira-gosto. Afinal Mariazinha não podia perder o controle sobre suas calorias.
Mariazinha não se dava oportunidade de ter medo. Morava no térreo, pois já havia ouvido muitas histórias de acidentes envolvendo elevador. Quando ia às compras, preferia escadas comuns às rolantes. Não andava a pé. Nunca se permitira tomar um bom banho de chuva. Afinal, Mariazinha não podia perder o controle sobre seus medos.
Mariazinha não bebia, nunca soube o que era tomar um porre, nunca fez nada ilícito. Ela não tinha uma crença, pois achava que isso era para os fracos. E controlava dia e hora que poderia ter encontros mais íntimos com seu namorado. Afinal, Mariazinha não podia perder o controle sobre sua sanidade.
Com o passar dos anos, Mariazinha percebeu que perdeu o controle, ou melhor que jamais o teve. Afinal, foram o tempo; as calorias; os medos; e a sanidade que a controlaram por toda a vida, até então. Mariazinha decidiu mudar, será que é capaz?

16 de abril de 2010

Tantos antos



Portanto Conquanto No entanto
Entretanto Contanto

Tantos antos pares de antas e tantas
espécies de palavras: conjunções e advérbios
Que concluem; tornam contrapostas; condicionadas; adversas; e opostas
nossas idéias e nossas orações
Permeando de premissas,
condições e contrapontos
nossas vontades e nossas vidas



Por que será que complicamos tanto até o que poderia ser comum?
Se permita hoje dizer uma oração simples no lugar da composta. Sem impor condições, se agarrar a possibilidades, ao talvez, ao comportamento condicionado, ao “só digo se ouvir”.
Vamos tentar?

15 de abril de 2010

Estrelas que caem


Certa vez, quando voluntária do Projeto Rondon, no Vale do Jequitinhonha – MG, conheci um garoto com o sorriso mais bonito que já vi. Ele era órfão e vivia pelas ruas da pequena e pobre cidade, e apesar de não saber, muito me ensinou sobre a vida.
Em um entardecer, desses que até doem de tão bonitos, sentada sobre um degrau de barro seco, ouvia o som dos insetos alternado às perguntas curiosas do garoto:

Ele: – Tia, outro dia eu vi uma estrela que cai. O que eu tenho que fazer?
Eu: – É uma estrela cadente. Quando ver outra peça algo que seja seu sonho conquistar.
Ele: – Por aqui tem muitas. Quero ver outra logo e pedir para ficar rico.

Confesso ter tido segundos difíceis depois dessa afirmativa. Teria de convencê-lo a não pedir algo tão distante de sua realidade. Afinal, isso colocaria em jogo a credibilidade das estrelas que caem.

Eu: – Não... Pede uma coisa mais importante, saúde por exemplo.

Disse isso vendo os olhos duvidosos dele, e pensando em como uma criança naquela situação teria como sonho ter saúde? Então, para meu alívio, ele, repentinamente, interrompeu o silêncio.

Ele: – Já sei tia! Tem uma coisa que sempre sonhei ter e não tenho.
Eu: – Então diga, o que é?
Ele: – Uma escova de dentes!

Olhei para o rosto dele, feliz de ter lembrado seu maior desejo, e me controlei para não deixar as lágrimas caírem.
Esse garoto foi adotado por uma supermãe. Mas quantos outros existem em seu caminho diário com sonhos tão simples? Você os vê?

14 de abril de 2010

Outroras dos agoras


Outrora matéria quente
Agora embrulho de feira
Outrora amor da vida
Agora brisa passageira

Outrora sucesso nas rádios
Agora hit esquecido
Outrora no auge da moda
Agora farrapo antigo

Outrora seria uma carta
Agora só no virtual
Outrora seria um tabu
Agora é tudo normal
Conte aí uma outrora de um agora seu.
Agora ou outra hora, como achar melhor!

9 de abril de 2010

Chuva de contradições




Ainda falando de “enquantos”... Durante a semana, vimos cenas triste e caóticas, dos danos causados pelas chuvas que atingiram o estado do Rio de Janeiro, sobretudo a capital e Niterói.


Enquanto isso, aqui na Zona Sul eu ganhava um dia de folga, seguindo a sugestão dada pelas autoridades, devido a impossibilidade de me deslocar pela cidade. Alternei então por horas e horas os filmes que assistia com os plantões televisivos, feitos por jornalistas destemidos que a cada minuto apareciam com água até uma parte do corpo – receei por vezes que em algum flash eles estariam apenas com a cabeça e microfone acima da enchente. Até a hora que desliguei a TV esse fato não aconteceu, graças!


Nesse mesmo enquanto, passageiros dos aeroportos do Rio reclamavam a jornalistas da globo.com sobre os atrasos dos vôos e possível falta a compromissos, perda de tempo e dinheiro. O Bom dia Brasil chegou a noticiar no dia seguinte esse fato lastimável “Os passageiros dos aeroportos do Rio de Janeiro foram obrigados a ficar alojados em hotéis”.


No enquanto posterior – porque nesse mesmo enquanto a terra ainda descia abaixo – o porteiro Rogério Teixeira buscava informação de três sobrinhos mortos no Caramujo em Niterói. “Eles quatro estavam dormindo. Meu irmão foi salvo pelos vizinhos, mas as crianças não resistiram. Ele está sendo acompanhado por uma assistente social porque está muito abalado”.


No enquanto agora, o governador Sérgio Cabral indaga: “A culpa é de toda a sociedade”. Não quero me safar da culpa que sei que tenho, mas vamos lá, ficar com a totalidade da culpa também não dá. Enquanto ele afirma, nós negamos, milhares de pessoas se questionam quanto ao seu futuro, suas casas, seus parentes desaparecidos.


Enquanto isso, vou para casa correndo - pois tem uma nuvem negra bem aqui em cima. Me perguntando o que posso fazer; quais são as próximas afirmativas, negativas e questionamentos que nos rondarão; e o que poderia ser mais contraditório que esses “enquantos”: O preto e o branco? A vida e a morte? Os hotéis e os abrigos? O seco e o molhado?


1 de abril de 2010

Enquanto isso...


Enquanto isso...
A moça prepara o almoço
O forte exibe o braço
A criança empurra o balanço
O passo, a poça, o abraço

Enquanto isso...
O fumante procura o maço
O estudante o almaço
A chuva se despede de março
A poça, o abraço, o passo

Enquanto isso...
A moça já lava a louça
O forte usa a força
A criança já não mais balança
O abraço, o passo, a poça


Saia na chuva; pise na poça; de um abraço na moça.
Enquanto fazia isso, fui assinalando outros “enquanto isso” que poderiam existir entre os versos.
Outras milhares de possibilidades existem nas limitadas palavras presentes.
Outras bilhares de possibilidades existem nas ilimitadas palavras existentes.

Qual o seu "enquanto isso"?