19 de janeiro de 2016

Deixa ser que dói menos!





O mundo se divide entre quem aceita algo, quem não aceita algo, quem não aceita que alguém possa aceitar algo e, finalmente, quem não aceita que alguém possa não aceitar esse algo.

Dessa divisão surgem milhares de segmentações como: quem ama quem aceita algo, quem odeia quem não aceita algo, quem ama quem não aceita que alguém possa aceitar algo, quem ama quem não aceita que alguém possa não aceitar algo e assim por diante.

Sabendo de antemão que esse algo pode admitir ainda mais variáveis, as possibilidades de aceitar ou não, amar ou não, odiar ou não, se tornam comparáveis à quantidade de vezes que um indivíduo inspira e expira desde a primeira infância à morte.

Diante de toda essa quantidade de “algos” para aceitar ou não, amar ou não, odiar ou não, corra, se apresse! Quer passar a vida sem opinar sobre a maior quantidade de tópicos possíveis?

Afinal de contas, o que será do casal gay que mora ao seu lado com o pequeno buldogue francês, Napoleão, se não souber que você não aceita essa relação? O que será da advogada se não souber que você aceita que, ‘mesmo sendo mulher’ [sic], ela possa te defender na pequena causa em que se envolveu? E a mercearia que você parou de frequentar devido à posição política do dono? O que será da vida desse comunista se não sentir seu ódio? O que pode acontecer com eles?

Simplesmente nada! Aceitar, repudiar, amar e odiar questões pessoais alheias – que nada interferem na sua vida – não te torna um defensor da nação, um super-herói, muito menos um patrono da boa índole. Torna-te um intrometido, um cabeça dura, um falastrão, um chato.

Aceite o fato de que a maioria dos acontecimentos diários ocorre mesmo sendo contrários à sua opinião, quer você queira ou não. O ódio não muda nada. E o amor vale mais se assumido no seu sentido amplo, sem “apesar de”, nem “independente de”. Eis então a síntese da parcela, ainda não mencionada aqui, que deixa os fatos, as pessoas e o amor serem e ponto. 

16 de dezembro de 2015

Janelas constantes



Se fosse possível parar o tempo ali, poderia viver as quatro décadas de vida que ainda lhe restavam. Respiraria aquele azul do céu até clarear a alma. Sofria por excesso de janelas. Todas as noites insones elas voltavam para atormentá-la. Janelas fechadas em bruscos movimentos. Janelas apenas espiadas pela fresta. Janelas jamais abertas. Cada uma delas contribuía para o escuro daquele longo corredor.

Pisava passos covardes, ao arrastar os pés e tatear o que viria adiante. Atingia assim o grau máximo de risco capaz de enfrentar em seus dias. Boas eram as noites em que o corpo não realizava empuxo algum, sem se embalar em qualquer movimento de descoberta. Joelhos na testa, abraço nas pernas. Assim, a luz era ainda menos visível e das janelas nem se lembrava. Desse jeito também poderia parrar o tempo por décadas. Quem sabe as frestas não sumiam?

Dedilhar a capa do livro que a salvaria - segundo a lista de mais vendidos do mês – se tornou mais que um hábito, uma habilidade. Tantos tipos de som em cada movimento dos dedos, punhos e mãos. Descobriu a força do anelar esquerdo, antes só notado quando digitava as mais importantes letras do teclado - entre elas o "s", de plurais que lhe faltavam. Formulou também a teoria de que Mozart teria sofrido com as janelas da alma. Mas sempre restava a dúvida se o pianista possuía mesmo um acervo de livros ruins com capas de boa gramatura. Mais medíocre que ser medíocre era se comparar aos grandes.

De volta ao corredor escuro. De volta às janelas. Abri-las? Saltá-las? A janela real já esboça sinais de transmutação. A madrugada se encontrava em estado agudo de ansiedade por partir, não suportava mais aquele silêncio a que fora condenada, sobretudo nos dias de semana. E as janelas... As janelas insistem em se impor, não querem se esvair com a claridade, afinal, a antítese claro/escuro poderia ser o motivo de sua invenção

A transição empunhava algumas verdades escondidas pela noite. Não era das janelas a culpa de tamanha tormenta. Na verdade, a existência delas, ainda que fechadas, provocava um estranho conforto. Tremia o queixo apoiado nos joelhos de pensar no dia em que, num impulso só, abriria todas as janelas. E se o escuro lá de fora - ou de dentro, como queira – fosse igual ou maior ao do corredor? Melhor sofrer de excesso de janelas fechadas do que ausência de luz. Adormece.

10 de março de 2015

'Dia' à procura de 'logos'


Muita violência, uma verdadeira guerra. A munição provavelmente havia sido arrancada de um antigo caderno de desenhos com giz de cera. O inimigo queria adentrar o meu território, mas forcei meu corpo contra a porta até conseguir trancá-la. O anúncio era simples, mas causava uma comoção enorme em mim por ser irremediável. Foram meses pensando o contrário, mas ele havia ganho, era menino, era um irmão como meu algoz queria e não irmã como eu desejava. Era ele quem teria parceiro para o futebol e não eu para as bonecas.

Minha estratégia de defesa foi indestrutível, coloquei as mãos sobre os ouvidos e comecei a gritar a verdade que eu queria, bem alto. Mais tarde, minha mãe, ao ver o cenário de guerra instaurado em casa, preferiu ganhar uns meses de paz dizendo que só era possível saber o sexo ao certo após o parto. A casa silenciou e eu voltei a ter esperanças por um tempo, mesmo desconfiada.
Ontem encontrei uma amiga que não via há meses, tínhamos tanto a dizer e ouvir uma da outra. Tínhamos? Pelo menos era o que eu pensava, mas ela me fez lembrar tanto daquela garota jogando o peso do corpo sobre a porta, tapando os ouvidos e gritando alto. Cada assunto iniciado era interrompido pela opinião suprema da minha interlocutora. Cada trecho das minhas falas, devidamente carregados das minhas crenças, precisava ser descontinuado abruptamente. Meu corpo repousou alí, se fingindo de ouvido e concordando com a cabeça e gemidos, vez ou outra. Mas minha mente foi pra longe, foi se perguntar por que será que há tantas vozes sobrepostas, tanta opinião e tão poucos ouvidos - de verdade - atentos para recebê-las? Por que será que anda tão difícil exercer o diálogo, aquele que faz sentidos próprios girarem e tomarem outros rumos quando acrescidos da palavra do outro, aquele que liga pessoas através de ideias, que reúne conhecimentos, que te manda pra casa com muita coisa para refletir dentro da bolsa? E pensando bem não é só o espectro nebuloso que vejo da minha amiga - depois de quase um minuto sem piscar - quem impede que se agreguem “dia” aos seus “logos”. É muito comum encontrar “ouvidos tapados” por aí. As redes sociais estão cheias deles. É preciso falar de si cada vez mais, reafirmar sua opinião tantas múltiplas vezes quanto se renega o entendimento alheio. É preciso ouvir do outro cada vez menos. É preciso ter razão seja qual for o motivo. Eleições, futebol, relacionamentos, crimes, a vida do famoso, tudo precisa ser opinado, propagado e de preferência sem julgamentos opostos no meio do caminho.

