29 de dezembro de 2010

O velho novo


E os sinos já tocaram. Toda a correria desenfreada pelas ruas, para se gastar o 13° salário, cessou. Todo apelo consumista da data natalina é substituído por uma “renovação da esperança” sugerida pelo Ano novo – festejo do momento. Mas você já parou para pensar o que tem de novo, de fato, no seu ano que virá? Você aproveitou bem o ano de 2010 para se tornar uma pessoa melhor? Essa “passagem”, tão emblemática, realmente carrega consigo mudanças profundas? Ou é só uma desculpa para se embebedar e usar roupas brancas sem parecer que é médico ou enfermeira?

Nos últimos dias, tenho reparado meus amigos, familiares, contatos da internet agitados com o tema "ano novo". Uns divulgam as roupas a serem usadas; outros a compra das passagens para a Europa, para o nordeste, ou para Ituiutaba mesmo; Alguns se animam com as festas open bar, que tem o convite mais caro que o estoque do buteco aqui da esquina – que poderia ser comsumido em um ano, com muitas e boas companhias. Tem aqueles que suplicam: “Acaba logo 2010!”. Tem os saudosos que pedem: “Fica mais um pouco ano velho”. Tem os metódicos traçando as metas. Os desorganizados dizendo que não deu tempo de fazer o que queriam. Tem “revellionista” para todos os gostos.

O que acho engraçado mesmo é o modo de encarar essa “virada”; esses segundos da contagem regressiva; essas uvas; essas ondas; essas lentilhas; essas moedas; e taças de espumante como se toda a transformação necessária – e não batalhada durante os outros 365 dias – estivesse ali. Um brinde entre condutores alcoolizados; cidadãos que não exercem o direito de voto com consciência; sonegadores de impostos; moradores que não cumprimentam os porteiros; patrões que tratam mal seus funcionários; maridos com atitudes machistas com suas esposas; jovens que não respeitam os idosos; tim tim, vamos lá, é ano novo!

Tudo bem, antes que eu pareça ranzinza vou me explicar: o caso não é apenas jogar pedra no ano novo e sair correndo. Sim, eu também gosto de festejar a data, mudanças de ciclo sempre são boas. Mas merecem reflexões profundas e novas atitudes, certo? Que bom seria se o que é ruim de cada um fosse jogado fora às 0h; Que bom seria se não precisássemos de hora marcada para termos os melhores gestos; Que bom seria se a hora certa para isso fosse todos os dias, o dia todo; Que bom seria se nessa hora certa um despertador disparasse, e nos acordasse para o ano novo que sempre carregamos em cada um de nós. Afinal como diria Drummond “É dentro de você que o Ano Novo cochila e espera desde sempre”.

14 de dezembro de 2010

Eu passarinho


Um passarinho me disse para não ficar mais triste, que o bom da vida era passarinhar. Inquieta, tratei logo de procurar o significado nos mais variados dicionários – formais e informais – da língua portuguesa. Passarinho me deixou confusa, seria ele exibido a ponto de querer ser observado todo dia, o dia todo? Afinal o ato de observar aves pode ser entendido por passarinhar... Ou seria ele de uma espécie dessas que vivem na pele – ou, nesse caso, nas penas – o ato de vadiar? Sim, porque acabei por descobrir que passarinhar pode ser também o lema de vida do desocupado, do vadio. 

Passarinho me fez pensar, poderia ele ter conselho tão leviano? Ou seria eu que não conseguia entender o “passarinhar”? Os dias se seguiam e eu seguia com tristeza no olhar. Passarinho ressurgiu risonho com um tanto de deboche a me observar. Disse ele que o mal do homem é querer a tudo conceituar. Quis me tirar toda a agonia e explicar que de noite e dia já me punha a passarinhar:

– Menina olha para a sua volta; olha para o seu pranto; olha para o tanto de pranto mais doído que passou ao lado seu; olha para a palavra mais certa que já disse; olha para o aperto mais abraçado que já deu; olha os escritos e cantos mais bonitos que o piar que escreveu. É como eu faço todos os dias, pego umas sementes aqui, deixo caí-las acolá. O que foi flor para um jardim, pode ser flor em outro lugar. O acalmou um coração, pode outros tantos acalmar. O que viveu o seu vizinho, pode um amigo distante ajudar. Bom mesmo, menina, é apanhar essas sementes, semear por toda parte, deixar brotar. Mas não se esquecer nunca que semente também serve de alimento no tormento do passarinho que tanto se põe a passarinhar.

6 de dezembro de 2010

Metalinguagem

Foto:  Hidden
Não há nada mais precioso para mim que as palavras. Confesso que gostaria de ser mais amiga das proferidas, mas é que às vezes a hora de por para fora, o que é uma junção do que foi pensado, vivido, sentido e entendido, de determinando momento, se torna tão difícil. Possuir caneta e papel – ou mesmo teclado e monitor - para fazer esse intermédio entre o mundo interior e o exterior é quase imprescindível em algumas ocasiões. Seria bom andar por aí com um bloquinho dizendo em verso e prosa o que se passa em mim aos outros, no entanto psicografar a si mesma a torto e à “esquerda” seria mais esdrúxulo do que deixar que elas saiam do modo estranho que seja.

Aquela carta que escrevi para o meu pai, já grandinha, quando não mais entregava cartões prescritos no colégio, toda com palavras minhas, o fez me olhar de um jeito emocionadamente diferente naquela tarde, ele pode não se lembrar, mas eu jamais esqueci. Aqueles versos que entreguei para uma amiga na adolescência, quando ela estava vivendo sua pior dor de todos os tempos da última semana, podem ter se perdido entre uma arrumação de gaveta e outra, mas o sorriso dela naquele intervalo de aula valeu por cada vogal gasta. Aquele email consolador, revelador, declarador, na tentativa de me fazer presente em lugares que não pude estar, foram válidos e verdadeiros em seu tempo, ainda que não substituíssem o abraço. 

Isso sem dizer desses comentários sobre meus textos aqui, que me impulsionam a querer voltar, para contar um pouco mais de mim, para ouvir um pouco de vocês. O mais incrível é que cada palavra eleita para habitar esses meus escritos, cabe em cada um de vocês de modo diferente. Quantas vezes alguém achou ser inspiração de determinado texto sem ser; quantas outras, quem realmente o era nem percebeu; quantos comentários me apontaram para o entendimento de que o que fazia sentido para mim de uma forma, fazia sentido para o outro de forma totalmente diferente, e para outros nem fazia sentido. E isso é tão lindo, tão mágico, tão, tão... Que - ironicamente - me faltam palavras. 

Ah, minhas queridas palavras... Se combinadas em versos são como enigmas a serem desvendados, cada poesia é de um jeito para cada um que a lê, para o poeta talvez aquela dor nem fosse por determinado motivo, mas para o João pareciam remédio, pareciam alívio, mas eram só palavras. Se ritmadas, deixam de embalar só a alma para embalar também o corpo, a letra combinada ao som gera uma sensação de entendimento, de conforto. Teria o compositor conhecido a história do moço apaixonado pela “moça em contraluz” para saber que ele andava mais confuso que o casarão “onde os sonhos serão reais, e a vida não”? Se escritas da forma que seja: entregues a quem se destinam (ou não), elas eternizam momentos. O que a Ana sentiu exatamente naquele dia que recebeu uma declaração do Rômulo estará sempre ali, ele sabendo ou não, ele interpretando ou não, ele lendo ou não, e emocionará os de fora quase como uma amostra da beleza do que foi sentido no momento da escrita.

E esse é o encanto da emissão das mensagens. Eu prefiro sempre que elas cheguem ao receptor, pois se mesmo juntando o que foi pensado, vivido, sentido e entendido as palavras ainda insistirem em sair, é porque elas devem seguir o fluxo e chegar aos ouvidos – no meu caso, geralmente, aos olhos – de quem as merece. E então eu as divido com vocês todos, pois elas podem caber exatamente aí nos seus pensamentos, nas suas vidas, podem ajudar, emocionar, fazer rir, refletir, ou pensar que estão perdendo tempo, e então encontrem outros tantos cursos diferentes do que foi pensado a princípio. Sigam por aí palavras queridas, sigam cumprindo, cobrindo e bordando papeis distintos, sigam em frente, e, quem sabe um dia, retornem em forma de uma bela resposta.

12 de novembro de 2010

As cores da vida


Era mais uma tarde chuvosa, como eu jamais havia visto da velha varanda, na velha cadeira, em um mês de novembro. Lembrei que as tardes chuvosas de fim de ano outrora tinham um tom violeta, sem deixar de ser azul, também com um verde molhado e mais algumas cores que se fossem jogadas em uma tela branca, de qualquer jeito, virariam essas obras de arte modernas – um tanto rabiscadas ao meu ver – mas que valem um bom dinheiro, como explicou minha neta, estudante de belas artes.

Como esses tais rabiscos, existem outras tantas coisas da modernidade que eu não consigo entender. Mas a essa altura as coisas não precisam de muita explicação como na juventude. A essa altura novembro faz frio e em junho ainda há calor. A essa altura os jovens dançam epileticamente uns sons repetidos com letras escandalizantes. A essa altura as meninas não observam mais a aquarela dos dias chuvosos. A essa altura eu não sou mais uma menina.

E assim como eu não quero muitas explicações sobre a vida atual, também não quero resmungar sobre o tempo perdido – no fundo acho isso uma tremenda babaquice de velhos patéticos que acham necessário todo esse lamento antes da “partida”. Não, jamais, jamais terminaria minha vida lamentando o que não disse, o que disse, o que fiz, o que deixei de fazer... Um fim assim não justificaria toda a beleza contida no meio do caminho, um fim assim apagaria uma parte significativa dessa beleza.

Para não dizer que não tenho mais nada a questionar nem a acrescentar eu sempre repito – dizem que repetir virou uma característica minha, mas não me importo – repito e repito apenas um conselho aos mais jovens, meus filhos, minha neta e até seus amiguinhos da faculdade – que apreciam essa tremedeira corporal musicada, mas que no fundo são boa gente e merecedores dessa recomendação. O Conselho é o seguinte: “aprenda a não perder tempo”.

Muito mais que um simples “não perca tempo”, deve-se atentar ao “aprender”. Afinal, saber esperar muitas vezes evita uma volta enorme que se usa para chegar ao mesmo ponto - apenas pelo fato de não ter aprendido a ficar parado só mais um tempinho. Aprender a aceitar as crises e encará-las - ao contrário de correr do problema e encarar uma crise mais densa logo adiante. Aprender a distinguir, observar e admirar as cores de uma tarde chuvosa, de um gesto simples, de um dia-a-dia mais leve, de um aconchego com a família, de uma bela amizade, de um verdadeiro amor.

Aprendendo que esse tempo não volta, aprende-se a vive-lo enquanto ele é presente. Aprendi vivendo assim que não tem nada melhor que chegar à minha velha varanda e não esperar por mais nada a não ser por aquela tarde chuvosa imensamente colorida, e saber que todas as outras cores pertencentes a mim eu já pintei.   

10 de novembro de 2010

Enquanto se move


Henry Hingst

Enquanto se move todo o canto que comove
Toda flor sonha enfeitar andor
Toda a vida almeja ser metade esquecida
Toda lembrança condensa o tempo que enseja a dança

Enquanto se move toda água que chove
Todo furor procura seu abraçador
Toda partida se arrepende na despedida
Toda esperança pede para si: calma e temperança

Enquanto se move todo o sabor que se prove
Todo o se por esconde um pedaço do que for
Toda torcida aos berros não pode ser ouvida
Toda bonança carrega para sempre sua herança

Enquanto se move todo o abalo que promove
Todo o interior quer ir pra fora, quer se impor
Toda idéia nascida pretende ser acolhida
Toda andança justifica cada palavra que se lança

Enquanto se move o que partiu quer ficar
O que confundiu quer se explicar
O que é difuso não quer falar
O que é promessa quer seu altar
O que é desejo quer realizar
O que é fogo quer assoprar
O que é verso quer terminar