Os 24 anos de vida do meu irmão, que me separam daquela menina que queria uma irmã, me fizeram entender que é importante ouvir e que as outras verdades nem sempre são tão ruins, mesmo que a princípio pareçam. Ele não brincava de boneca comigo, ele era meu boneco. Levei na escola, dou conselhos, dividimos gostos parecidos e, pasmem, ele torce para o meu time e não para o do irmão - que tratou de ter outras congruências com o caçula.

Se nada valeu para a menina berrante tapar os ouvidos, valeria para ela ou qualquer um passar a vida inteira insistindo nesse grito, independente de quais fossem as contrariedades do momento? Vale para quem calou-se dos berros até esse ponto do texto alguma reflexão? Se sim, acho que diria: sempre há tempo de ouvir as outras vozes, de falar em outros tons, de fazer um coral, de impulsionar o giro de suas ideias e promover o encontro dos seus "logos" com o "dia".

15 de maio de 2014

Baseado em incertezas



Hoje eu amanheci viva. E presumo que você, que está aí lendo esse texto, também. Ontem à noite - depois de enfrentar um dia bem corrido e, infelizmente, bem típico -, eu não poderia dizer que com certeza acordaria no dia seguinte. Mas sim, hoje sim, assim como ontem, acordei, amanheci viva. Sei disso porque me movimento para debaixo das cobertas, ao passo que minha mente tenta gerar algum impulso físico a fim de me expulsar da cama para o quarto, para a casa, para a rua, para a vida.  Além disso, vejo a cortina dançando a dança dos ventos, sinto o cheiro do café da vizinha, ouço os barulhos das manhãs em prédios com vão – do choro do bebê ao ronco do senhor, cada um com seu tom e volume, por vezes atenuados pela distância dos andares.

Já se passaram sete horas desse dia que acordei viva, e nas próximas 17 horas nada pode ser tão certo quanto a inspiração e expiração que pratico nesse instante. A tomada da cafeteira está há tempos com um fio desencapado, será que a casa se incendeia enquanto tomo banho? Mas o banho é em chuveiro a gás, será que o gás vaza antes do fio entrar em curto-circuito? Se bem que aquele tapete no caminho para o banheiro está escorregadio, se o caso for um acaso assim acontecer, quem sabe não tropeço?


Vencidas as etapas em casa, passo por perigos maiores ao sair na rua. Já começando pela portaria, já pensou se o porteiro estivesse rendido por bandidos? E essa corrida que eu dei para pegar o ônibus bem na calçada de pedras portuguesas? Que risco eminente! Pequei o ônibus mais perigoso da região. Dizem que a cada dez pessoas que utilizam essa linha, pelo menos uma é assaltada. Seria eu a sorteada hoje? Li em uma manchete na banca, bem rapidamente, enquanto parávamos em um ponto, que o índice de desemprego aumentou muito nos últimos tempos. Poderia eu estar prestes a perder o meu?


E o dia seguiu repleto de incertezas. O perigo estava ali o tempo todo. O espinho do peixe; o carro saindo da garagem; a topada na mesa; a ida ao banco; o sinal que abriu rápido demais; o andaime bem acima de mim; o vão do metrô; o garoto se aproximando com cara de poucos amigos; o chão molhado; a ligação, devidamente recusada, de um possível pretendente; o porteiro que, novamente, poderia estar rendido; e, enfim - ufa! - minha casa. Os perigos não param aqui dentro, e ainda faltam três horas desse dia que acordei viva.


Mas o maior perigo aqui, está dentro de mim.  Por mais que meu sangue pulse, minha respiração percorra seus caminhos, minha pele esteja quente, meu corpo esteja abrigado e coberto, é esse medo das incertezas que insiste em jogar na minha cara bem na última hora do dia, que não, hoje não, assim como ontem, não acordei, não amanheci, não amanheci viva, não vivi. Quem sabe amanhã? Será que acordo cedo para isso? Será que acordo?

24 de março de 2014

O pássaro, o homem e as grades

Não gosto de gaiolas. Nunca gostei. Nem mesmo em decorações floridas e iluminadas, ou nessas estampas, com portas abertas, sugerindo uma explosão de liberdade ao som de Freendom em forma de camisetas fofas. Simplesmente porque se existe gaiola – com ou sem flores, aberta ou não – já houve uma prisão, ou a intenção de aprisionamento. Mas aquela gaiola especificamente, pela qual eu passo todos os dias, me intriga e me comove.

Presa a uma marquise embolorada, de um edifício antigo cheio de apartamentos, em um ponto bem alto de uma das calçadas mais movimentadas de Copacabana, a gaiola em questão, abriga o pequeno e agitado pássaro do porteiro. Exposto aos ruídos e poeira, sob os olhares atentos do seu dono, o bicho, se mostra cúmplice e ajudante, piando e se movimentando sempre que um morador se aproxima do portão, como se essa atividade fizesse parte de sua função vital.

A cena não parece incomum e, por isso, a ave e o porteiro quase se camuflam no anonimato de seus papéis, praticamente despercebidos pelos milhares de transeuntes que circulam por ali todos os dias. Apesar disso, o que faz desse quadro interessante para mim é que os dois, além de serem companheiros de labuta, coexistem na estreita relação entre suas vidas, as grades e a dúvida se elas os protegem ou aprisionam.

Sempre ali, todas as manhãs, um a contemplar o outro e a dividir os medos, os pios, as buzinas, a poeira, a fumaça, os horários para comer, os momentos para receber moradores, o silêncio de palavras humanas, a ausência de olhares e uma solidão devidamente acompanhada, tanto para bicho, quanto para homem. Talvez faça com que ambos dividam também o mesmo sonho, o de ter uma rotina menos programada, ou de viver longe das grades, quem sabe eles queiram mesmo poder voar por aí? Ou, simplesmente, nutram o desejo de continuar assim, como estão: executando com perfeição suas funções em equipe, nessa estreita e harmoniosa relação entre pássaro, homem e grades.

10 de março de 2014

Talvez



Se voar sem ter asas, talvez seja céu
Talvez seja seu
Talvez, sendo céu, não mais seu seja

Se pensar que pode ser céu, apenas quem voar longe almeja
Talvez seja
Talvez, para ser seu céu, é preciso saber pra onde voar

Se quiser saber quanto voo cabe dentro de si de uma só vez
Talvez

27 de janeiro de 2014

Onde está a felicidade?


Na TV - com voz e música de mistério - a seguinte chamada: A busca pela felicidade: uma saga, com muitos obstáculos, enfrentada na atualidade. Nas revistas a seguinte manchete: Você é feliz? Nos últimos anos, cada vez mais pesquisadores têm tentado descobrir o que faz as pessoas felizes. Nos anúncios a seguinte mensagem - mesmo que subliminar: Compre esse apartamento/viagem/creme/roupa/eletrônico/tratamento estético, sorria e seja feliz - como essa moça linda da foto. Nas redes sociais: Tenha um amor lindo como o meu, frequente os restaurantes que eu frequento e exiba sua beleza nas fotos – com muito filtro – e quem sabe você não consiga parecer mais feliz!? ;-)


Bem, então vamos ver se entendemos a receita:


1) Leia as pesquisas: Você não vai questionar a credibilidade de dezenas de pesquisadores que acompanharam de perto como as pessoas felizes se comportam, certo? Veja tudo que essas pessoas fazem em sua rotina, não importa se você terá que adotar comportamentos completamente diferentes da sua personalidade. Estamos na era da padronização, lembra? Se você tiver que ser igual a alguém que seja igual às pessoas felizes, não é mesmo?