5 de novembro de 2010

Eu queria estar


Eu queria estar no mesmo ou em qualquer lugar
Que fosse possível mostrar o que não é visível
Sem me preocupar se é feio, errado, real ou cabível
Criar e tornar o perfume um bom paladar
Fazer o gosto gostoso do ar virar melodia
E sentir pelo cheiro do ar o que fica de uma alegria

Eu queria estar no mesmo ou em qualquer lugar
Que desse para cantarolar e evitar um olhar severo
Sem me preocupar se é racional entoar desde a bossa ao bolero
Criar e tornar a cantiga um lugar pra morar
Fazer de cada nota um respingo de felicidade
Quem sabe a fantasia um dia decide ficar e virar realidade

28 de outubro de 2010

A ciência da paz



Respire fundo, conte até 10, sinta o pulmão se encher de ar – que fique claro que isso não é uma aula de ioga. Não se importe com o tempo que irá perder lendo essas linhas, assim como eu estou tentando não me importar com o tempo que estou perdendo escrevendo. Não se preocupe com as milhares de janelas que piscam no seu computador nesse momento. Nem com a quantidade de tarefas que ainda precisa fazer no dia de hoje. Apenas pare um pouco.

Já pensou em quanto a gente cobra pressa e agilidade em tudo que nos envolve? Já reparou quantas vezes nosso motivo de desagrado é justamente essa cobrança se rebatendo sobre nós? O trabalho é para ontem, as roupas limpas para antes de ontem, as contas pagas para semana passada. E o tempo decide por si só andar na velocidade da luz, talvez atraído pelo brilho que a bonita carrega, e aí a gente decide que o melhor é seguir os dois vida a fora.

Então um belo dia o tic tac do relógio decide nos dizer: “Não adianta, não há o que você faça que possa acelerar esse momento”. E então a gente descobre que viver acelerando aumenta nossa habilidade em vários critérios, mas nos tira o dom da paciência. E agora? Parar? Respirar? Contar até 10? Sentir o pulmão se encher de ar? “Tá” de sacanagem né? Isso é o que, ioga?

É... Essa desabilidade causa uma revolta interna, a gente quer que passe, quer que chegue, quer resposta, quer resultado. Mas será que a gente quer isso tudo mesmo, de verdade? Com toda a nossa vontade? Será que quando passa, chega, tem resposta, tem resultado a gente aproveita como deveria? Ou arruma outra coisa para querer que passe, chegue, responda, resulte?

Acho que o bom mesmo é: Parar; às vezes você está correndo tanto que nem percebeu que corre de mãos dadas com o que deseja que passe por ti. Esperar; de repente o que você quer que chegue está vindo em sua direção, mas no ritmo dele, um pouco mais devagar que os seus passos largos, por isso ele nunca te alcançará. Refletir; quais respostas você quer, talvez seja o caso de reformular as perguntas.

E os resultados... esses sempre chegam e chegam de acordo com as nossas ações. Pode ser que falte ficar mais amigo do tic tac e observar que ele não é assim tão ruim. Quem sabe assim encontre a paz, quem sabe até entenda a paz? E aí sim receba de volta o dom da paciência, afinal ter paciência é ter a ciência exata da paz.

18 de outubro de 2010

O tempo ensina


McKenna P

O tempo ensina; o tempo acalma; só o tempo pode curar. Se alguém aí nunca disse ou ouviu qualquer dessas frases que atire a primeira ampulheta. Mesmo sabendo que é a mais pura verdade, em vários momentos esses dizeres se tornam tão doídos, tão inexatos, tão questionáveis, que ficam tão difíceis de serem ditos quanto ouvidos.

Afinal, que tempo é esse que nos tira algo ou alguém, em velocidade tão superior a que nos é permitido sua presença? Que tempo é esse que nos devora? Que nos rouba sonhos? Que enruga? Que maltrata? Que distancia? Que adoece? Que esquece? Que é efêmero quando se quer que fique mais? Que passa devagar quando se quer que passe logo?

Esse tempo é o mesmo tempo que ensina, como bem dito lá em cima. As ausências se tornam dores, que de tão doloridas se tornam marcas, que de tão marcadas se tornam princípios, que de princípios dominam o presente e ocasionam os novos fins. Sim, os fins são os culpados por outros fins, por novos fins. Os fins modificam nossos caminhos, nos fazem questionar como foi a conduta até então, sacudir a poeira. Os fins podem ser confundidos com reinícios que nos são permitidos ter por toda a vida, graças ao passar do tempo.

Aprendemos então com o tempo que não é preciso se perder para saber o quanto é bom se ter. Que degustar o tempo é a melhor maneira de não ser devorado por ele. Que os sonhos não são roubados pelo tempo, nós é que nos apropriamos muito deles, devemos saber que é preciso largar alguns sonhos pelo caminho, para sonhar outros. Que as rugas são as maiores provas físicas de experiência. Que nós é que maltratamos o tempo deixando que ele passe sem dizer ou fazer tudo que poderíamos. Que só sofre pela distância quem já teve algo tão bom por perto que deixou saudade, tanta gente passa a vida toda sem saber o que é isso...

Assim é possível até mesmo crer que as enfermidades, na maioria das vezes, são estalares de dedos do tempo para nos atentarmos ao nosso corpo e a nossa mente. Que o tempo jamais esquece quem não se esquece dele. E que o certo é só deixar o tempo passar devagar do momento que se enfrenta uma dificuldade até se recuperar o compasso. Passa rápido o tempo bem aproveitado, bem vivido. E corre macio o tempo de quem aprende a continuar andando, mesmo nas quedas.

28 de setembro de 2010

Aos pedaços

Foto: Hidden

Tem gente que vive uma vida toda calculando, precisa se sentir inteiro; ganhar no mínimo x salários; achar a sua metade; completar as quatro décadas em bom estado físico; ler ao menos tantos livros ao ano; conhecer um determinado número de países. Como se viver fosse uma ciência exata, uma matemática precisa, baseada, sobretudo, em números, somas e multiplicações. Com a preocupação em ter muito e pouco ser.

Vive-se bem nessa equação? De repente, sim. O grande problema – não matemático – dessa questão é se acostumar com a não aceitação das subtrações e divisões necessárias para seguir a vida. Aquele armário abarrotado de peças não mais usadas; aquele coração contabilizando amarguras; aquela poupança cheia no fim da vida; aquele apego excessivo; aquele número absurdo de sapatos para quem tem apenas dois pés e pisa nas mesmas calçadas de tantos meninos descalços...

Tudo para se sentir inteiro, não atento que o gesto de se espalhar por aí pode ser a melhor forma de se ampliar. Eu deixo um pedaço meu com cada um que me é importante. Deve ser por esse motivo que tenho tantas saudades dos meus queridos, saudades das partes de mim. E também por isso é muito difícil conseguir juntar minhas partes em um só lugar, em um só momento. Mas dos pesares que isso pode causar, nenhum é maior que o prazer de se sentir inteira. Porque, para mim, ser inteira é estar aos pedaços.

17 de setembro de 2010

Tudo vale a pena?

Foto: M Nota

O que não se faz valer é o que não vale a pena? Ou é só uma manobra usada por nós, para não assumirmos, de uma vez por todas, que não temos a capacidade de fazer valer a pena, de “mergulhar”, de “se jogar” sem expectativas? Fernando Pessoa diria que “Tudo vale a pena quando alma não é pequena”, eu, pedindo perdão pelo clichê, assino embaixo, temendo o autodiagnóstico de “nanismo n´alma” até concluir o presente texto.

Quando dizemos que algo vale a pena significa dizer que compensa o sacrifício para conquistá-lo, certo? Tão logo, esbarramos em outra expressão: o “se fazer valer” que seria atribuir ao objeto de conquista a obrigação de se afirmar merecedor de esforço. Tornando, desse jeito, comum a frase que pronunciamos desde pequenos quando não alcançamos algo: “Eu não queria mesmo”. A partir daí entramos em uma enorme dança de parâmetros, na qual se torna difícil diferenciar quem dá o passo mais belo e o mais atraente: o conformismo ou a interpretação positiva dos fatos? Você prefere dizer que toda a situação apontou para aquele resultado porque de fato não valia a pena; ou dizer que tentou, independente das consequências e resultados?

A frase de Fernando Pessoa, já citada, entraria nessa roda para suscitar diferentes interpretações a respeito do tema, eu explicaria que: tudo vale a pena se você souber ver sob diferentes pontos de vista. Isso fornece um alívio, baseado na lógica de que o “fazer valer” só funciona em primeira pessoa, é você quem torna valiosos todos os seus atos e conquistas e não o contrário. Parece complexo, porque abre espaço para os diferentes ângulos com dos quais podemos visualizar uma circunstância. Coisas que amarguramos por anos; que tememos por décadas; que deixamos de dizer; de fazer. Tudo, tudo mesmo, vale a pena ser feito. Pois se não der certo, dali há algum tempo, saberemos, até mesmo, o propósito daquele “erro” ou “derrota”. Cabe ainda uma avaliação pessoal quanto a em que se baseia o seu “não deu certo”. Afinal, o que seria mesmo certo? O que você estabeleceu à partir das suas expectativas? O que a sociedade impôs como ideal? Ou o que sua “pequen’alma” o limita a ser? Quanto a dimensão da minha... A dúvida permanece após o ponto final.

8 de setembro de 2010

Medo da solução

Foto: Jason Conlon
Aos sábados, sempre havia um problema diferente para resolver. Fazia sol e outros problemas apareciam; os amigos chamavam para se distrair, mas os problemas ainda estavam lá. Voltava para casa mais cedo a fim de resolvê-los. Se punha na cama e não dormia pois eles não davam descanso. Eles ocupavam sua vida mais que qualquer solução, e não havia fagulha de paz capaz de explodir um bem-estar maior que a demasiada preocupação.

De bonito no amor só a rima com dor. De sua bela casa, só as contas todas pagas, reparos feitos, armários cheios. De sua aparência, o espelho refletia apenas o que não agradava. De seu livro, uma resenha com críticas severas. De sua música, a inconformidade com aquela rima feita com uma palavra em diminutivo. De seu prato favorito a observação da falta de manjericão. Do trabalho com revisão de textos, o único lamento de não poder modificar estilos literários, achava em qualquer que fosse uma falha. Adorava ver o mesmo filme de vez em sempre, com a mesma frequência que lamentava a escolha da atriz protagonista, podia ter mais emoção não fosse ela, não fosse essa luz mal colocada, não fosse sua habilidade em encontrar defeitos e vivenciar problemas.

O seu principal receio era se descobrir, afinal quanto mais defeitos achasse em si, menos possibilidades de se esconder do defeituoso mundo ao redor. E foi identificando esse temor que ele identificou o que aguçava seu radar de problemas – o medo. Não podia se permitir gostar de algo mais do que desgostava; nem achar alguém tão perfeito que até seus defeitos o agradassem; não poderia pensar que esse alguém se tornaria tão importante para sua felicidade a ponto de achar necessário assumir essa fraqueza; nem reconhecer que sua casa era tão bonita quanto vazia. Ela achava não merecer mais tamanha desvalorização. Os amigos queriam alguém para dividir os problemas e alegrias e essa matemática era muito assimétrica quando se tratava dele. Ele mesmo não se aguentava mais. Sabia que só vencendo o medo veria menos problemas em tudo, mas o fato é que esses problemas já estavam há tanto tempo servindo como proteção, que submerso neles já não sabia como seria a vida sem os ter, sem os evidenciar, ou pior, a vida repleta de soluções... Descobriu como maior dos seus problemas: o medo de viver sem eles.