2) Compre, não importa o que você faça: a etapa da compra, do "ir para meu carrinho", do "efetuar pagamento", tem que fazer parte da rotina de uma pessoa feliz. Mulheres que saltam na praia de felicidade compram biquínis caros, fazem tratamento estético, clareiam os dentes, passam protetores caros e hidratam muito bem o cabelo. Você não acha que vai chegar na praia saltando de felicidade, pura e simplesmente, e vai sair tão bem na foto assim, né?

3) 
Pronto, chegamos num passo muito importante "sair bem na foto". Porque afinal de contas, não importa tanto se você realmente é feliz. O que importa mesmo é se você sabe demonstrar sua, tão duradoura e plena, felicidade para as pessoas. De que adianta ter um dia feliz se ninguém vai saber e se quem tanto te inveja não ver sua vitória? Se não tiver parecendo tão feliz assim, nada que uns óculos de sol, uma saturada nas cores da foto e uma legenda declarando amor a alguém não resolvam. 

4) E, acima de tudo, você deve "buscar" a felicidade. Sim, vista-se em seu melhor estilo e passe a buscar lugares felizes. Seria na boate Nova Night, no restaurante Nova Paris, ou quem sabe na Nova Zelândia, em Nova Jérsei, em Nova Iorque, em Nova Iguaçu? Não faz diferença, o que importa é que a felicidade sempre está em um novo lugar que não o que você esteja nesse momento.

Pronto, depois de seguir todos esses passos você vai se sentir cansado, mas isso não tem tanta importância, o fato relevante disso tudo é que você é um guerreiro, que luta com obstinação para parecer ser uma pessoa feliz. 


Mas, anote aí os passos mais importantes de todos: não procure a felicidade nas pequenas coisas; não se delicie com o vento bagunçando seu cabelo num passeio de bicicleta; não sinta prazer em cozinhar um prato simples para quem você gosta; não descubra o encanto das viagens curtas; das caminhadas longas; da cerveja gelada num dia de calor; de umas boas gargalhadas entre amigos. E acima de tudo, nunca, jamais, em nenhuma hipótese acredite que a felicidade de quem você ama pode te fazer mais feliz que a sua própria felicidade. Escapando dessas tentações você está apto a parecer feliz. Mas não descuide, num deslize desses, você pode acabar sendo feliz de verdade e ah... Essas pessoas felizes, viu? Ocupam-se mais em viver do que em parecer. 

29 de outubro de 2013

À esquerda das maravilhas


No ônibus: Lado direito disputado, mesmo com sol, é ali que se pode observar durante a viagem – que com o trânsito que está hoje (e quase sempre), será longa – a cidade maravilhosa e sua orla, o vigor das ondas, a agitação da espuma branca, o conforto da areia fofa, a beleza do cenário, a expiração dos atletas de um dia, a tranquilidade da repetição de movimentos do praticante de SUP, a calma das senhoras caminhando, a vontade de ter outra rotina, de saltar e ir ser um deles. Ali, a cidade respira, a natureza disfarça seus esgotos, os pequenos furtos perdem espaço para a bossa nova ao vivo, que vem do próximo quiosque. Ali, os gringos fotografam, enquanto possuem câmeras; os turistas de outros estados se extasiam; os moradores superlotam seus instagrans, e se sentem compensados por todo tempo e dinheiro despendidos na gincana diária enfrentada para ver e viver tudo isso - nem que seja pela janela direita do ônibus.

Mas não se atrase, não dê a frente na fila para uma idosa ou para o moço com muitas sacolas, gentileza gera um longo período de pé, ou, na melhor das hipóteses, um lugar do lado esquerdo. Nesse lado, as pequenas lojas fazem descontos ainda em órbita, enquanto as imobiliárias anunciam valores fora da estratosfera. Nesse lado, tem promoção de salgado com refresco para quem se atrasou, tem também as mobílias dos sonhos para compor aquele apartamento anunciado logo ali. Nesse lado, tem meninos com suas garrafinhas de cola e tem moradores de rua aproveitando o calorzinho matinal para dormir o sono que a noite fria e, talvez, o uso de drogas pela madrugada afora, não permitiram. Tem também os cachorros das madames encontrando os tão sonhados postes, sob a tutela de seus passeadores particulares. Os pequenos furtos também acontecem ali, mas são ofuscados rapidamente pela imagem das portas de vidro do banco estilhaçadas na manifestação de ontem. Tem até a intervenção do passageiro, capaz de interromper a música no fone para se pronunciar: Vândalos, bandidos mascarados, destruindo nosso patrimônio!

Desse lado a cidade mostra suas entranhas, suas veias entupidas, seu colesterol alto, e seu povo compondo o sangue que corre por ela - muito mais venoso que arterial. Falta oxigênio. Faltam respiros e reflexões. Falta sair do ciclo cada vez mais rápido, e que de tão rápido e necessário te rende, cada dia mais. Falta pagar o resgate da sua alma sequestrada. Falta descobrir como pagar o resgate da alma sem deixar de pagar o aluguel. Falta sonhar com o que se faria estando de posse da alma. Berraria, saltaria e faria a revolução? Faltaria quem acompanhasse? Uma senhora surpreende meus devaneios, usando um elevado tom de voz para pensar alto. Teria ela resgatado a alma que faltava? De volta à realidade ouço a frase se formar aos poucos: “Nossa, olha como estão boas as ofertas de aniversário desse mercado!”. E então, já direcionando seu discurso à passageira ao lado, completa: “Talvez na volta eu desça aqui para esperar o trânsito melhorar”. Assim, a senhora, provavelmente seguirá para casa mais tarde, do lado que for do ônibus, entre cochilos e sacolas, se sentindo revolucionária por ter feito a feira mais barata dos últimos meses. E quem há de dizer que ela não é?

28 de agosto de 2013

Sujeito a mudanças



Era aniversário de Sujeito e ele havia escolhido uma meta para seu novo ano de vida. Sujeito queria ir fundo no sentido da palavra mudança. Decidido a radicalizar, Sujeito foi às compras, mudou totalmente seu estilo. Aproveitou e passou no barbeiro, tirou os - desde sempre - bigodes, mudou o corte, arriscou uma tintura. Sujeito e suas sacolas foram então visitar imobiliárias, havia chegado a hora de dar o passo definitivo para consolidar sua transformação: mudar-se de casa.

E não foi nada fácil, entre os entraves das altas taxas, impostos, comissões, ainda havia a escolha do novo. Um novo bairro, uma nova disposição de cômodos, uma nova vizinhança. Depois dessa fase, Sujeito julgou ser mais fácil o restante do processo, afinal, não era mais preciso fazer escolhas. Em poucos minutos, diante da primeira caixa a ser preenchida rumo ao novo apartamento, Sujeito percebeu o tamanho do engano. As escolhas estavam só começando. O que levar para o novo? O que só está ali na prateleira há anos por apego? Do que eu realmente preciso para viver?