31 de agosto de 2010

A moral da tanga

Foto: Wim Demortier (sxc.hu)

Rio de Janeiro – Centro, 18h, 32º C, loja de lingerie (que não me lembro o nome). Uma dezena de mulheres se aglomera ao redor do departamento mais “ousado” do estabelecimento. Todas muito afoitas, contando suas vantagens, comentando o uso de determinados artefatos e acreditando – ou fingindo acreditar – que cascatas de strass, microtangas, rendas, paetês, brilhos, plumas e amarras as tornariam mais sexys. Eu cá no departamento mais básico (sozinha) observava, como sempre, a insana afoites humana, guardando minha opinião sobre: o quanto o natural é mais sexy; o quanto aquelas mulheres deveriam, ainda que implicitamente, reclamar em seus dias por serem subjugadas, ao passo que se fantasiavam de globo de boate e viravam cópias fiéis – e feias (na minha opinião) – umas das outras.

Antes que eu ocupasse todo o vão da minha mente, naquele instante, com discursos antissexistas, subisse em um daqueles puffs, citando Simone de Beauvoir, e solicitasse que as “mulheres balangandãs” se olhassem no espelho. Surgiu um homem super alto, forte e com a voz extremamente grossa – do tipo que faz as “mulheres balangandãs” suspirarem. Ele então solicitou à atendente: “Por favor, posso ver a tanga mais cavada que você tiver na cor preta?”. Uma das clientes chegou a dizer: “Viu? É assim que eles gostam”. A atendente rapidamente replicou: “Qual tamanho seria senhor?”. E em alto e bom tom ele respondeu: “Acho que pra mim teria que ser G”. Um burburinho imenso, parecido com o som de um coletivo de insetos, se formou na mesma hora. As mulheres se questionavam enlouquecidas: "como poderia aquilo?". Tanto tempo aprendendo a serem iguais, não dá para aceitar o diferente assim, sem mais nem menos.

O sujeito saiu da loja, sacudindo sua sacola, com ares de quem teria uma noite muito melhor do que qualquer uma ali. Nem se importando por ter deixado a mulherada desesperada, reduzidas a glíter. E eu, gargalhando por dentro, contemplei mais alguns movimentos e comentários, paguei e fui embora com uma moral pra essa história: “Deve-se importar muito mais em ser feliz, do que com o que o outro diz que você precisa ser, ter e fazer”. 

27 de agosto de 2010

Há de saber

Me pede para compor enquanto é dia
Com a pressa e agonia
Que convidou a com viver
Há de saber...

Que não se canta o que não sabe
E antes que o morro desabe
Ainda tem o que subir
Há de sentir...

O que insiste não ter nome
E se devora sem ter fome
E que precisa maldizer
Há de esquecer...

Mas se esquecendo, rememora
Quer ter de volta no agora
Quem sabe até recomeçar
Há de voltar...

E pedir para compor enquanto é noite
Sem mais dores de açoite
Que concordou não mais sorver
Há de saber...

Que convidou a com viver
Há de sentir
Que ainda tem o que subir
Há de esquecer
O que precisa maldizer
Há de voltar
Quem sabe até recomeçar

24 de agosto de 2010

O hoje

Foto: Carlos Nunes (sxc.hu)

Pense em um dia em que aparentemente todos elementos da natureza confabularam durante toda a noite para despertarem aguçando os sentidos dos homens que os observassem. As folhas são mais verdes, as flores mais coloridas, o ar mais perfumado, os raios de sol são tão brilhantes e densos que parecem poder ser tocados. Esse dia é hoje. E não, não estou de férias, observei tudo isso entre um deslocamento e outro.

E hoje, diferente de outros momentos, não tive vontade de reclamar mentalmente por ter meus compromissos diários. Resolvi pensar que naquele mesmo momento, como já disse, a natureza trabalhava para produzir aquele espetáculo, não faria sentido eu cruzar os braços e simplesmente assisti-lo. Ficou mais fácil me trancar em um escritório a partir de então.

É bom notar que posso ver tudo isso, que eu tenho como pano de fundo diário, para os sonhos e fatos que me movem, uma vistas tão deslumbrante. É bom saber que tenho um lavoro, coisas a fazer, planos não realizados. É bom problematizar menos a vida, se pegar nos simples e bons detalhes dela, se desapegar da observância dos pequenos defeitos. É bom ter a capacidade de se treinar para achar o bom lado das coisas, mesmo que constantemente pensamentos angustiantes sobre a falta de lógica mundana voltem a emergir. É bom ver que durante a vida encontrei ótimas pessoas para estarem perto nesses momentos bons e também nos angustiantes. É bom imaginar que assim enxergo hoje, que amanhã tudo pode mudar, a maneira de observar, a companhia, o ângulo. É bom até mesmo ter a ciência que o dia lindo vai se esvair, enquanto esse ar condicionado me congela, mas que quando sair terá uma lua perfeita iluminando o caminho do meu corpo cansado para casa, e quem sabe até o convidando para mudar de direção e tentar enxergar o novo no “já visto” em mais e mais lugares por aí.

20 de agosto de 2010

Para virar uma estrela



Quando eu era pequena gostava de virar cambalhotas. Muitas, várias, mais e mais cambalhotas. Até o rosto ruborizar completamente, sem parar, como se fossem as últimas, mais e mais cambalhotas. Se ia para a casa da minha avó então... promovia com meus primos o campeonato de cambalhotas em colchonetes. Muitas cambalhotas depois eram analisados a harmonia, a retidão, o enroscar, o desenroscar, e claro, como o “atleta” caía no final. Sim, porque não bastava a acrobacia por si só ser bem realizada, tinha que ter leveza e graça no conjunto da obra.

Um dia estava com aquela tontura devido à uma série infinita de cambalhotas, enxergando tudo duplicado, ofegante, rosada e um pouco suada. Quando de repente, uma amiga virou uma “estrela”. Como ela poderia, diferente do “cambalhotar”, se equilibrar nos braços esticados, com o corpo igualmente esticado, projetando-o para o lado, e cair bem longe de onde iniciou a acrobacia e de pé? Como poderia abandonar a cambalhota por algo muito mais incrível e mágico, assim do dia para a noite? Como aprendeu aquilo? Em pouco tempo ela virou o centro das atenções na praça, criança nenhuma queria saber da cambalhota. Juntei todas as minhas preciosidades – ioiô; bambolê e um boneco do comandos em ação quebrado (único que meu irmão permitia que eu tocasse) – e dei no pé. Aquela garota não mostrava apenas mais uma brincadeira que havia aprendido, ela me desafiava. Precisava ir embora o mais rápido possível, digerir aquela estória e pensar no que fazer à partir do fim da importância da cambalhota.