Depois vieram mais dúvidas. Aquelas paredes estavam pintadas há tanto tempo. Que cores me representam hoje? Que móveis eu preciso de verdade para me dar suporte no dia a dia? Há quanto tempo estão desocupadas as outras cinco cadeiras da mesa de jantar, além da minha? Ali, parado no meio da sala com suas caixas, Sujeito entendeu que não estava de mudança como imaginava. Afinal, percebeu-se preso aos seus costumes, hábitos, rotinas, egoísmos e comportamentos programados que nem mesmo lembrava de onde tinham vindo.

Sujeito e suas caixas estavam diante de outro desafio. Essa sim, a verdadeira mudança, seria difícil e provavelmente culminaria na dispensa de alguns de seus pertences e condutas que trazia em suas caixas. Pensar fora da caixa era essencial para iniciar esse doloroso processo. Doloroso sim, porque Sujeito estava abrigando seus males há tanto tempo, que eles não queriam outra morada, já haviam até se acostumado com a vizinhança e com as ocasiões em que eram acionados.

Sujeito compreendeu que mudar não é nada fácil, mas que nos primeiros dias dedicados a isso já era possível constatar o quanto seria bom ver o mundo e a si de outra maneira. Sujeito viu como era bom mudar de opinião, mudar de prioridades, mudar de emprego, mudar de ideia, mudar de caminho, mudar a rotina, mudar os comportamentos, mudar aquela velha opinião formada sobre tudo. E o que mais instigava ele era saber que as mudanças nunca chegariam ao fim. Aos que questionavam sua transformação, ele tinha uma resposta pronta: “Sou o que sou mais o que faço para mudar o que sou”. E assim seguiu a vida de Sujeito, à partir de então sempre sujeito a mudanças.

7 de junho de 2013

Vai Berenice, vai!


Berenice gostava muito dos verbos amar e ser, mas não percebia que nunca os usava na mesma frase. Com o primeiro ela podia amar os objetos diretos mais pertinentes para cada momento. Amava seu gato Pasqual; amava música antiga; amava beber vinho e ficar com a boca roxa; amava ser livre para amar o que bem entendesse. Com o outro verbo, Berenice - segura como só ela sabia se fazer parecer -, era! Berenice era tanto, era muito, era invejada por tanto ser e de tanto ser sem ser, Berenice ia.

Esse último verbo, o ir, não estava na lista dos preferidos de Berenice, mas com certeza estava entre os mais conjugados. Com ele, Berenice podia ir aonde quisesse, e ela gostava mesmo de ir. Sempre dizia "Me chama que eu vou" e lá ia Berenice, lá vai Berenice, já foi Berenice.

Certo dia, Berenice, se entregou a uma reflexão que teimava em aparecer vez ou outra: sentia falta mesmo era de dizer em alto e bom som o "ser" no presente do indicativo seguido pelo "amor" adjetivado no feminino na mesma frase "sou amada". A controvérsia é que Berenice não amava ser. De tanto não amar ser, Berenice preferia ser o que não era de fato. E de tanto não ser o que era de fato, Berenice precisava sempre estar indo. E quem sempre vai não fica; não para; e não volta; não se deixa amar; não é amado.

Decidiu então ir a um antigo endereço, ao qual jurou há tempos não mais voltar. Parecia o único lugar no mundo em que conseguia ser e amar em todos os tempos verbais. Vestiu-se de si, por dentro e por fora e foi. Depois desse dia não vi Berenice novamente e não sei se sua reinvestida ao passado deu certo. O fato é que aqui, onde ela sempre passava indo a algum lugar, com pernas firmes de quem sabe aonde vai e olhos marejados de quem está perdido, ela não voltou mais. Elegi na minha imaginação um final para Berenice. Na minha história, dentre outras coisas, escolhi que ela nunca esqueça que quem ama sem ser e quem é sem amar está sempre indo para lugar nenhum. E o final da sua história, como será?

28 de maio de 2013

Senso: o incomum


Senso já nasceu com personalidade marcante. Desde criança dava indícios de que iria corresponder perfeitamente às expectativas de seus pais: ser um homem sábio e com uma capacidade extraordinária de fazer escolhas.

Ainda na escola, Senso era incomum. Fundou o grêmio, lutou pelo passe livre para os estudantes, se interessou por bandas jamais ouvidas, se vestiu de maneira exótica, fez da sua cabeça palco para um espetáculo dos mais diferentes penteados, cortes e cores. O rapaz sempre foi muito crítico e inquieto, não suportava os padrões pregados pela sociedade, não se conformava com respostas prontas.

Mas, depois dos tempos de anarquia plena, Senso precisou arrumar um jeito de sobreviver. Foi então que teve a grande ideia: fazer da sua veia cômica seu ganha-pão. Em pouco tempo era sucesso de público o show Senso de Humor e o jovem talento se orgulhava por poder zombar do senso comum com o consentimento assinalado em forma das rizadas tanto de quem se reconhecia ali, quanto de quem se dizia longe daquele modelo.

Senso fez sucesso por anos na carreira de comediante, e o que mais o orgulhava era a posição de prestígio que ocupava entre o senso comum e os homens de bom senso. Quando estava no auge, a AEPBS (Ala da Esquerda do Povo de Bom Senso) passou a ter Senso em sua mira. Era preciso investigar: como podia o contrassenso de um integrante da Ala estar ganhando dinheiro fazendo graça com a desgraça que é não saber fazer as próprias escolhas?

Senso percebeu que sua posição de destaque já não o interessava mais. Percebeu que aos poucos ia abandonando seus planos e suas convicções para chegar ao topo, e o topo talvez nem fosse o melhor lugar. Desiludido, desfez sua equipe, cancelou os shows e se candidatou à vaga de carimbador no Cartório Central.

Senso passou a perseguir a homogeneidade com obstinação: desde a distribuição perfeita do tom de azul da tinta do seu carimbo nos mais diferentes documentos, à uniformidade com que os seus horários eram preenchidos, com que seus pratos eram servidos, com que seu descanso era vivido. Depois de uma vida na contramão, Senso finalmente se tornou comum, sente-se pertencente a um grande grupo, leva uma vida tranquila e o único medo capaz de assombrá-lo é o medo de voltar a querer o que verdadeiramente deseja.

20 de fevereiro de 2013

O monte



Da areia úmida que sentiu há algumas horas o toque salgado do mar, gostava de fazer um monte. Todos os dias após a caminhada matinal contemplava a vista juntando entre as mãos o seu monte. Enquanto moldava o monte pensava em tudo que gostaria de aglomerar, assim, no mesmo espaço físico, no mesmo monte. 

Aliás, monte era uma palavra que gostava muito. Tinha um monte de amigos, um monte de primos, um monte de planos, já havia lido um monte de livros, visto um monte de filmes, conhecido um monte de lugares, tinha um monte de histórias para contar e, se pudesse, juntava todos esses montes em um monte só na palma da mão.