Cheguei em casa, me despi do meu despeito infantil, e obviamente, me pus a tentar fazer a acrobacia. Quebrei um anjinho, na falta de cola o restaurei com esmalte, e jurei para mim mesma que minha mãe nunca perceberia que a mão dele a partir de então teria a palma virada ao contrário. Tentei mais e mais vezes, acho que esbarrei em tudo que possuía quinas na casa, e quando estava prestes a desistir, consegui! Consegui! Consegui! Estrelas, estrelas, mais e mais estrelas. Muitas, várias, mais e mais estrelas. Até o rosto ruborizar, sem parar, mais e mais estrelas. Sugeri a minha amiga que lançou a moda (desafio) que agora éramos uma dupla perfeita, deveríamos apresentar a estrela a todos e dizer aos sete cantos que a cambalhota era coisa de criança. Então assim foi, nos apresentávamos no recreio, ensinávamos a técnica aos coleguinhas e sabíamos que dominávamos a nova arte, pelo menos naquele pedaço de chão.

Bem, hoje eu sou um adulto que nem sabe se consegue virar uma estrela, nem sequer uma cambalhota. Não faço isso há tanto tempo... Mas o valor dessa lembrança está em poder dizer que essas coisas tão pequenas, simples e esquecidas, já representaram grandes desafios, renderam grandes seções de risos e felicidade e passaram. Passaram para me deixar ver que não eram inatingíveis, eles são sempre superáveis, por maior que possam parecer. Não se pode um dia morrer por um prazo que não cumprido, no outro morrer por uma prova, no outro morrer por ter milhares de tarefas da casa pra fazer, no outro morrer por sentir muita saudade. Afinal esses são os desafios atuais, e aos poucos eles passam também, nos fazendo lembrar que o bom da vida mesmo um dia já foi “cambalhota”, depois virou uma “estrela”.

4 de agosto de 2010

Cordel de dois


Essa prosa não é quadrilha
Nem faz força pra rimar
Assucedeu que a moça
Resolveu se arribar
O assento ficou vago
E isso não dá pra ataiar
Mas o vento de revestrez
Já não faz aperrear

A flor na cabeça enfeita
A roda se põe a girar
No mesmo rotundo a vida
E o que mais ela aturar
Perdendo por vezes se ganha
Só não pode se empatar
Desse modo vem abraço
Em punhado pra acoitar

As festas de julho passa
E o retalho a desfiar
Não há linha que o faça
Deslembrar do seu pesar
Pois da gaveta não vê
As tardes que se pôs a rodar
Nem o João e Maria
Que deixaram de ser par

De lampejo e alegria
É o caminho de João
Com festejo e viola
Apinhado de multidão
Sabe quem vive d’hoje
Não deixa a agitação
Quanto mais as lembrança
Se embrenhá no coração

Maria não mais esquadrinha
O acertado tem seu valor
Não pede mais sem fazer
E vai devagar com o andor
Sabe que todo frio
Encontra seu abrasador
E todo calor que passa
É de amado ou de amador

29 de julho de 2010

Gotas de felicidade

Ela se achava infeliz. Não podia ser mais infeliz. Nem toda infelicidade do mundo transformada em pó, colocada em cápsulas, tomada três vezes ao dia, poderia oferecer mais momentos de desprazer quanto os que haviam tomado conta de sua vida inesperadamente.

Era difícil sair da cama sabendo que teria mais um dia tão deprimente. Olhava a sua volta e desgostava de tudo. E assim se passavam os bons momentos despercebidos. Sua música preferida se envergonhava de existir, preferia mudar de ritmo à sucitar tanto desprazer. O prato que mais gostava, queria ser jiló, para justificar tamanha expressão de amargura. Os versos que a fazia sentir um tremor de alegria, se encaminhavam tímidos para as notas de rodapé. A brisa fresca formada pelas árvores de sua rua, que vinha lhe saudar todas as manhãs, mandou currículo para ser ar quente em uma sauna. Os amigos engraçados, não queriam mais fazer piadas. As fotos de festas, viagens, amigos, amados, desejavam todos os dias desbotar, até perder a cor, para não serem mais vistas. Assim se sentia tudo o que lhe trazia felicidade e belas lembranças em outros tempos. E assim ela se entristecia por ter acumulado tantas coisas, hábitos e prazeres, simples - e inúteis - em seus dias.

A vida seguia e ela seguia reclamando do mundo que a cercava, sem perceber que esse mundo só queria vibrar na mesma sintonia que ela. Para todas as pessoas, objetos e momentos não interessava mais trazer felicidade a quem havia concluído que a felicidade ali não poderia morar. Em certas ocasiões pensava que tanta desventura poderia ter justificativa médica, física, psíquica – não sabia muito bem diferenciar essas nuanças -, mas em seguida lembrava que diagnóstico de depressão e virose estavam mais na moda que esmalte rosa.

Eu só queria a fazer entender um dia, em um indesejável despertar, que precisa  se olhar de modo diferente, assim como o que mais lhe rodeia. E que entenda enfim, que não perdeu nada, como gosta de apregoar. Que são os ciclos se fechando, para outros começarem. Que é hora de gritar determinados fins, para se soprar os infindáveis inícios que se seguirão. E as vezes, é até preciso desabilitar o egoísmo, olhando a desgraça e a miséria alheia, para saber o quanto tudo que acumulou até então - mesmo as dores – são gotas homeopáticas de felicidade, que só fazem efeito se ela acreditar.

15 de julho de 2010

A camisa azul


Acordado: já se vê entre o susto do despertador; a preguiça gostosa proporcionada pela função “soneca”; e o alongamento indesejado do espreguiçar matinal. Levantado: já não sabe o que primeiro fazer para menos atrasar. Café sem complementos; banho rápido; louça na pia; jornal só as manchetes; torrada queimada no lixo; lixo lotado para fora.