Mesmo sabendo que era impossível ter ao alcance das mãos um monte com todas as pessoas, momentos e experiências – boas e ruins – que a tornavam o que era: uma pessoa de verdade, dessas cheias de defeitos e qualidades. Sabia que carregava na alma, na pele e na memória esse monte. Pela posição da sombra produzida pelo monte de areia, soube que era hora de ir para casa, e seguiu tranquila, pois sabia que mesmo que uma onda forte passasse ali, o monte sempre existiria e seguiria sendo o singular de todos os seus plurais. 

7 de dezembro de 2012

Porta aberta


Abotoo a camisa; amarro o cadarço; prendo o cabelo; atarraxo o brinco; afivelo o cinto; ato o nó da pulseira; bloqueio o celular; fecho a bolsa; tranco a porta; aperto o cadeado; e vou te encontrar.

Saio com a certeza de que, por mais que me prepare para o seu olhar - abotoando; amarrando; prendendo; atarraxando; afivelando; atando; bloqueando; fechando; trancando; apertando – ele é a única coisa que não pode ser aprisionada e é também a única coisa que eu quero nesse instante.

Amo você assim, na lembrança de que antes do seu olhar todo esse enredo parecia sem desfecho; na certeza que eu só possuo esse olhar no momento que ele acontece; e na constante expectativa para os próximos olhares seus, mesmo sabendo que não há botão; amarra; presilha; fecho; tarraxa; fivela; nó; laço; cadeado; fechadura, que os garantam. E talvez essa seja toda a graça. 

23 de novembro de 2012

Quase nada


se pouco
é quase nada
se muito 
é quase tudo

pouco importa
importa quase nada
se pouco a pouco
tem um pouco

quase nada 
de quase tudo
quase sempre
é muito no final

10 de outubro de 2012

Andança

Para ler sem hora marcada




Uma perna corre paralelamente da outra em um movimento apressado e rítmico como se tivesse o poder de se transportar para qualquer lugar mais distante de sua complementar que o corriqueiro um metro. Cada outra parte do corpo, cada fibra muscular, sem entenderem muito bem porque, se esticavam até onde pudessem para chegar primeiro ao local das horas marcadas. Escapando por um triz da porta se fechar, estranhavam o movimento do corpo de baile. Joelhos amortecendo rompantes; pernas traspassando em busca de equilíbrio; figurinos distintos e desconexos; e um palco em movimento.

Quando o corpo descansa em uma ausência de movimento: é preciso saltar, é preciso desviar, é preciso esbarrar, é preciso se afirmar corpo para se firmar nas leis inventadas há tanto tempo e acreditar que outro igual não poderia ocupar o mesmo lugar – mesmo muitas vezes ocupando. Há tanta vontade de ser o corpo da frente que se o estalar das juntas fosse um pouco mais perceptível aos ouvidos, nesses lugares da pressa das horas marcadas, teríamos verdadeiras orquestras se apresentando involuntariamente.

Existem os objetos solidários que, ao verem tamanha correria, chegam a suplicar em linhas retas e diagonais para os corpos descansarem. As escadas se movem, o chão se move: para frente, para cima, para baixo. Mas os corpos não param de se mexer. No lugar das horas marcadas não existe trégua. Nem nos dias em que as horas se atrasam, ou simplesmente descansam, os corpos conseguem praticar a inércia e o livre caminhar. É como se o tempo sempre fosse um vento contra o corpo, um anticorpo, que precisa ser vencido. 

Em meio a esses corpos, um ingênuo joelho se dobra até quase tocar o chão para assim proporcionar o impulso de um dos braços, que em uma alavancada recolhe a moeda que havia caído. Nesse gesto todo o balé se desconcentra: quem vem de trás, e já conta os segundos das horas marcadas, teme as frações de tempo demandadas por esse desvio de obstáculo. O pobre joelho já se arrepende por quase ver seus membros companheiros pisoteados por alguns centavos. E se estica rapidamente contabilizando a ironia de que tamanha correria dos possíveis corpos pisantes também se deve a alguns centavos ganhados e perdidos em troca das tais horas marcadas.

25 de setembro de 2012

De carne e fantasias


Um antebraço repousado sobre o parapeito, o outro funcionando como suporte para o queixo. Ela não se importava em passar o anoitecer nessa posição. Sabia bem que a pele dos cotovelos fora feita com qualquer coisa morta especialmente para dor alguma interromper seus momentos de sonhar acordada. A essa altura não se lembrava mais do que aprendera na escola, não sabia se eram as mitocôndrias que não conversavam direito com os ribossomos, ou se o complexo de golgi estava precisando fazer terapia e por isso essas células não esboçavam sinais vitais. A única certeza era a da importância desse apoio para sustentar a cabeça em algo que fosse sólido, pois todo o resto que passaria dentro dela não seria palpável, pelo menos não nesse momento.

A noite sucumbia, as estrelas cintilavam e as janelas se fechavam, quando então a moça sentia agradecida o redemoinho no peito, como se o ar aos rodopios insistisse em ser expirado para comemorar por aí mais momentos de sonhos. E assim terminavam os dias dela, que continuava não entendendo o porquê do tal cotovelo, que tanto lhe proporcionava quimeras sem reagir, era apontado pelos outros como a parte do corpo que doía com os desapontamentos. Talvez a imaginação àquela altura estivesse tão entrelaçada às decepções para tanta gente que eles sentiam dor onde havia sonho. Não sabiam eles que a dor de não sonhar poderia ser muito maior em longo prazo; a dor de não ver os sonhos se tornarem reais; a dor de receber da vida tudo que não fora inventado por si, tudo pronto como decidido fosse pela grande maioria; a dor de só existir na realidade e não na ideia.

Diante dos que insistiam em dizer-lhe que a terra era feita por acontecimentos concretos e que, por isso, deveria ser habitada por gente de carne e erros, ela nunca se intimidou. Acreditava que era na vontade de acertar que residiam os sonhos, assim como era na possibilidade dos erros que os acertos existiam. Sonhava seus sonhos só, sabendo que a chance deles serem reais seriam maiores se tivesse ao seu redor gente de carne e fantasias. Se as fantasias por fim fossem erros, que se acreditasse nelas até se mostrarem o contrário. Imagina quanta fantasia com potencial para ser realidade se tornou erro apenas por não encontrar quem as imaginasse? 

17 de setembro de 2012

Oração contemporânea


Imagem Claudia Rogge

Assista novelas, não banque a Tieta
Recorra à autoajuda e a etiqueta
Se molde, se lance como tem que ser
Segure-se e force - não deixe arder
Esqueça que pode o todo mudar
Ouça o refrão que vai te educar
Ordene seus músculos, controle o instinto
Siga devagar mesmo que faminto
Não rasgue, não grite, não deixe escapar
Seus medos, seus sonhos, o que quer falar
Execute o ofício com ritmo preciso
Camufle o que quer, se mostre indeciso
Sufoque a vontade de sentir prazer
Se morda, se amarre, esconda o querer
Respeite a hora de desligar a mente
Se estampe feliz; seja convincente
Verifique, à noite, se fechou a porta
E agradeça mais um dia de vida morta

15 de agosto de 2012

Os fins justificam os começos




A fumaça fazia o ar ficar denso e ao mesmo tempo rarefeito, estabelecia um balé de tórax ofegantes, ao mesmo tempo em que, suprimia muitos pudores que ainda insistiam em sair de casa à noite. Os personagens noturnos são muito diferentes dos atores que os interpretam, esses geralmente vivem sem a dramaturgia durante a luz do sol. Cada um com a sua história de fins e começos. Cada um procurando manter ou pontuar um dos dois estados em que a vida sempre se encontra, cada um com sua aflição e seu encanto. 

As cabeças chacoalhantes não pensam o quanto esses ciclos são constantes, dos donos delas poucos são os que reconhecem que atêm seus fins por medo do novo início que vem na sequência. Mas os fins são sempre os sopros de começos, foi o fim da gestação que fez, de todos ali, vivos; foi o fim do amor que fez aquela se arrumar e conhecer gente nova; foi o fim da bebida que fez aquele pedir outro sabor; foi o fim do que podia ser dito que fez aqueles se beijarem; foi o fim das músicas que fez o cantor seguir viagem em outra estrada.

E se esses assombros que o fim provoca pudessem ser decretados proibidos, a parte cristã das cabeças chacoalhantes diria que a sua fé teve origem na morte de seu Deus, outra parte diria que a sua liberdade veio à custa do sangue dos que lutaram por ela. Sem compreender que os fins estão sempre por aí se preparando para provocar novos começos, a terceira parte continuaria chacoalhando a cabeça, até o fim da noite que se dá no minuto que antecede o começo do dia.

13 de julho de 2012

Bartolomeu o gato preto


Bartolomeu, seu gato preto, estava sonolento desde cedo, assim como a dona, que acordara de uma noite que preferia não ter tido fim. Há anos a realidade dos dias era assim pra ela, uma torcida pela chegada das horas livres, das noites, dos feriados, dos finais de semana. No entanto, mesmo reconhecendo toda a beleza dessas horas e de quem a fazia ansiar por elas, não eram suficientes para preencher o peito o resto do tempo. Cristina se sentia culpada por isso, seria possível implantar amor nas entranhas? Poderia criar uma pílula que prolongasse o sentimento para as horas que seu emissor estivesse longe? Conseguiria reverter a efemeridade que vivia? Bartolomeu riu, juro que riu, um riso irônico de quem debocha do humano que fala só, e até mesmo, um riso de quem sabe as respostas que Cristina não encontra.

Aliás, encontrar nunca foi o forte de Cristina, como não bastassem os óculos que perdia todas as manhãs, não encontrava a ponta do lacre para abrir os biscoitos recheados, não encontrava seu casaco cinza que combinaria mais com o look do dia, não encontrava sua vocação, não encontrava seu amor. E como se não fosse suficiente não encontrar tudo isso, Cristina se sentia culpada com o biscoito sem recheio que estava aberto, com o casaco preto que combinava com tudo e estava sempre no cabide próximo à porta, com o seu trabalho que lhe dera tudo que tinha, e com o seu companheiro que se esforçava tanto para ser o melhor que podia. Era como se quase tudo que procurasse pudesse estar ali o tempo todo, ou como se as coisas que encontrara fossem quase tudo o que queria. Como se estivesse procurando incansavelmente os óculos para enxergar de perto enquanto os óculos para enxergar de longe estivessem apoiados na cabeça. “Afinal, porque precisamos ver tudo pelo detalhe? De longe minha vida parece perfeita”. Refletia ela.

A culpa dominava Cristina, parecia que nada era suficiente para alegrá-la. Punha-se a perguntar se estava contentando-se com pouco ou se estava querendo demais. E essa questão nunca tinha resposta certeira. A não ser para Bartolomeu, que a observava comendo seu biscoito sem recheio com café, apanhando o casaco preto no cabide enquanto saía para o trabalho combinando, ao celular, um encontro para a noite. Bartolomeu já estava na sétima vida e sabia muito bem que o “quase” nunca é exatamente o todo, e que a sensação da quase felicidade não é nem de longe parecida com a sensação da felicidade plena. 

5 de julho de 2012

Quem não se comunica se...



Estrumbica: palavra que vem do latim Ex trubic que sugere algo extremamente pernicioso. Ou seja, quando alguém disser que você se estrumbicou, está querendo dizer que algo nefasto, desgraçado, maléfico, nocivo, prejudicial lhe aconteceu. No português mais moderno e coloquial: você se fudeu. Claro, nesse momento você está se lembrando do mestre Chacrinha com o velho dito “Quem não se comunica se estrumbica”. Sim, quem não se comunica se fode, e se fode no sentido mais pernicioso – já que assim disseram - da palavra, até porque para o outro sentido você vai precisar se comunicar de alguma forma. Esse enredo inicial todo foi só para apresentar para vocês nossos três personagens: Ullysses, Clara e Beto.

Ullysses já tinha o problema de comunicação grafado na certidão de nascimento. Sempre que se apresentava para alguém repetia seu nome algumas vezes, quando precisava soletrá-lo era pior. Há 24 anos, desde que se alfabetizou, o rapaz descrevia as letras e os objetos relacionados a elas com um tremor interno, acompanhado da imagem mental dos pais rindo, ao o verem ainda bebê, e dizendo “tem cara de Ullysses”. Irritava-se ainda mais quando lhe perguntavam se era para iniciar a escrita com ‘w’. De todas as desventuras que esse nome podia ter - era complicado; tinha ‘y’ fazendo sanduiche com duas vogais repetidas, era tão ingrato que nem apelidos engraçadinhos ele derivava, além de fazê-lo parecer um Benjamin Button pós-moderno tamanha a velhice que o nome sugeria – de todas essas e outras características desagradáveis, NÃO, ele não começava com ‘W’.

Depois de apresentar-se e relembrar todo esse trauma de vida, Ullysses já havia transpirado o suficiente para aparecerem pequenas manchas úmidas pela camisa; a dicção, a princípio suave, havia se tornado um misto de gagueira com língua presa; e nenhuma das palavras que pensara em dizer fazia um curso perfeito entre o cérebro e a língua. Todas as ideias geniais de Ullysses, tudo que ele planejou viver, todas as conclusões que chegou após observar tanto os relacionamentos interpessoais e não vivê-los, todo o estudo, todos os livros. Tudo, absolutamente tudo, era impedido de se tornar concreto pelo simples fato de não ser exposto.

Ullysses era amigo de infância de Clara, e odiava quando ela – ao vê-lo tentando se expressar – utilizava o seguinte gemido em tonalidade crescente: “Aaaaannnn você é tão fofinho nervoso!”. Clara sabia falar, Clara sabia muito falar, Clara sabia muito falar muito. Talvez por isso se devia a amizade com o pobre menino semi-mudo. Mas Clara não sabia ir direto ao ponto, alguns diziam que isso era problema corriqueiro de mulheres e seus melindres, pode até ser que sim, já vi melindres iguais aos da Clara por ai, mas nunca todos na mesma pessoa. Ela sabia de tudo um pouco, de muito nada. Gostava de todos, uma característica de cada um, mas nunca todas as características de um só. “Sabia” o porquê de todas as coisas, e sabia principalmente se comunicar por gestos e frases que significam exatamente o oposto do que representavam. Clara era tudo, menos clara.