Afobado: se vê prestes a vestir aquela camisa que não usava há várias estações, a correria então para, o ar fica rarefeito, e perde a cor, preto e branco, ganha sabor, ganha cheiro, o peito aperta. Lá estão todas elas, as especialistas em fazer o tempo parar, em fazer o tempo querer voltar, em fazer o tempo ter vergonha de andar, mas conscientes de que não fosse o tempo elas não existiriam, não fosse ele passar, não fosse o ontem, o antigo, o já visto, o perdido, elas seriam extintas, algo que só o avô do tempo que havia tempo contaria para o neto como era ter: “as lembranças”.

Contrariado: lembrou de quando comprou aquela camisa para seu primeiro encontro com a ex-namorada; lembrou que ela olhou para ele – com aquele olhar que lhe resfriava o corpo no mais alto verão –, e disse que adorava azul; lembrou que sua mãe brigou muitas vezes por ela estar mal passada; lembrou que saiu com seu sobrinho ele agarrou pela gola e fez ela esticar; lembrou dos passeios de bicicleta nas tardes de dias da semana; lembrou do dia que foi ao asilo como voluntário, e a senhora simpática da cadeira de balanço  o disse que ficava um “pão” vestido assim; lembrou que guardou a camisa no canto da gaveta para não lembrar o que havia passado.

Atormentado: viu que não tinha mais um amor que resfriava o corpo; não morava mais com a mãe, e até suas reclamações faziam falta; já não podia pegar o sobrinho no colo, ele havia crescido; não tinha mais tempo para os passeios de bicicleta dias de semana; para o trabalho voluntário; para olhar o outro; para lembrar do passado; para olhar para si. Estranho como o cheiro de guardado da gaveta não havia extraído da camisa tantas lembranças, tantos pedaços seus esquecidos, adormecidos, tantas saudades do que viveu, do que viu, do que foi um dia.

Determinado: deixou-se invadir por uma súbita coragem; uma vontade de amar novamente, outra mulher; de sentir o corpo, se não resfriado, aquecido; de ensinar seu sobrinho a andar de bicicleta; de incentivar a mãe a se ocupar sendo voluntária do tal asilo; e se não pudesse retornar a esse trabalho, que descobrisse outras formas de ajudar ao outro; de olhar com compaixão o próximo. Então olhou no espelho e percebeu que precisava também olhar com compaixão para si. Que não podia mais negar suas lembranças ou torná-las tão ruins. Entendeu que elas não tinham que ficar na gaveta, afinal elas existiam para somar, para ele aprender, fossem boas ou não, e deviam ficar acessíveis para serem rememoradas, reutilizadas, recicladas, reinventadas, sempre que fosse necessário.

Aliviado: Vestiu sua camisa azul, sua sorte então mudou.

9 de julho de 2010

Ouvir ou escutar?


Você ouve ou escuta? Se acha que é tudo a mesma coisa vamos às explicações. Tecnicamente: os verbos “ouvir” e “escutar” são considerados sinônimos nos dicionários, porém eles têm significados distintos. Sendo “ouvir: perceber o som pelo sentido da audição”; e “escutar: estar consciente do que se ouve”. Poeticamente: Mário Quintana diria “Esses que pensam que existem sinônimos, desconfio que não sabem distinguir as diferentes nuanças de uma cor.” Particularmente: Sinto falta de ser escutada muitas vezes em que sou ouvida; sinto falta até de ser somente ouvida em algumas ocasiões; e de ouvir; e de escutar então...

Somos todos artistas de nós mesmos, e usamos o sentido do outro para tentar nos mostrar. O que diz o que vemos em você, suas roupas, sua cara, suas cores? O que diz o que cheiramos em você, seu suor, seu perfume? O que diz o que tocamos em você, sua pele, sua temperatura, seus calos? Talvez não fosse preciso o uso de tantos sentidos se soubéssemos escutar, se soubéssemos o que diz o que ouvimos de você, no sentido de pensar, processar e guardar o que você mesmo – que tanto se conhece – tem a dizer de si.

Que música faz o seu colega de trabalho chorar? Que momento marcou a vida de sua mãe? Qual foi a melhor tarde da vida do seu amigo? Que problema aflige aquele senhor de olhar caído? O garoto tímido da faculdade, o que faz no fim de semana? Qual o doce preferido da sua irmã? Aquela menina que passa por você e sempre sorri, tem pensamentos parecidos com os seus?

Não se sabe... nem se saberá, se não parar para escutar. O fato do “ouvir” ser preferido em lugar do “escutar” é constante. Tantas coisas rasas vão passando pela vida, tanta terapia pra tentar se fazer ouvir, pra tentar descobrir por que sempre falta alguma coisa. Falta porque não aprofundamos em nada; falta porque o que começa já está no fim, falta porque temos pressa; porque estamos tão programados a não escutar que desenvolvemos um falar diferente de dizer.

E então ninguém diz; ninguém escuta; ninguém se conhece; ninguém se vê; ninguém se faz entender. E a vida segue na grande e bela cidade que todos olham, mas ninguém vê; observada pela janela da moça que todos sabem quem é, mas ninguém conhece; que tanto tem para dizer, mas ninguém escuta.

7 de julho de 2010

Comprometida consigo?


Hoje uma amiga me disse: “Resolvi. Vou viver como se estivesse comprometida com ele, ainda que ele nem saiba”. Na hora pensei em quanto seria uma cartela de Rivotril, e se eu teria o dinheiro para emprestá-la. Como pode tamanha insanidade? Já era tarde e eu preferi raciocinar aquilo no caminho.

Já no ônibus me pus a refletir – mais uma da série “coisas simples da vida que eu amo”. Segui pensando nela, não podia escutar tamanha maluquice e não fazer ou pensar nada – mais uma da série “temos sempre que estar pensando em algo, ainda que não tenhamos nada a ver com aquilo”.