Se ela não ligava para alguém, muitas vezes, era sinal de que queria muito ligar, mas precisava provar a partir dessa falta de comunicação que não estava tão disponível assim. Se ficasse muda, coisa rara em se tratando de Clarinha, estava querendo mostrar que precisava dizer o que havia lhe deixado sem palavras, mas que deveriam a perguntar o que acontecera antes dela "derramar" o assunto. Se iniciasse qualquer diálogo com a seguinte frase “Eu não quero brigar” era fato que a terceira guerra mundial se aproximaria em instantes. Adorava uma ironia. E mesmo com essa comunicação tão rebuscada, Clara havia encontrado um intérprete para o seu idioma. O seu eterno ex-atual-futuro-namorado, pra quem sempre voltava e “desvoltava”, Beto.

Tá certo que muitas vezes Beto se passava por compreensivo, enquanto dedilhava seu Iphone embaixo da mesa, consultando as polêmicas que rondavam o Twitter. Mas ele devia ter muitas qualidades além dessa. Beto podia ser definido como “o cara” popular na faculdade, admirado no trabalho, conhecido no bairro, querido na família. Ele tinha mais de mil amigos nas redes sociais, milhares o seguiam, dezenas o marcavam, centenas o curtiam, mas poucos o conheciam. Também, pudera, Beto vivia sempre um paradoxo: quando encontrava seus amigos pessoalmente, estava em digitação constante de frases de efeito, postava fotos dos drinks, fazia check in, conferia temas dos assuntos da mesa no Google, citava todos os virais do momento; Já quando estava distante dos amigos usava as redes para postar fotos antigas, declarar a saudade, compartilhar com eles vídeos que remetiam a tempos remotos e finalmente marcar outro encontro, no qual ele estaria, claro, conectado com o virtual, e desconectado demais da vida real.

Os três personagens tinham em comum o motivo daquela introdução lá no início: a dificuldade de se comunicar e a facilidade em se estrumbicar - se fuder. Nenhum aparato é suficientemente facilitador da comunicação, porque sempre é manipulado por um humano, naturalmente, “dificultador” da comunicação. Talvez se déssemos menos voltas; talvez se existissem menos aparatos; talvez se conseguíssemos dizer, de fato, o que queremos, o que pensamos, o que sentimos; talvez se cada um de nós se propusesse a fazer isso, seria tudo melhor; ou talvez, seria tudo sem graça demais.

Obs.: A propósito Ex trubic não existe – foi ironia.

25 de junho de 2012

Quem fala? É da Terra?

Deu um suspiro de espanto ao notar quão arenoso era o chão da lua, e como era bonito admirar a terra de longe. Não se sentia assim desde que acordara no meio da madrugada na casa de estranhos. Será que os marcianos ainda estavam lá pelo globo azul? E seus amigos teriam escapado? Não fosse o meteorito ter partido tão depressa conseguiria dar uma carona para o Léo. Léo era desses que inflava o peito pra mostrar sua coragem, e o resultado dos hormônios artificiais no seu corpo, mas chamava a mãe por qualquer resfriado. Imaginou o sufoco do rapaz diante do ataque alienígena, mas ainda assim, agradeceu por ele não estar na garupa quando a madrasta ofereceu alfajor havana envenenado. Seria mais difícil para ele resistir, do que foi para ela. Maçãs não eram mais proibidas, não atraiam mais mocinhas que viviam de dieta na luta pelo novo estereótipo de beleza que pairava na terra, e a bruxa sabia muito bem disso.

Ela saltou crateras até encontrar a passagem que saía em Machu Picchu e achou ótimo, pois sabia da rincha entre os marcianos e os Incas. Lá ela estaria protegida. Se o Léo conseguisse chegar a São Tomé das Letras e pegar aquele atalho dentro das grutas eles poderiam até fazer um piquenique na Republica do Peru até a terra voltar ao normal. Mas ele não tinha essa coragem... Não andava nem de metrô por causa do pânico de ficar embaixo da terra. Será que os homens marcianos eram mais destemidos? Será que eles aceitavam amar, se relacionar, com menos medo que os humanos? Começou a cogitar um contato imediato. Mas logo pensou que verde não era lá sua cor preferida.

A caminho de Machu Picchu, encontrou umas amigas do movimento feminista que haviam falado com a líder marciana. Espantou-se ao saber que a mulher marciana não era julgada pelas roupas que vestia. Que se acontecesse algum ato de violência com elas a culpa era toda de quem o cometeu e não delas mesmas por terem provocado. Achou as histórias incríveis, pensou em aproveitar o feriado de 7 de setembro para conhecer o planeta. Quem sabe assim, não arrumava motivo melhor para comemorar a independência, pois essa que era alardeada aqui há quase dois séculos não fazia jus ao nome. Servia apenas para se libertar da cor de gesso adquirida no inverno e se aprisionar no engarrafamento da região dos lagos no Rio de Janeiro.

Encontrou um balão que a levaria até a patagônia e achou melhor mesmo diversificar o programa. Já em terras frias teve medo por não estar acompanhada, e pensou no quanto lhe havia sido imposto, por todos esses anos, que solidão sempre deveria vir acompanhada do medo. Viu um vulto se aproximando e um barulho crescente que chegou a ficar ensurdecedor “TANANANà TANANANà TANANANANÔ. Temeu um ataque, pensou que pudesse ser um xingamento intergaláctico. Mas era só seu despertador anunciando que mais um dia começaria, e que as aventuras apresentadas por ele girariam em torno de enfrentar o metrô cheio, a pilha de trabalhos na mesa, a fila do supermercado, as teias de aranha no teto, as roupas sujas e a contagem dos minutos até poder sonhar novamente que faria e seria quem quisesse.

3 de maio de 2012

Dois... Apenas meios?



Afrânio sempre admirou grampeadores: as molas; as alavancas; as curvas perfeitas que serviam de molde para o objeto que com um empurrão deixa de ter três lados para se tornar uma linha reta em duas dimensões de um conjunto de papeis. Era como se as folhas grampeadas ganhassem sentido após a união, ficava explícito para todo e qualquer observador que aquele calhamaço era filho de um só assunto, além da ordem do pensamento do autor estar protegida pela sequência em que as páginas foram fixadas. Admiração parecida, ele só nutria por: tampas de rosca; elásticos; e suspiros.

A contemplação se abrangia para os demais objetos, de certa forma, por motivos muito parecidos. A tampa de rosca, mais que qualquer outro tipo de tampa, selava o ajuntamento entre o conteúdo e o recipiente. Não bastava o teor – sólido, líquido ou gasoso – apenas estar ali, se ele podia se esvair a qualquer momento. E mesmo que o objeto tivesse uma função multiuso, naquele instante do enrosco ele renascia para seu conteúdo, era a partir de então decretado o “pote de biscoitos”, a “garrafa de água”, a “vasilha de mantimento”.

Já os elásticos eram simples objetos que se adequavam as mais variadas formas e dimensões dando as voltas que fossem para, também, juntarem unidades. Incrível imaginar que todo o espaço de tempo trabalhado em um mês era recompensado por dinheiros dobrados e agrupados em um só fardo. Aquele aglomerado de notas, unidas pelo elástico até o fim, representava cada minuto de seu tempo servindo, cada hora de lazer que teria, cada migalha do pão que comeria.

Mas os preferidos de Afrânio eram mesmo os suspiros. Não pelo paladar, mas porque suspiros, diferente dos objetos acima, provocadores de uniões, era o resultado de uma união, a mais magnífica que conhecera: clara, açúcar e nada mais. Desde criança quando assistia sua avó cozinhar ficava boquiaberto observando a entrega das moléculas úmidas da clara à doçura do açúcar. Ao passo que a batedeira se movimentava “rrruuunn” um ritmo poético era criado em sua mente. Lembrava (rrruuunn) dos “Dois, apenas dois” de Neruda, que seguiam cursos paralelos e (rrruuunn) talvez só se encontrassem no infinito, pensava em (rrruuunn) como essa coisa de querer se distanciar do que te completa era mania de humano. Clara e açúcar estavam ali entregues “Dois... Apenas um” (rrruuunn) com um simples chacoalhar, e assim seriam por toda a sua efêmera eternidade a partir de então. 

Afrânio passava dias a indagar: por que diabos essa tal junção, amarração, conexão, atrelamento, era tão difícil se dar entre as pessoas. Por que não existe um parafuso, uma maçaneta, um clipes, um grampo, um elástico, uma molécula que faça de dois indivíduos um para todo o sempre? Somente se assim fosse passaria a admirar seres animados como toda vida fizera com os objetos unificadores que conhecia. Mas não era e não podia ser. Porque para o resultado da conta: “Afrânio mais um” ser igual a um ele e o outro teriam que ser meios. Deixando de lado a metade dos defeitos, das qualidades e, sobretudo, das preferências que conservaram por toda a vida. Naquela tarde chuvosa, ao fazer compras na padaria, Afrânio notou que a embalagem nova, de papel pardo, fora grampeada para maior segurança dos suspiros. Sentiu-se feliz por não ter que se separar das suas paixões, e seguiu vagarosamente as carregando pelos braços até sua casa.

20 de março de 2012

Zé maré



Zé Maré sempre se vangloriou por ir de acordo com a correnteza. Jamais remava contra, nunca parava na beira pra pensar e nem cogitava qualquer esforço por algum movimento diferente do que as águas escolhiam para si.
Em tempos que a água mostrava sua força, Zé se sentia igualmente forte, por poder ir com ela por distancias e alturas inimagináveis. Já nos períodos de maré baixa, ele aproveitava pra ter os seus raros momentos de pés no chão.
Zé observava as criaturas com objetivos além d’água e se espantava. Tanto esforço para ter suas crias em terras quentes, ou pra aproveitar os ventos e pegar uma corrente rumo a outro oceano, o fazia se sentir exausto só de acompanhar os movimentos com as vistas. Por que tanta energia gasta? Bom mesmo é deixar que as águas escolham seu amanhã.
Seguindo o fluxo, Zé via seus amores indo e vindo, assim como seus trabalhos, seus amigos, suas preferências, seu estilo, nada permanecia... Tudo era tão constantemente mutável que ele não tinha tempo de se acostumar. E das mais variadas aventuras a única que Zé não se atrevia a conhecer era o mergulho em profundidade. O profundo era algo que ia para o extremo oposto do seu estilo de vida diversificadamente raso.
Um dia, de tanto medo do profundo, e de tanto costume de não fazer movimento, as ondas resolveram brincar com Zé. Ele não sabia que elas podiam ter tanta força ainda que na beira. Zé foi traído pela comodidade de nunca ter feito escolhas. De tanto não nadar, Zé morreu na praia.

24 de janeiro de 2012

A solidez


Olhando aquele casebre bucólico lembrava-se de como ele parecia maior e mais abastado quando seu pai o construiu em seu tempo de infância. Parado por horas a observar tal quadro, pensava no quanto havia mudado sua perspectiva e olhar para enxergar tudo tão diferente com o passar dos anos e em como os caminhos haviam sido generosos o fazendo voltar ao ponto de partida àquela altura da vida. Cada marca nas paredes úmidas, cada pedaço de parede terroso, já sem reboco, cada ferrugem, cada telha escurecida pelo lodo pareciam marcas em sua própria pele.
Mas o que o fez não voltar ali por tantos anos não fora exatamente a enfadada constatação de que o tempo havia passado, com relação a isso ele tinha plena consciência e aceitação. O problema mesmo era o tempo do vazio e do silêncio que o roubaram. Podia ouvir o barulho dos três irmãos a brincar pelo jardim; da voz doce da mãe os impedindo de se aproximarem da roupa quarando; da respiração ofegante do pai que se escondia atrás do muro tentando os surpreender com o mesmo susto todos os dias; dos berros dos garotos simulando espantamento só para escutar o riso grosso do pai satisfeito com o sucesso de seu plano; e do seu coração acelerado todas as vezes que Dolores passava com suas tranças grossas pela travessa.
Naquele instante não ouvia berros, risos, vozes doces nem amargas, não existiam crianças brincando, não se podia perceber respirações ofegantes, mas seu coração permanecia batendo acelerado por todo esse tempo, em cada período por um motivo distinto. Dessa vez, o motivo era que depois de anos vivendo sucessivas perdas e vendo todos os seus próximos se esvaírem, ele finalmente se sentia preparado para encarar aquele cenário sem muitas dores, como provavelmente seria em outrora. As fatalidades e o tempo o conduziram para sábias conclusões que só dividira com seu caderno de anotações. Acreditava que cada indivíduo devia chegar ao seu fim com um saldo de padrões dos quais havia se desvinculado, por saberem que aqueles não os cabiam mais, ou que na verdade nunca os coube.  
De todos os paradigmas com os quais havia rompido o que mais se orgulhava era o mais recente: o medo da solidão. Porque esse para ele era o conceito mais cruel imposto para cada sujeito desde a sua infância, o escuro, o dormir só, o passar a vida sem se casar, o não ter filhos, o não gostar de boemia, o preferir um cálice de vinho em sua cadeira de balanço, tudo exaustivamente criticado, tudo obrigatoriamente tornado o contrário para se encaixar nos desejos dos que queria ter netos, dos que queriam se casar, dos que queriam dividir a conta do bar, dos que propunham sociedade... Todo esse excesso de companhia que o afastava dele mesmo, toda essa falta de solidão que foi clamada por tantas vezes, por um dia que fosse.
Prestes a não se incomodar mais por nunca ter vivido esse vazio, sentiu vontade de mostrar o seu caderninho de anotações a tantas pessoas jovens conhecidas e desconhecidas. A eles dedicaria: “Precisamos de quando em quando, o quanto antes, viver tempos de ouvir a própria respiração; de escutar o que está lá dentro guardado; de saber como é o próprio cheiro sem se misturar com o de mais alguém; de ter a consciência do quanto o silêncio pode ser barulhento e denso, ou melódico e macio; e do quão intransponível você pode se tornar para si sem viver esses momentos; Tempos para viver de si e para si”. Tempos chamados por ele de tempos de solidez, tempos de viver a solidão com lucidez.