Então pensei... Pensei nela caminhando todos os dias de manhã pela orla, imaginando quando faria isso de mãos dadas com ele; Pensei nela animada em seu trabalho, pensando no que ele acharia da idéia que ela teve; Pensei no vinho que ela tomava à noite imaginando o estalar do brinde que faria um dia; Pensei nos livros que ela lia, para passar o tempo da espera; Pensei nas músicas que ela ouvia, prestando atenção na letra ,para ver se poderia ser tomada como “sua”; Pensei na meditação que ela disse estar fazendo, para se acalmar enquanto aguarda; Pensei em suas noites de sono tranquilo, repletas de sonhos incríveis. Nossa que freada! Quase caio.

Pensei, pensei... E conclui que queria muito um comprometimento assim. Ela está comprometida com sua mente; com seu corpo; com sua alma; com seu bem estar. Se esse babaca não enxergar isso - da série "todo cara que não quer uma amiga sua é um babaca" -, ela há de chorar dois dias e terá se tornado uma pessoa muito melhor. Se comprometendo com seus sonhos, ela se compromete consigo. Como é raro fazermos isso hoje em dia, não é? Ponto final, tenho que saltar. Sigo para casa pensando em qual sonho vou escolher para me comprometer. Comprometida comigo, será que consigo?

22 de junho de 2010

Entre linhas


A vida se faz de linhas
Tortas, imaginárias
Retas, contrárias
Enoveladas ou solitárias

Quando faladas, anotadas, prometidas ou encantas
Mesmo não sendo a metade do que foi imaginado
Todas as linhas se tornam tudo o que foi dito
E o verbo conjugado, tão logo, se torna passado

Pode-se seguir uma linha
Permitindo que uma lógica faça sequência
Dando às aspas o privilégio de que digam
Tudo o que você diria sem a mesma eficiência

E depois de uma linha, outra linha
E entre o todo de linhas, as entrelinhas
Que guardam consigo o rascunho, o rabisco e a intenção
Conservam e protegem o que se sonha tornar ação

O que não é dito em todas as linhas
Pode ser lido como qualquer entrelinha
Vocês nem imaginam as minhas...

Essa é a graça e a teimosia
Da vida que passa e da poesia

19 de junho de 2010

Diálogo SEMtemporâneo II - Não sei não


Ela diz: – Não acredito em “não sei”. Para mim a pessoa sempre sabe o que quer e não diz, ou não age de acordo por covardia.
A outra diz: – Eu acredito porque já me vi em situações assim, precisei parar e decidir.
Ela diz: – Na verdade você parou por medo, já sabia sim.
A outra diz: – Nem sempre é assim, as vezes você simplesmente não sabe.
Ela diz: – Não acredito nisso, para mim é agora, rápido, preciso, quero: SIM; um momento, aguarde, espere, pense: NÃO. Simples assim!
A outra diz: – Eu ainda acho que a dúvida tem o poder de tornar a decisão mais certeira e racional. Você AVALIA o entorno, o que QUER, para ONDE quer ir...
Ela diz: – Não acredito e ponto. Mas tenho que ir. Dia cheio de decisões!
A outra diz: – Ok! O que fará amanhã?
Ela diz: – Primeiro preciso AVALIAR se vou render nos estudos hoje, depois vejo se QUERO fazer algo e então te falo ONDE vou. Por enquanto, não sei...

11 de junho de 2010

Cuide-se


Tempo falta, pressa sobra. Corre-se daqui, corre-se de lá. Desapercebe-se o que se quer, o que o outro quer, e corre-se ainda mais pra tentar resolver. O primordial é fazer, ainda que seja cedo, antes que seja tarde.

Cuida-se das tarefas; da cafeteira ligada de manhã; das roupas no varal. Cuida-se de ser simpático com o porteiro; de ser pontual no trabalho; de aceitar que o mar é um quadro intocável na janela do ônibus.

Cuida-se de passar o dia entre paredes, em um clima artificial; e de ter comportamentos regrados e atitudes programadas. Cuida-se das burocracias; de se aperfeiçoar; de estar a par dos assuntos do momento; de ser o melhor em algo, sem sequer saber porque.

Cuida-se de não dizer tudo o que pensa; e das atitudes que podem atingir o que está na outra ponta do dominó, ainda que não se saiba. Cuida-se de parecer normal; parecer feliz; parecer bonito. Cuida-se da dor do outro, ainda que oculte as próprias dores.

Cuida-se de não esquecer a essência; a origem; a bondade; a palavra; o próximo; a generosidade; a gentileza; e o norte, mesmo que isso pareça - ou seja -, um comportamento condicionado. Cuida-se até de esconder certas virtudes; certos desejos, pois demonstrá-los poderia ser um perigo. Cuida-se de fazer o certo, sem saber quem criou o certo. Cuida-se dos amigos; da família; da casa.

Cuida-se de correr mais, pois logo o dia acaba e se percebe: quem cuida de tudo isso não cuida de si. E o castigo deve ser não encontrar quem o faça, ou quem o ajude a fazer. Cuide-se.

31 de maio de 2010

O que é o que?


Nuvem, é o que aparece momentos antes do raio de sol
Peixe, é o que esquece e nada, com a vida estando por um anzol
Fogo, é o que aquece e quase sem perceber traz a luz
Fé, é a benesse que não se explica com uma só cruz

Medo, é uma doença sem contágio, sem remédio e sem dor
Desejo, é uma dança repleta de gosto, tato, cheiro e cor
Paz, é uma criança dormindo dentro de nós
Essência, é a bonança que encontramos ao ouvir nossa voz

Ontem, é o antigo do hoje que se torna passado sem mandar aviso
Som, é o amigo da alma que carrega o gosto pelo improviso
Busca, é o que digo querer quando não sei o que preciso
Vida, é o castigo de quem fica entre as portas indeciso

26 de maio de 2010

Atenção ao ter ação

Tome tento
Tento atento
Há tempo

Ser atenta
Ao tentar
Tentar

A tensão
Atem ação
Tanta ação

Ater ação
Ao ter ação
Alteração

Atenção
Tentação
Tantas são